Pé na Cova

Um escritor que se preze tem de viver aventuras, ainda que pequenas, e por aventuras entendo situações inusuais, perigosas ou assustadoras. Eu já vivi algumas; nenhuma realmente longa ou grandiosa, mas já vivi.

A que estou prestes a narrar nesta anedota foi particularmente macabra.

A fim de me inspirar para um conto de horror que pretendia escrever, fui ao Cemitério da Saudade de Bragança Paulista contemplar os túmulos e absorver aquela atmosfera sepulcral. Minha intenção era, enquanto examinava todos os arredores daquele mundo críptico, imaginar eventos e situações, etc.

Apesar das bermudas e do par de chinelos, andei o mais respeitosamente que pude por aquelas ruas mortas, parando, de quando em vez, diante d’alguma escultura especialmente bonita ou diante d’algum túmulo japonês.

Também perscrutei mausoléus e reparei em datas irmãs de nascimento e falecimento.

Durante a caminhada eu havia notado campinhos de terra cravejados pelas tumbas simplórias dos penuriosos. Antes de ir embora, decidi me aproximar de um desses locais e olhá-lo mais detidamente. Fazia calor, e um leve cheiro de putrefação emanava do solo recheado de cadáveres.

Eu quis ver tudo mais de perto, obviamente, quem deseja ser escritor de verdade não se prende a limites, e entrei no terreno dos desfavorecidos. Andei por lá, sentindo aquela terra estranha sob meus pés e comovido com as decorações simples das sepulturas. Numa, garrafas cortadas abrigavam flores murchas, provavelmente colhidas da rua ou surrupiadas de repousos mais elegantes; noutra, piscas de natal jaziam enrolados em tijolos; outra era velada por um santinho rachado, com as bordas das vestes lascadas; ainda em outra, bonecos e carrinhos se enfileiravam, sujos, gastos, meio ordeiros, meio bagunçados.

Eu olhava, fotografava e fazia comentários esporádicos com minha noiva, que, por sua vez, chamava minha atenção para novos detalhes aqui e ali.

De repente, a terra cedeu onde eu pisava e metade da minha perna foi engolida, só não entrou mais fundo justamente porque um caixão impediu.

Gritos. Risada nervosa. Gritos.

Eu tentei sair, desajeitado, e caí sentado. Minha noiva tentava me puxar em vão, pois apesar de novo em idade, eu já era centenário na balança.

Recuperei minha macheza e, com um solavanco mais um giro de corpo, desenterrei minha perna. O chinelo, porém, havia ficado lá embaixo. Sem hesitar, meti a mão no buraco pra catar o calçado – aquele era meu único par, expliquei isso ao morto enquanto vasculhava o entorno de seu último leito. Disse a ele também que era pobre, que talvez viéssemos a ser vizinhos.

Minha noiva ria, entre divertida e agoniada, e eu não achava o bendito chinelo. Quando finalmente agarrei algo, percebi que era uma alça do caixão. Foi aí que desisti, não queria acabar cumprimentando defunto por acidente.

Saímos ligeiros da área dos pobres e procuramos os coveiros. Contei a eles o acontecido – os quatro olharam para meus pés ao mesmo tempo – e fui embora.

O conto não foi escrito.

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