Trechos de diários, notas, rascunhos e impressões #5

A orquestra dos maus toca incessantemente. Os bons se contentam com solistas desencontrados aqui e ali.

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O professor Olavo já sugeriu mais de uma vez um programa anual de leitura que consiste de 60 livros. Não lembro exatamente das divisões sugeridas, mas são cerca de 15 de literatura, 20 de história ou memórias, 5 de filosofia, 5 de ciências naturais, etc. Além disso, ele sugere várias leituras inspecionais de outros livros, mais a leitura de diversos artigos de revistas especializadas.

Oras, sabemos também que é saudável ouvir música, de modo que é bom apreciar obras musicais. Assistir a filmes de vez em quando também é útil e agradável; também não faz mal visitar museus que exibam itens históricos e arte real. Ainda possuímos nossos trabalhos e nossas obrigações religiosas e familiares.

O que Olavo sugere é puxado, e para muitos de seus alunos, impossível; só que vejo algumas pessoas dizendo que lêem 100 livros ou mais num ano.

Qual a qualidade dessas leituras? Essas pessoas realmente absorvem as obras? Poderão conversar sobre elas daqui a dois ou três anos? Poderão explicá-las?

A mim me parece que o sujeito que lê 30 livros por ano, mais alguns poucos artigos acadêmicos, fazendo anotações, se propondo exercícios, buscando clarificar, por meio de consultas a grandes mestres e entendidos, pontos mais obscuros, falando das obras para alguém, copiando trechos e escrevendo, está muito melhor preparado e passa um ano muito mais proveitoso do que o apressado que ostenta uma lista de 100 ou 120 leituras, mas que, se perguntado em outubro sobre aquilo lá que leu em janeiro ou fevereiro, titubeia e tergiversa.

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Stranger Things me lembrou de uma época mais simples, com mais interação real entre as pessoas e sem divisões tão extremas na sociedade. Não tive minha infância nos anos 80, e sim nos 90, mas posso me identificar com muito do que foi mostrado ali. Eu andava de bicicleta, brincava com meus colegas – meu grupo não era tão interessante quanto o do seriado – consumia músicas, livros e filmes exclusivamente em mídias físicas. As pessoas se olhavam mais nos olhos e o senso de caridade na sociedade era muito maior.

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Os “artistas” revolucionários posam de superiores diante do povo que supostamente não entende o que eles fazem. Se rimos das porcarias que apresentam, ou se as achamos revoltantes, somos sem cultura, sem capacidade para entender os significados, somos gente não preparada para contemplar o fogo da tocha sagrada dos iluminados.

Só que não devemos nos intimidar ou envergonhar, pois eles sabem perfeitamente a bosta que estão fazendo, e sabem que o único apoio que conseguem vem de gente torta ou realmente ignorante. Não devemos parar de apontar a nudez do imperador só porque ele diz que somos néscios demais para enxergar o deslumbrante tecido com o qual se veste. Pelo contrário, quanto mais histérico e raivoso ficar o imperador, quanto mais bradar e berrar que somos raça burra e inferior, mais alto deve ecoar nossa zombaria, e ainda com mais garra e certeza devemos defender nossos valores.

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Os olhos da Carolina são belíssimos. Parecem jóias castanhas recém-lavadas e contém vida o suficiente para embriagar alguém, ou para prender uma pessoa por horas a fio.

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Há uns anos me meti a escrever haicais. Só que eu não tinha, ainda, a menor noção da língua japonesa, sabia apenas que haicais eram poemas curtos e que o poeta não possuía tantas opções quanto à disposição dos versos. Os poemetos mais comuns tinham, no primeiro e no último verso, cinco sílabas, e no segundo, sete. Agarrei-me a esse modelo e danei a escrever o que à época eu via como haicais, e os fiz com duas variações no que diz respeito à contagem das sílabas, isto é, escrevi alguns usando a nossa contagem de sílabas poéticas e outros usando a contagem japonesa; o que eu pensava ser a contagem japonesa. E para deixar tudo mais interessante, fiz também alguns haicais livres…

Graças a Deus eu não tentei lançar aquela porcariada toda reunida em livro. Pelo contrário, quanto mais eu estudava, mais eu via como aquilo estava idiota, e hoje, já com razoável noção de japonês, entendo a mancha que aquilo seria na minha produção literária.

Talvez algum pseudo-poetinha revolucionário, sedento por fama e reconhecimento entre os seus, tivesse mantido sob sua guarda, ciumento e orgulhoso, um trabalho daquele nível – eram mais de 400 tentativas frustradas de haicais, e sabemos como posers são preguiçosos e como se têm em altíssima cota mesmo quando não fazem nada direito – mas eu quero ser um escritor de verdade, e como já disse aqui outro dia, escrever de verdade é difícil.

Foi com alegria que me despedi daqueles 450 textinhos estúpidos.

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