Trechos de diários, notas, rascunhos e impressões #3

2017

O primeiro capítulo de “A Vida Intelectual”, de Sertillanges, no qual ele diz que a vida intelectual é uma vocação, já me lançou algumas lições úteis, e francamente óbvias, mas daquela obviedade que precisa ser apontada ou costumamos não enxergar. Basicamente, colhemos o que plantamos, e se dedicarmos duas horas por dia, não mais do que isso, a desenvolver nossos atributos intelectuais, em poucos anos o resultado será formidável, e mais sólido do que os resultados que alcançam as lebres de arrancadas ligeiras. Sertillanges nos convida a ser a tartaruga da fábula. Ele também nota que a vida intelectual pode ser alcançada em qualquer lugar que a pessoa viva, seja numa cidade grande, seja numa pequena vila, pois livros existem em todo lugar, e de qualquer modo, poucos já são o suficiente.

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É incrível como tudo na modernidade induz ao rasteiro, é incrível como o que há de mais puro e belo é puxado insistentemente ao chão. Tem gente que não olha uma mulher bonita sem pensá-la de quatro, tem quem não forme laços sem considerações a retornos financeiros e sociais, tem quem não se eleve sem ser para sentir-se por cima dos outros.

Eu me oponho a tudo isso, embora seja fraco, sujo e quebrado. Pois me oponho; há em mim uma centelha de luz, e quero que esse fogo enfermiço vibre o quanto puder nas minhas entranhas. Não o deixarei morrer. Se morre ele, morro eu.

 

O que escrevi acima vai bem em O Brasileiro Sonhador

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Sertillanges fala sobre a importância do equilíbrio entre ação e contemplação, e mais adiante, esclarece que a solidão necessária ao intelectual não é necessariamente a solidão física, mas um “estado de solidão”, uma espécie de elevação sobre todas as distrações cotidianas, sejam elas internas ou externas.

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Dizer que homem é homem e mulher é mulher já não é visto com bons olhos por muita gente. Defender a manutenção de pessoas em estado de miséria na rua, desnutridas, abusadas, vivendo como ratos sem a mínima dignidade, é encarado por alguns como um ato de amor. Defender o aborto como método contraceptivo é socialmente aceitável para muitos. Pra muita gente, é perfeitamente normal paparicar criminosos violentos dos mais repugnantes e cultuar genocidas convictos.

Que Deus não permita que esse misto de maldade e insanidade me alcance. Se continuarmos assim, um dia será crime ouvir e enxergar.

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O brasileiro parece ter uma mania irresistível de fugir para abstrações.

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Abaixo vai a justificativa para o conto treino O Grilo.

 

Em O Grilo, eu quis ilustrar um pouco daquelas situações nas quais nos incomodamos tanto com coisas insignificantes que elas se tornam monstruosas. Mateus não conseguia dormir e transferiu gradativamente a culpa por sua incapacidade de pegar no sono, para um grilo que cricrilava em outro cômodo da casa, talvez mesmo no quintal. Assim, o inseto o perturbou de modo tal que apareceu aos seus olhos como uma besta enorme e terrível.

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Vi uma vez a chamada para uma reportagem da Scientific American que dizia, basicamente, que era prejudicial ignorarmos nossos relógios biológicos, e dava à afirmação o peso pomposo de ciência afirma. Lendo Sertillanges, em seguida, me deparo com isso: “Sendo os momentos da vida valores muito desiguais, e obedecendo, em cada um de nós, a repartição destes valores a leis diversas, não podemos estabelecer regra absoluta; mas cumpre insistir neste particular. Estudai-vos; tende em consideração a vida, o que ela permite, favorece ou interdiz, o que ela propõe para as horas ardentes. Como distribuí-las? De manhã ou de tarde? Parte de manhã e parte de tarde? Só vós podeis decidir porque só vós conheceis as vossas obrigações e a vossa natureza, donde depende a estrutura imposta aos vossos dias.”

Quem espera pelas instruções da ciência contemporânea para formar seus hábitos, além da chance enorme de os formar erroneamente, provavelmente ficará para trás.

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