O Homem do Saco

 

Nova Coimbra tem um detetive famoso, Davi Hermano, e tive o prazer de escutar em primeira mão o desfecho de mais um caso escabroso caído no colo do sisudo homem. Melhor dizendo, esse caso não lhe caiu às pernas, ele se intrometeu na investigação de outro colega que andava às rodas com a história do temido seqüestrador de crianças que agia no último dia do ano. Imagine começar um novo ano sem seu filhinho ou filhinha? Terrível, dor maior não imagino agora.

O monstro agia há cinco anos e ninguém conseguia uma pista sequer. Irritado, Davi, ao entrar no escritório um belo dia, arrancou das mãos do inspetor Paiva o dossiê sobre o sequestrador, que estava sendo lido e discutido.

Dizem que Hermano sentou à sua mesa, pôs os pés em cima das pastas e começou a folhear o documento, falando, por trás dos papéis:

– Eu cuido dessa merda.

Bem, aqui dou uma pausa para descrever, tão brevemente quanto eu conseguir, a peculiar cidade de Nova Coimbra. Será suficiente se o leitor imaginar uma cidade de médio porte, atarracada, enfumaçada, que quer porque quer parecer metrópole. Prédios sem graça, retangulares, ruas muito retas, nem largas, nem estreitas, becos, poucas praças, tudo cercado por casinhas mais ou menos postas sobre colinas, colinas de ruazinhas tortas e mais arborizadas.

Pronto, eis Nova Coimbra.

Ah, no meio de tudo tem um lago enorme.

Voltemos à narração. Hermano cuidou tão bem do problema que em menos de mês o criminoso estava executado – é que ele tentou resistir à prisão, mas eu não faço objeção à morte de canibais que comem criancinhas. A bem da verdade, tudo levaria mais tempo se não fosse dezembro, Davi esperou o momento certo para entrar em ação

O degenerado raptara seis crianças, sendo três delas irmãos, e aguardava o trigésimo primeiro dia de dezembro para pôr as imundas mãos na sétima. Nas noites tenebrosas, ele andava pelas ruas de Nova Coimbra maltrapilho, sujo, arrastando consigo um saco surrado manchado de sangue e suor, no qual bracinhos desesperados se debatiam a não mais poder.

Davi Hermano não teve grandes dificuldades para efetuar sua captura, pois antes de encetar a caçada, muniu-se de informações cruciais e fez uso correto da lógica aplicada à realidade, método de trabalho tão eficiente quanto ignorado. Primeiro, ele consultou os mendigos da cidade a fim de saber se, ao final do ano, eles costumavam avistar algum pedinte raramente visto. Ora, para essa abordagem, o raciocínio utilizado foi simples: em época de réveillon a população local sofre ligeira alteração, muitos residentes viajam, uns tantos visitantes chegam, e o clima geral de euforia e antecipação definitivamente não é propício a observações de detalhes; ou seja, ninguém notaria que um mendigo novo era novo, e se notasse, e daí? Não haveria disfarce mais perfeito.

Acontece que os mendigos sabem quem é quem, eles têm um tipo de sociedade secreta, e Davi sabe disso. Com dois dias de interrogatório, descobriu que um sujeito estranho aparecia pelas imediações nas manhãs do trinta e um. Gente boa, pagava bebida para os companheiros às vezes, mas no dia primeiro sumia. Manoel, pedinte profissional há três décadas, achava que o homem devia ser uma aparição, reflexo de um pobre infeliz morto naquelas ruas sabe-se lá quando.

Davi Hermano, por outro lado, concluiu que tinha seu homem. Ou seu verme, como preferir. Conseguiu a maior quantidade de detalhes que poderia conseguir acerca da aparência do indesejado visitante e esperou até a data na qual ele costumava aparecer. Avisou aos mendigos para que nenhum tipo de alerta fosse dado ao sujeito, pois na verdade o homem era perigoso, raptava crianças, tinha de ser parado.

Vários policiais foram distribuídos, à paisana, por Nova Coimbra, a fim de identificar o criminoso. Davi alimentava a esperança da identificação ser feita logo de manhã, assim, poderia segui-lo até o esconderijo, afinal, era improvável que o seqüestrador ficasse zanzando pelas ruas o dia inteiro.

Davi fumava seu favorito Lucky Spark e bebericava café, sentado a um quiosque, às nove da manhã, quatro horas após o início da operação, quando seu telefone tocou:

– Sr., o suspeito foi visto na avenida Helena. – Hermano deixou cédulas no balcão do estabelecimento e caminhou apressado para o carro, dizendo, ainda com o cigarro na boca, demonstrando habilidades que nunca entenderei:

– Não o perca de vista, não desligue esse telefone até nova ordem… Preciso lembrá-lo de ser discreto?

– Não, Sr. – Davi guardou o aparelho no bolso, entrou no carro, um Celta verde dos mais insuspeitos, e tocou para a avenida Helena.

A avenida Helena é uma das rotas principais dentro de Nova Coimbra; sairia dela a ponte para cruzar o lago Vesúvio Segundo, mas as autoridades enrolavam com a construção há tempos. A avenida é razoavelmente larga, ladeada por apertados centros empresariais, hospitais e poucas árvores, a maioria seca e na mofina. A atmosfera tristonha e conformada da cidade fazia-se especialmente presente ali.

Hermano trafegou livremente pelo asfalto, poucos ônibus, poucos carros, poucos pedestres deram-no bem-vinda liberdade de movimento. Trocou algumas curtas palavras com o policial e dispensou-o ao localizar seu alvo. O seqüestrador estava sentado na calçada, encostado a um pilar de formas retas pertencente a um edifício empresarial, de braço estendido, recolhendo qualquer centavo que tocasse sua palma ou quicasse perto dele; atirava as moedas ao grande saco quase roto.

Davi estacionou o carro numa rua adjacente e entrou no prédio, conhecia-o, logo no térreo havia uma praça de alimentação, pegou a mesa mais próxima à saída, pediu lanche, pagou adiantado, acendeu novo cigarro e disfarçadamente observou a presa, pronto a ir ao seu encalço quando preciso.

Horas se passaram, o meio do dia chegava e nada do mendigo se mover. Impaciente e não agüentando ingerir mais o que quer que fosse, Davi se ergueu, puxou a Taurus, causando alarme nas pessoas próximas, desceu a breve escadaria e apontou a arma para o pedinte, que assustado, tropeçou ao tentar ficar de pé, com as mãos ao alto.

Disse o inspetor:

– Eu sei quem você é e você vai me levar até o seu esconderijo agora mesmo!

– Não, tem engano aí, eu sou ninguém não, meu Sr… – Davi destravou a arma.

– Pare de conversa, cabra safado, estou sem paciência!

– Pois se acalme, homem, não sei do que você tá falando, tem engano aí… – Tiro pra cima, gritos de pânico, pneus cantando em aceleração. O mendigo se abaixou, braços acima da cabeça.

– O próximo é em você! Vai continuar com palhaçada?! – policiais chegaram ao local e Davi foi logo ordenando: – Algemem este merda!

Algemado, o bandido foi posto no banco traseiro do Celta junto com outro oficial, Roberto Góes. Davi engatou a primeira e começou a dirigir, recomeçando em seguida:

– E aí, como a gente chega no teu antro?

– Meu senhor, isso é um engano! – os olhos dele marejavam.

– Que eu cegue se for engano. Fale! Como a gente chega lá?

– Responde, é melhor pra ti. – Completou Góes, os dentes cerrados, pressionando o pescoço do preso com o cano de sua Taurus.

– Eu não sei do que vocês estão falando! – começou a chorar, meio contra a vontade.

– Tudo bem, vamos ver. – Assentiu Davi, sem parar de dirigir. – Qual o nome de seu pai? – relanceou a vista para o retrovisor. O homem cessou as lágrimas imediatamente e titubeou.

– Oi?

– Nome completo de sua mãe, agora!

– Fernanda Silva. É Fernanda Silva. – Provavelmente, Davi Hermano pensou que o nome era bastante conveniente.

– E o do pai?

– É…

– Do pai, agora!

– Fernando Silva!

– O seu?

– Diego Souza! Silva, Diego Silva!

– Nasceu onde?

– Aqui mesmo.

– Que hospital?

– Foi em casa.

– Onde fica sua casa?

– Não sei, fui despejado ainda menino junto com minha família!

– Seus pais?

– Mortos, já!

– Parente?

– Nenhum que eu lembre!

– Amigos!

– Sempre fui sozinho!

– Mas que conveniente, não?! – esbravejou Davi. Roberto destravou a pistola.

– É a verdade!

– Pois tá certo, tá certo, me diga quais as ruas que você costuma ficar! Agora! – o falso mendigo engoliu em seco, nitidamente apavorado.

– As ruas…

– Você vive nelas, não? Nasceu aqui, não? Fala dez ruas dessa cidade! Fala agora!

– Tu não sabe, né, infeliz? – disse Roberto Góes, pressionando o cano da arma contra o pescoço suado do outro.

– Avenida Helena, Beira Lago… Dr. Paes…Rua General… General… – gotas frias promanavam da testa apertada do meliante. – Eu estou sempre bêbado, sempre, não sei nome de rua, por favor, é a verdade! – soluçou. Davi entrou na primeira à direita e seguiu convicto.

– Tá indo pra onde, Hermano? – perguntou Roberto.

– A Dr. Paes não é rua muito conhecida nem pra quem mora aqui. O esconderijo desse filho da puta deve ter entrada n’algum beco lá por perto.

Davi estava correto. O seqüestrador, além do nome do que poderia facilmente ser considerada a avenida principal de Nova Coimbra, citou duas vias que, se usadas sucessivamente, desembocariam na rua Dr. Paes. Seguindo-se a Beira Lago, dobrava-se à direita após o Café Imperial para cair na General Abílio, que cortava bom pedaço da cidade, fazendo uma curva e quase esbarrando com a periferia. Uma das ruelas que davam na curva era a Dr. Paes, que não tinha saída, mas abria-se para duas vielas igualmente emparedadas.

Abismado, o homem capturado interrompeu o repente lacrimoso, assumiu postura severa, e falou, buscando os olhos do inspetor pelo retrovisor:

– Eu não sei o que dizer.

– Comece dizendo o que fez com as crianças. – O carro cruzava a arborizada Beira Lago, único caminho da cidade, fora da periferia, no qual abundava verde. Mesmo no último dia do ano existiam aquelas pessoas dispostas a corridas ou flexões.

– Você vai ver.

– Como assim ele vai ver, seu doente desgraçado, o que você fez?! – Góes afundou a pistola na carne do réu confesso.

– Vamos ver, Roberto. – Hermano esbanjava recém adquirida tranqüilidade. – Mas antes, vamos mostrar ao nosso visitante que belas colinas temos em Nova Coimbra. Quê acha?

– Acho muito apropriado.

– Quê? Não quero ver coli… O que vocês vão fazer? – o carro passou o Café Imperial. – O que vocês vão fazer? A entrada passou! A entrada passou!

– Cala a boca, está reagindo à sua captura? – inquiriu Davi, acendendo outro cigarro.

– Não, não, vocês não podem fazer isso, não podem…

– Onde é a entrada do seu esconderijo?

– Vocês não podem fazer isso!

– Eu acho que ele está reagindo, Góes.

– Também tenho essa impressão, viu, Hermano?

– Eu tô algemado, seus cagões! Vocês não podem fazer isso!

– Insulto.

– É, foi ofensa.

– Reação.

– Parem! Parem! Vocês não… – Roberto deu-lhe uma coronhada firme no supercílio, que sangrou prontamente. – Cale a boca. – Disse.

O veículo deixou a zona mais urbana, atravessou ruazinhas pacatas e inclinadas, e adentrou numa estrada de terra vermelha. Parou, duas portas foram abertas e assim permaneceram; o homem do saco foi arrastado do banco traseiro, debatia-se violentamente. Roberto o lançou ao chão; mal tocou o barro, ele se virou de qualquer jeito e quis correr. Davi Hermano pôs o braço reto e cuspiu três tiros.

Os policiais revistaram o cadáver, encontraram um molhe de chaves e o puseram no porta-malas. Livraram-se dos vestígios de sangue na estrada, entraram novamente no carro e voltaram à Beira Lago.

 

Descobrir o esconderijo do visitante não foi difícil; havia uma porta baixa, toda de ferro, mantida a cadeado, atrás de uma caçamba de lixo nos fundos de um dos becos sem saída. Davi e Roberto tiveram quase que ajoelhar para ter acesso ao interior do local, e uma vez lá dentro, descobriram que um gerador fornecia a iluminação necessária para sabe-se lá quais crimes sórdidos serem cometidos.

O cômodo diante dos investigadores estava empoeirado e parecia destacado de nosso mundo graças à etérea aura proporcionada pela luz amarelada e ao senso de isolamento inerente aos abrigos subterrâneos, por mais mequetrefes que sejam. Prateleiras tortas perfilavam gatos sem pele socados no formol, e pregadas nas paredes, quatro ou cinco peles de serpentes, ressecadas, conferiam peso maior ao ambiente. Rastros antigos de sangue podiam ser vistos por toda parte.

Hermano cobriu a boca para falar, pois o cheiro fazia-se insuportável:

– Procure outra porta secreta. – Góes assentiu, mantendo-se calado, segurando a tosse.

A dupla vasculhou rapidamente o aposento, e atrás de vassouras, esfregões e baldes, deslindou novo portal, tal qual o primeiro. Uma barata cascuda irrompeu em fuga quando seu reino foi posto abaixo, as chaves foram testadas e a passagem abriu.

Escuridão absoluta, impenetrável.

Davi tirou do bolso o maço de cigarros, equilibrou um deles entre os lábios, acendeu-o…

: Vai iluminar com o cigarro? – espantou-se Roberto.

– E por que eu faria isso, se tenho isqueiro? – retrucou Hermano, encarando o companheiro. Após momentos silenciosos, Góes disse:

– O isqueiro, então.

– Não. – Davi guardou os acessórios de fumante e sacou a pequena lanterna portátil.

– Ah.

– Eu vou. Você fica aqui para o caso de aparecer alguém.

– Tá, tá. – Roberto tossiu, afastando-se, olhando apreensivo para a sala, como se esperasse ataque vindo de qualquer lado. Destravou a pistola.

– Trave esta porra. – Voltou-se Davi, cobrindo a boca.

– Por quê?

– Se eu voltar e você se assustar, pensar que é outra pessoa? Morri?

– Tá. Vai lá. – Travou a arma.

Davi Hermano embrenhou-se no escuro, vendo somente o que era captado pelo fino facho de luz e um pouco dos arredores imediatos. Andava curvado, e permaneceu na incômoda posição por minutos, descendo suavemente para o inferno das crianças seqüestradas.

O leve odor de putrefação que o atingia, como aquele que exala de covas rasas cobertas apenas por terra em alguns cemitérios, já prenunciava a agonia indizível sofrida por aqueles jovens. Hermano forçou-se a continuar, a despeito da crescente enervação que sentia, a despeito das marcas sanguíneas também ali, naquele túnel, dispostas. Fez o possível para não vomitar. A podridão, física e moral, invadia seu corpo, sacudia suas entranhas.

Encerro este maligno relato afirmando que, lá embaixo, no coração das trevas, jaziam esqueletos e corpos decompostos incompletos. Roberto Góes, lá em cima, por sua vez, achara um macabro caderno manchado contendo detalhes sobre a preparação de pedaços de carnes que outrora pertenceram àquelas desgraçadas crianças, arrancadas impiedosamente de suas sempre desconsoladas famílias.

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