Notas sobre duas peças de Gil Vicente

A Farsa de Inês Pereira

Gil Vicente escreveu a Farsa de Inês Pereira para provar a críticos que era ele mesmo quem escrevia as peças que assinava. Desafiaram-no a desenvolver uma história com o tema “Mais quero asno que me leve que cavalo que me derrube”, e ele assim fez.

O cavalo, animal mais nobre, é o segundo pretendente de Inês Pereira, que vem a ser seu primeiro marido, o escudeiro. O asno, um animal mais vulgar, é o primeiro pretendente, e segundo marido, um fazendeiro rico e meio sem modos, porém de bom coração.

Inês, a princípio, deseja o cavalo e zomba do asno.

Ora, o escudeiro, depois que casa com Inês, mantém a mulher presa em casa, sequer a deixa cantar ou ir à janela, e é excessivamente duro com a esposa, opressor mesmo. Como quase todo valentão dentro de casa, contudo, o sujeito se revela um covarde no mundo além do quintal e é morto enquanto fugia de uma batalha por um simples pastor.

Inês, então, casa com o fazendeiro e tem uma vida muito feliz. Detalhe: ao final da farsa, o fazendeiro literalmente atravessa um rio com a esposa nas costas. Gil Vicente sambou na cara dos críticos.

 

Auto da Barca do Inferno

O “Auto da Barca do Inferno” trata, basicamente, do destino final de vários personagens, destino esse em consonância com suas respectivas escolhas em vida.

Há duas barcas à praia, uma que leva ao Paraíso e outra que leva ao Inferno. Na do Paraíso entram um idiota – ignorante demais para ser condenado – e um pequeno grupo de cavaleiros mortos por mouros em nome de Cristo. Já ao Inferno vai todo o resto que aparece.

Uma lição interessante que a peça dá é que não adianta comungar, confessar, fazer penitência e esquentar banco de igreja se o arrependimento não é sincero, se o apego pela erronia é maior do que o apego a Cristo.

Para mim, homem desse tempo, a peça pareceu a um só tempo corrida e cansativa por causa da grande quantidade de personagens apresentados em poucas páginas. À época o negócio deve ter funcionado maravilhosamente, pois Gil trabalhava com tipos conhecidos e reconhecíveis da sociedade de então, portanto, não tinha tanta necessidade de desenvolver suas personagens.

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