Trechos de diários, notas, rascunhos e impressões #2

2016

Bragança Paulista

Sou, sobretudo, um escritor, e escritores escrevem, escritores devem jogar as sementes aos mais variados tipos de solo, colher as palavras que brotarem e selecioná-las para servi-las a Deus, a si mesmo e aos outros. Isso só é possível com uma prática constante, com um exame interminável, em suma, com um trabalho sem espaço para descansos, porque trabalho, autoconhecimento e necessidade simultaneamente. O prazer nem sempre está presente. O prazer freqüentemente, aliás, se ausenta.

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O ofício de escritor talvez seja um dos mais desgastantes do mundo

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Comecei a ler Moby Dick, do Herman Melville, e achei curioso, talvez mesmo interessante, o modo que ele prepara o leitor para que pense intensamente em baleias, especialmente no cachalote. Primeiro, ele apresenta uma rápida etimologia da palavra whale; depois, há páginas e páginas com fragmentos que se referem a baleias e baleeiros retirados da literatura mundial; só então nos é apresentado Ismael, homem que, sensatamente, prefere embarcar num navio em momentos de crise na vida ao invés de se suicidar.

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Avancei mais na leitura de Moby Dick e estou achando Ismael um personagem irritante e interessante. Durante a estadia na Estalagem do Jorro, o caráter desnecessariamente detalhista, orgulhoso e preconceituoso – preconceito provavelmente advindo do puritanismo – do personagem é evidenciado. Para alguém disposto a lançar-se ao mar na condição de “simples marinheiro” e sabendo bem o que isso significa, o homem se ofende fácil demais e repara sobremaneira em ninharias.

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Prossegui na leitura de Moby Dick e muito me diverti com o vexame que o Ismael deu no quarto da estalagem ao receber o selvagem Queequeg na mesma cama. O apelo aos anjos foi sensacional.

Mesmo dia, noite.

Começo a achar Melville um tanto enrolão, ou melhor, Ismael. É incrível como o sujeito se perde em rodeios praticamente desnecessários. Não ignoro, porém, que tudo faz parte da construção da ambientação; Melville vem erigindo as bases de sua tragédia desde a primeira página, afinal.

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Estou fazendo uma tradução para o site Tradutores de Direita cujo texto indica livros sobre guerra. Ao chegar na sinopse do título de Victor Davis Hanson acerca das batalhas da infantaria na Grécia antiga, fiquei abismado com a suposta burrice do sujeito – e digo suposta porque não posso fazer um julgamento definitivo sem ter lido o livro. Tomando a sinopse como apurada, Hanson tentou investigar os lugares comuns, o conhecimento comum que temos sobre guerras antigas. O inteligente, por exemplo, intrigado por frases como “E então os soldados devastaram a terra”, resolveu montar uma equipe, vestir todo mundo de soldado grego e tocar o terror num pomar de azeitonas. Após tão árduo combate, ele chegou à conclusão de que era muito difícil causar mais do que danos superficiais às plantas; imagino que tirou daí que tal tipo de sentença não poderia ser considerado de maneira literal. O que ele esquece, se isso for mesmo verdade, exatamente desse jeito, é que os espartanos muito provavelmente eram muito mais fortes do que os homens acomodados em escritórios de nossa era. De todo modo, seria mais apropriado que o teste tivesse sido feito com lutadores de MMA. Ele também parece esquecer, inexplicavelmente, a existência do fogo e do veneno, maneiras efetivas de devastar a terra.

Hanson também tenta derrubar os grandiosos discursos pré-combate que vemos em filmes e lemos em livros com a afirmação de que os elmos gregos da época não possuíam buracos para os ouvidos. Quão idiota a pessoa tem de ser? Hanson fica surdo se pressionar, digamos, as palmas das mãos contra as orelhas? Os soldados não poderiam simplesmente remover os elmos?

Eu sinceramente espero que o livro dele não siga essa linha imbecil, pois pretendo ler todas as obras indicadas na lista, e se seguir, que o cidadão tenha se corrigido, pelo amor dos anjos.

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Hoje, movido pela curiosidade após ler numa apostila do Olavo que a Catedral do Rio era uma monstruosidade, fui ver fotos da coisa e não pude evitar de imaginá-la como perfeito exemplo de prédio jurídico ou administrativo do inferno.

 

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