O Pastor e as Musas

O dia exalava tranqüilidade. Sob os pés do Hélicon, criaturas de algodão sorviam a rasteira grama da região, atentamente vigiadas por um homem, de fartas suíças e olhar perdido na distância, apoiado num torto bordão. Meditava, o pastor, tinha a mente vazia e somente sentia o vento encher-lhe o peito e desarrumar seus cabelos grossos. O céu, especialmente vivo naquela manhã, talvez quisesse lhe contar algo.
Um passarinho bem pequeno, redondo, de barriga branca, bico curto, prateado e asas indecisas entre o melancólico cinza nublado e o viçoso marrom terrestre, pousou no seu ombro e beliscou os pelos da barba do compenetrado camponês. O homem deitou na avezinha os olhos angustiados, iluminados, no fundo, por centelhas de esperança, e sorriu ao acariciar o topo escuro da cabecinha irrequieta do alvoroçado amigo alado.
Uma estranha corrente de ar, vinda do Hélicon, fez o pássaro voar e o pastor voltar-se para o monte, curioso. Risadinhas e vozes femininas correram pelo campo, carregadas pelo vento, e de vários lugares surgiram, como se inseridas no mundo por sopro divino, materializando-se em diáfanas formas humanas, nove jovens nuas exceto por panos mais suaves que a seda, os quais cobriam montes, fendas e floras.
Paralisado, sem saber para quem olhar, o homem foi cercado por todas, e inebriado pelo perfume das flores, e por tão belas feições, titubeou, fazendo necessário o uso do cajado como apoio efetivo.
Ele sabia quem elas eram, e extasiado, começou a encher-se de força criativa, queria saber de tudo, falar de tudo. Riu enfim, e esperou respeitosamente que alguma mulher falasse.
Quem o fez primeiro foi uma de longos fios solares, e depois dela, ficou impossível distinguir quem tomava a palavra, pois as frases eram jogadas e ficavam a revolutear no ambiente, entrelaçando-se, dando um sentido maior ao que era dito.
: – Estimado aedo, por meio da arte farás chegar ao mundo fragmentos da Verdade. Estás tu preparado, queres tu ser inspirado?
– Claro, claro! – O rosto sofredor do poeta transfigurou-se em alegria infantil. – Deixem-me cantar seus cantos! – olhava para todas, incapaz de fixar vista numa só.
– Cantemos juntos! – disse outra.
– As maravilhas.
– As origens.
– As verdades!
Dificilmente ele experimentaria tão profundo êxtase na vida novamente, e inspirado pelas musas logo iniciou um de seus mais famosos trabalhos. Perdeu duas ovelhas naquela manhã, mas não se importou.

*

Texto escrito em 2015, como treino literário.

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