Breves considerações sobre alguns dos contos presentes no primeiro tomo da coletânea de contos russos da Martin Claret

“A Nevasca”

Uma moça de boa família se engraça com um rapaz desaprovado por seus pais e, como havia crescido sob o que parece ser a nefasta influência dos romances franceses, se permite tomar parte num desses planos cruelmente egoístas que somente os mais apaixonados, cegos pelo fogo que brota em seus corações, acham razoáveis: a fuga, obviamente. Fica acertado que o casal fugirá para se casar numa cidadezinha não muito longe, mas na madrugada combinada uma poderosa nevasca, provavelmente encomendada pelo próprio Deus aos seus anjos, desfaz a empresa dos loucos e abre caminho para a redenção futura de almas angustiadas.

Pushkin entrega ao leitor uma plausível experiência de interferência divina nos descaminhos das pessoas boas.

*

“O Tiro”

Sílvio, duelista apresentado por Pushkin em O Tiro, podia até ser um sujeito bravo, destemido, mas era também um personagem perdido na vida e carcomido pela inveja. O interior de sua casa, simplório e com as paredes cravejadas de tiros, era um espelho de seu próprio mundo interior, e seus dois únicos luxos, o Champagne, que lá fluía como rio, e a coleção de pistolas, eram o alimento de sua alma ébria com o desejo de vingança.

Antigamente Sílvio era o maioral entre seus colegas militares, foi assim até a chegada de outro sujeito tão carismático quanto ele, mas mais jovem, mais rico e esmerado em tudo quanto fazia. Esse novato tentou se aproximar de Sílvio mas foi rejeitado, só que o sujeito lidou tranqüilamente com a rejeição, o que feriu profundamente o ego do ex-maioral. Sílvio passou a provocá-lo, mas as provocações eram retribuídas com tiradas ainda mais espirituosas, e Sílvio não agüentou: cego de inveja, ao ver o rapaz receber atenção especial de uma moça com a qual tinha um caso, resolveu dizer uns desaforos ao rival e foi esbofeteado. Os dois marcaram um duelo para acertar a questão, mas após o tiro do oponente Sílvio não se animou a disparar de volta, pois seu adversário comia cerejas, aparentemente indiferente ao próprio destino. Sílvio, então, resolveu esperar até que o rival tivesse algo a perder, até que ele temesse a morte, para descarregar o tiro ao qual tinha direito.

Ou seja, Sílvio esnobou o cara, provocou-o largamente, deixou de concluir o duelo por capricho e se enterrou numa vida embalada pelo ressentimento e pela espera da vingança.

*

“O Capote”

Se alguém me perguntasse onde poderia encontrar um personagem realmente miserável e digno de pena uma de minhas primeiras recomendações seria o conto “O Capote”, de Nikolai Gógol. Akáki Akakievitch, o protagonista, é um funcionário público quase completamente desprovido de imaginação, sem qualquer vida interior, que só sabe copiar textos e freqüentemente é desrespeitado – pra não dizer humilhado – pelos colegas. O infeliz não consegue sequer se expressar com o mínimo de clareza.

Sua vida vazia e rasteira só ganha algum sentido quando ele precisa trocar o capote antigo, já quase em farrapos, para não passar tão mal o rigoroso inverno local. Todo o processo que envolve a aquisição da nova vestimenta, então, ganha importância fundamental na vida daquele pobre diabo. Ele discute detalhes com o alfaiate, sai para ver tecidos e permite que sua pouca imaginação se vista e passeie com o tal capote. Akáki Akakievitch vive, enfim, para o capote, e quando o consegue sente uma alegria imensa.

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