Brevidades #5

Essas pessoas que gostam de sair espalhando que foram destratadas por causa de cor ou de opção sexual devem avaliar com cuidado se foi mesmo isso que aconteceu ou se elas estavam agindo de modo suspeito ou inconveniente.

Lembro de uma moça que contou, numa aula de pedagogia, como estava abismada com a homofobia de um cidadão que havia saído de perto dela e dos amigos num shopping. Só que ela própria disse algo mais ou menos assim: “A gente só estava rindo, brincando, somos bem animados…” Não é difícil imaginar que o tal grupo fazia uma algazarra dos infernos, é?

Querer sossego é homofobia?

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Vendedora da Marisa, hoje, para a Carol:

— É tanta promoção que a gente se confunde. Acho que estamos com uma de “Compre essa blusinha e leve eu junto.”

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Vi uma vez a chamada para uma reportagem da Scientific American que dizia, basicamente, que era prejudicial ignorarmos nossos relógios biológicos, e dava à afirmação o peso pomposo de “ciência afirma”. Lendo Sertillanges, em seguida, me deparo com isso: “Sendo os momentos da vida valores muito desiguais, e obedecendo, em cada um de nós, a repartição destes valores a leis diversas, não podemos estabelecer regra absoluta; mas cumpre insistir neste particular. Estudai-vos; tende em consideração a vida, o que ela permite, favorece ou interdiz, o que ela propõe para as horas ardentes. Como distribuí-las? De manhã ou de tarde? Parte de manhã e parte de tarde? Só vós podeis decidir porque só vós conheceis as vossas obrigações e a vossa natureza, donde depende a estrutura imposta aos vossos dias.”

Quem espera pelas instruções da ciência contemporânea para formar seus hábitos, além da chance enorme de os formar erroneamente, sempre ficará para trás.

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Vi um comentário todo escrito em caixa alta e quase sem pontuação. Tive de me segurar pra não responder EITAPORRAEITAPORRA!

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Vi uma professora explicar para um aluno que não se deve chamar os surdos de deficientes auditivos porque eles, os surdos, apenas se comunicam em uma língua diferente, Libras, e isso não seria deficiência; ou os estrangeiros são deficientes para nós?

A mulher é professora. É preciso ser irremediavelmente burro agora para “ensinar”?

A deficiência do sujeito é AUDITIVA, não COMUNICATIVA. O surdo não escuta, ou escuta muito pouco. Ele tem um problema FÍSICO que o impede de escutar adequadamente, logo, se um piano está para cair em cima dele, não vai adiantar nada o sujeito que está uns metros atrás gritar para ele tomar cuidado.

Queria ver o que diria a professora sobre deficientes visuais. Em tempo, uso óculos desde os dois anos e meu grau não é tão baixo.

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Carol:

— Que nome você teria se fosse menina, tua mãe já te disse isso?

Eu:

— Acho que o mesmo.

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Ouvindo “When we stand together”, do Nickelback, acabei lembrando de onde morava em Recife:

“There’s bullets flying through the air
And they still carry on”

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Uma coisa interessante que noto ao conversar com outros alunos do Olavo, seja pessoalmente ou pela internet, é que eles, ao contrário de praticamente todas as outras pessoas que vejo por aí nesse Brasil de Deus, quase sempre reconhecem suas limitações e evitam ao máximo falar de assuntos sobre os quais pouco ou nada entendem. Para completar, os assuntos que entendem ou buscam entender são levados bastante a sério, e qualquer um que converse seriamente com essas pessoas a respeito dos temas que as interessam, sobre assuntos que elas estudam, só tem a ganhar em conhecimento.

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Enquanto praticava hoje, percebi que meu francês tem sotaque italiano. Estou até agora querendo saber como diabo isso é possível.

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Vejo direto gente que não tem filho — e nem quer ter! — se metendo a dar lições a pais e mães. Pra começo de conversa, se não tem filho, cale a boca. Quais as intenções dessas pessoas para as crianças dos outros?

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Já vi muita gente dizer que tem facilidade em escrever ficção, ou escrever, no geral. Facilidade com ficção eu também pensava que tinha, aos 15 anos já havia escrito um livro de 380 páginas (que apaguei meses depois, por achar idiota) e meu primeiro livrinho, com 30 páginas, escrevi aos 8. Depois que conheci o Olavo e o Rodrigo Gurgel passei a ficar mais exigente comigo e a perceber que muito do que eu achava que estava bom não estava sequer satisfatório. Desde então já apaguei muitas outras coisas que fiz, centenas e centenas de páginas, e se em 2014 ou 2015 eu contava 21 livros escritos, dados como terminados, hoje conto apenas um, que provavelmente ainda será revisado uma última vez, sem,prejuízo à obra. Quando começamos a escrever de verdade a coisa muda completamente. Ainda tenho mais facilidade do que a média das pessoas com a coisa — acredito que é minha vocação — mas mesmo assim é possível entender perfeitamente quando algum dos grandes fala sobre a angústia de escrever, das dificuldades, do cansaço que a escrita proporciona.

A verdade é que escrever, escrever mesmo, não é fácil.

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