Trechos de diários, notas, rascunhos e impressões #6

2017 – Bragança Paulista

Não sei se é a idade chegando já perto aqui da esquina de casa, mas lendo Inocência, do Visconde de Taunay, percebi que acho as pessoas excessivamente românticas perigosamente egoístas, e além disso, não peguei tanta antipatia assim do Pereira e do Manecão, pai e noivo da moça conquistada pelo curandeiro Cirino.

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Eu diria que um dos temas centrais do primeiro filme do Homem de Ferro é a inveja. O que move Obadiah Stane é a inveja que ele sente de Tony Stark, inveja mais forte do que a ambição em dominar as Indústrias Stark, pois ficou claro que, se quisesse, ele podia levar Tony só na conversa e fazer o que bem desejasse.

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Iron Man 2 acaba trazendo, não sei se intencionalmente, a mensagem de que é idiota enxergar ciência e tecnologia como algo intrinsicamente benéfico. Essa mensagem é passada em praticamente todos os filmes da Marvel, se não me engano, mas aqui tenho a impressão de que essa mensagem está mais destacada.

Outra coisa interessante que o filme faz é mostrar a diferença entre pessoas vocacionadas e pessoas não vocacionadas. Tony Stark e Ivan Vanko têm vocação para a física e a engenharia de ponta; Justin Hammer, não. Os projetos de Hammer são falhos e ele claramente não se sente confortável no meio tecnológico.

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O primeiro filme do Capitão América do MCU tem um problema de ritmo cujo motivo ainda não identifiquei. No mais, destaco por enquanto uma fala do Caveira Vermelha. Ele diz que, no futuro, não existirão bandeiras nacionais. Ora, não é esse o maior sonho globalista?

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O diretor do novo Star Wars disse que, para avançar, é necessário largar o passado. Não, imbecil, para avançar, se tomamos o termo avançar como algo positivo em geral, é necessário respeitar o passado, aprender com ele e incorporar na vida ou nas obras as lições aprendidas.

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The government is the only thing we all belong to. Isso é assustador, e foi o lema da convenção do Partido Democrata Americano em 2012. O cidadão que repete isso está dizendo que pertence ao Estado. Está aceitando a servidão. Está aceitando entregar o controle de sua própria vida nas mãos de outras pessoas, pois o Estado não é uma entidade corpórea, não é uma divindade, não é mesmo apenas um ente abstrato. Ele é composto por outras pessoas. O Estado é composto por outras pessoas. Muita gente parece já ter perdido isso de vista.

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Gil Vicente, como outros grandes mestres da literatura, não só consegue compreender e transmitir características essenciais de sua época, como também compreende e transmite aquilo que há de universal no próprio ser humano. Além disso, ele é, se levarmos a sério as palavras de Segismundo Espina, como se fosse o espelho invertido de Camões. Enquanto nosso maior poeta almejou as alturas e deu, em Os Lusíadas, o protagonismo a um herói melhor do que nós, Gil Vicente parece ter se contentado com o degrau mais baixo da escala Aristotélica, explorando tipos inferiores a nós.

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Li que Gil Vicente se preocupava mais com o psicológico dos tipos com os quais enchia suas peças e com a poesia de seus diálogos do que com as regras renascentistas para o teatro, e que isso fazia dele, então, um artista mais medieval. A tirar por isso, concluo, portanto, que os medievais eram mais artistas do que os renascentistas.

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Gil Vicente, segundo o estudo de Segismundo Espina, levou os Autos ao ápice dramático. Oras, os Autos, originalmente, eram peças religiosas focadas em temas e mistérios importantes do cristianismo. Gil, apesar de ter escrito Autos genuinamente religiosos, também escreveu uns com temática mista e outros totalmente profanos, mas sempre com alta qualidade literária. Seus continuadores, porém, rolaram ladeira abaixo e encheram os “autos” de obscenidades e linguagem rasteira, de modo que a representação deles ficou imprópria, e de modo que o que faziam, evidentemente, deixou de ser chamado de auto. Os autos continuaram na Espanha, mas minguaram em Portugal.

Se assumirmos o escrito como verdade, temos aí a clara linha da decadência humana. Primeiro, peças sobre assuntos elevados, peças que exploravam e contemplavam a natureza do divino, digamos assim. Depois, esse tipo de assunto foi misturado com coisas mundanas, e depois o mundano se apoderou completamente do formato antes reservado para os milagres e mistérios, e o que nasceu na Igreja acabou rastejando na lama dos prostíbulos.

Morgoth estaria orgulhoso.

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O filho de Gil Vicente alterou algumas obras do pai. Se um filho meu fizer isso, será assombrado até a morte.

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