Brevidades #12

Dei uma pesquisada no cinema nacional e achei um filme sobre vidas medíocres e distorcidas — tem até um sujeito que gosta de atirar em cadáveres –, achei outro sobre um fotgógrafo que queria usar a própria filha adolescente como modelo, achei outro que era, basicamente, sobre uma dona que dava regularmente para um construtor, outro sobre um casal que se conhece num bar e passa a noite se comendo…
Parei de pesquisar. É claro que essa turma se agarra aos patrocínios estatais, nem o Jordan Belfort conseguiria vender essas porcarias.

*

Meu filho mais velho assistia “Yu-Gi-Oh!” enquanto eu arrumava umas estantes imerso em pensamentos, mais ou menos alheio ao mundo em volta. Mesmo assim, ouvi um dos personagens do desenho perguntar, enfático e meio irritado:

— O que você fez de errado?

Sem pestanejar, respondi automaticamente:

— Tanta coisa, fio.

*

Carol, hoje:

— Aí o fulano viajou lá pra Porto Alegre… ou foi Pouso Alegre… Alto Alegre… não sei, foi pra um lugar bem feliz.

*

Se uma pessoa é incapaz de ser feliz convivendo com dificuldades, problemas e desconfortos variados, imagino que ela jamais será feliz, pois dificuldades, problemas e desconfortos variados aparecem freqüentemente na vida. Se a pessoa não consegue a felicidade nessas condições, tudo o que terá são efêmeros momentos alegres que, no final das contas, só servirão para ressaltar e aprofundar a infelicidade da criatura.

*

Vejo o sorrisinho desdentado do meu caçula, vejo aqueles olhinhos gordos, vivos e inocentes, e agradeço a Deus.

Observo meu primogênito a correr e atirar em oponentes imaginários – ele mesmo faz toda a sonoplastia da brincadeira –, e agradeço a Deus.

Contemplo o alvo rosto de escultura, com olhos que transmitem profunda ternura, da mulher que passará o resto da vida comigo; saboreio aquela beleza querida e agradeço a Deus.

Agradeço a Deus o tempo todo.

*

Finalmente provei o refrigerante mais famoso do Maranhão e não gostei muito. Quente, o guaraná Jesus é quase insuportável, gelado, melhora, mas o gosto de chiclete barato, suavizado ou não, permanece. Com muita boa vontade, posso entender como aquilo virou o refrigerante mais querido daquele povo: há algo ali que apela à parte infantil de nosso paladar, portanto talvez a bebida traga alguma nostalgia; se os maranhenses forem tão sofridos como imagino que sejam, essa nostalgia os tira momentaneamente da realidade dura e os embala com vislumbres de memórias difusos, mas reconfortantes.
O guaraná Jesus talvez seja uma espécie de ópio do Maranhão.

*

A eventual demora para um mero arquivo no bloco de notas passar, após arrastado, de uma pasta a outra, é algo incompreensível pra mim, já que, às vezes, gigas inteiros voam instantaneamente. Bom, talvez seja o computador dizendo: “Sério que vai me incomodar só por isso? Tem mais não? Tô esperando.”

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