Brevidades #11

Eu, lutando contra um pacote:

— Esses biscoitos baratinhos são ruins de abrir.

Carol:

— Mas você os acha gostosinhos?

Eu:

–Tudo que custa menos de um real é gostoso.

*

“El pecado contra la Verdad ha sido siempre el gran drama de la historia.”, Xavier Zubiri

*

Uma das coisas boas da internet é poder mergulhar nos estudos de uma maneira impossível em décadas passadas. Por exemplo, se estou estudando sobre os primórdios da Filosofia e quero ter uma noção de como era a cidade de Mileto para tentar reconstruí-la na imaginação a fim de captar qualquer coisa que indique a espécie de influência que ela teve nos grandes espíritos que lá habitaram, posso rapidamente conseguir dezenas de imagens e alguns vídeos de suas ruínas.

*

No futuro existirão casais de Enzos e Valentinas e suas crias se chamarão Valenzos e Enzimas.

*

O carro de churros que passa na minha rua se anuncia animado, dizendo que hoje vai ter festa no apê, que podemos aparecer, que lá vai rolar bundalelê. A gravação também assegura os altos padrões de higiene do vendedor e elogia sua manipulação do produto.

Eu fico é longe daquele carro.

*

Uma das lições que aprendi como escritor foi a de não escrever com as redes sociais abertas. Quando estou escrevendo devo ingressar na casta dos eremitas, o universo da obra deve ser a montanha na qual me isolo.

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O “Tá” provavelmente surgiu de algo como “Está combinado” e “Está aí”. Tal como o “Vossa Mercê” virou “Você”, “Está aí” ou “Está combinado” virou “Tá”. As pessoas parecem ter a tendência de encurtar a fala cotidiana, de maneira que, no futuro, talvez muitos diálogos se resumam a grunhidos, leves batidas labiais ou estalos de línguas. Essa comunicação certamente não será mais nem menos do que uma etapa para a era em que conversas inteiras serão tidas apenas na base de esgazeios e espremidas de olhos.

*

Uma das primeiras mulheres que fotografei levou à sessão alguns pares de brincos, ela queria saber qual par ficaria melhor para o ensaio. Eu, leso e totalmente inexperiente nesse tipo de situação, ao vê-la segurando os brincos em expectativa, disse:

— Não quero comprar, não, obrigado.

*

Eu escrevo todo dia. Ainda não tenho o volume de produção diária que gostaria de ter, mas escrevo todo dia, é o mínimo que alguém que gostaria de ser escritor deve fazer. Escrevo no computador, em cadernos, em notas de compra e, de vez em quando, até em máquina de escrever. Pois muito bem. Hoje comprei dois cadernos, baratos mas bonitos, afro-descendentes — a maioria dos que tenhos estão ou preenchidos ou bagunçados — e cometi o erro de deixá-los ao alcance do meu filho de 4 anos.

Eis que o menino me aparece:

— Papai, escrevi carta pra você. E aqui tem matemática.

Diante de mim, vi o trabalho d’um Picassinho, um emaranhado repleto de retas, curvas, nós e curiosas formas não geométricas, tudo emoldurado por letras do alfabeto e números alongados, meio escorridos.

: — Muito bonito, meu filho, parabéns. Papai gostou.

E ele sorriu, muito feliz, os olhinhos brilhando.

Talvez não tenha sido um erro deixar os cadernos ao alcance dele.

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