Brevidades #9

Li que Gil Vicente se preocupava mais com o psicológico dos tipos com os quais enchia suas peças e com a poesia de seus diálogos do que com as regras renascentistas para o teatro, e que isso fazia dele, então, um artista mais medieval. A tirar por isso, concluo, portanto, que os medievais eram mais artistas do que os renascentistas.

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C.S. Lewis, numa breve resenha que escreveu para o Time Literary Supplement em outubro de 1937, previu que O Hobbit, de Tolkien, se tornaria um clássico. Os dois eram amigos e pareciam se admirar mutuamente. Não existia, entre eles, essa coisa de inveja, de ego ferido. Esse tipo de relacionamento é, com certeza, um dos mais nobres e belos que duas pessoas podem formar.

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Hoje, quando saímos, o Johann me veio com essa:

– Papai não tem carro, né?

Eu não tenho. Então:

– Não, papai não tem carro.

O pequeno, conformado, num reconhecimento da realidade capaz de envergonhar muito marmanjo e até alguns senhores de idade, constata:

– Hum. Papai é pobre.

E eu:

– Papai é pobre.

Seguimos nosso caminho embaixo do sol forte enquanto eu me segurava para não rir.

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Minha sogra deu ao meu filho um cavalinho de corda. A idéia é que, dada a corda, o bicho ande… só que ele cai e tem um ataque epiléptico.

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Vejo pessoas tomando cuidado para não escrever certas palavras em redes sociais, com medo de bloqueios e banimentos. Tudo bem, cada um sabe onde aperta, mas no dia em que eu parar de usar palavra x ou y para não ser banido de qualquer lugar que seja, virtual ou real, estarei acabado e não poderei sequer dizer que sou escritor em treinamento.

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Todos devem conhecer alguma versão da história do menino que constantemente se fingia atacado por lobo e quando foi atacado de verdade ninguém acreditou. Essa versão é a variação de uma historieta antiga na qual um pastorzinho mente dizendo que um lobo estava atacando seu rebanho, de modo que, quando o lobo realmente aparece, ninguém escuta seus apelos. Eiichiro Oda, intencionalmente ou não, reconta essa história de maneira interessante ao apresentar o mentiroso Usopp em “One Piece”. Enquanto o menino do lobo se lasca sozinho por conta das próprias mentiras, ou apenas perde o rebanho, o apego de Usopp à inverdade coloca em risco sua vila inteira, todas as pessoas que ele ama. O rapaz tinha a mania de, todas as manhãs, berrar que piratas estavam chegando, e quando piratas estavam mesmo prestes a chegar já ninguém acreditava.

Acalentar o hábito de mentir não faz bem.

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