Trechos de diários, notas, rascunhos e impressões #4

2017

 

Ouvi tiros lá fora.

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Vi algo interessante em Jurassic World. os sobrinhos da Claire se metem em encrenca quando resolvem entrar numa área restrita conduzindo uma espécie de veículo bolha. Os garotos, criados apenas na cidade, protegidos, sem noção concreta dos perigos e características do mundo selvagem, se deparam com a realidade bruta que quebra a bolha dentro da qual eles estavam seguros.

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Boa parte da minha mudança eu trouxe andando. Na primeira manhã que me dispus a isso, saí com uma estante vermelha, e a meio caminho da casa nova veio, descendo a rua, uma ambulância. Ora, eu estou gordo, e minha família tem histórico de doenças cardíacas; pensei então que a ambulância pudesse ser alguma espécie de aviso divino para que eu não exagerasse nos esforços empreendidos.

Mais à frente, parei para descansar à sombra d’uma arvorezinha, e olhando ao redor, vi, na porta de uma casa, a representação de nosso Senhor Jesus Cristo crucificado. Sorri, meio nervoso, e virei a esquina. Após alguns passos dados, a grade verde que cerca o Velório surgiu, e pouco depois jazigos do Cemitério da Saudade despontaram no horizonte, por trás do muro branco.

Vou ter um troço, ser levado ao hospital, encomendar minha alma a Cristo, ser velado e enterrado, pensei.

Mas prossegui, e meus dias se resumiram a carregar estantes, colchões, cômodas, máquina de lavar, centenas de livros, malas cheias de roupas e eletrônicos, utensílios diversos…

Deus teve piedade de mim e não puniu com a morte minha teimosia. Ontem mesmo subi as ruas carregando um roupeiro e acabei aceitando ajuda do segundo sujeito que a ofereceu.

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Começo a achar que as forças do mal se empenham tanto em destruir a literatura, a ficção, tornando-a insignificante e completamente afastada da realidade porque a boa literatura, a boa ficção, por trabalhar com possibilidades e por conversar vivamente com a realidade, expõe sem cerimônias os maus e seus planos funestos, de modo que a população fica mais ou menos atenta a certos padrões comportamentais e a coincidências estranhas, frustrando, por tabela, diversos projetos de pessoas malignas.

Por isso é importante, para os maus, que a ficção perca totalmente a relevância e não se importe mais com a verdade ou com outros valores pouco convenientes; assim, o imaginário do povo fica comodamente restrito e deformado, de modo que possibilidades humanas concretas desaparecem completamente do horizonte geral de consciência e as pessoas trombam perdidas umas nas outras sem conseguir entender muito bem os acontecimentos sociais ao redor, sem conseguir mesmo vislumbrar corretamente o humano ao seu lado e dentro de si.

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Lembro-me que, quando mostrei a um conhecido meu neo-ateu um poema que fiz, poema escrito pela perspectiva de um personagem igualmente ateu, e tão ranzinza quanto Richard Dawkins, ele teve imensa dificuldade em entender que eu não compartilhava intimamente das opiniões daquele personagem. Ora, o dever primeiro de um escritor é compreender as pessoas, as idéias, as coisas, e para compreender verdadeiramente é necessário suspender qualquer tipo de julgamento, fazer cessar dentro de si qualquer conflito que interfira na compreensão do assunto em questão; do contrário, não será possível, por exemplo, criar personagens críveis que realmente representem possibilidades existenciais.

 

O poema em questão estava em inglês e só lembro dos dois primeiros e dos dois últimos versos:

 

To believe the things the believers do

Is a great shame to no matter who

 

e

 

And when I lay my head to rest

My mind is ready for the test.

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