Algumas notas sobre “Fogo Morto”, de José Lins do Rego

Fogo Morto traz tantas lições e permite uma visão tão profunda da alma brasileira que confesso que fico triste ao vê-lo tratado como um simples retrato do final da era dos engenhos de açúcar, ou simplesmente como um representante do realismo regional, ou seja, como representante regional de uma escola literária.
Zé Lins certamente estava se lixando para escolas literárias, queria apenas escavar sua memória e transfigurar o que ali achava em literatura.

Seguem algumas notas que fiz durante a leitura.

– O livro é vivo. Sons, movimentos, cheiros, pessoas diferentes. – Tive mais ou menos a mesma impressão que Otto Maria Carpeaux, e isso me alegrou.

– José Amaro é esmagado pela frustração de uma vida desperdiçada, e à medida em que percebe o quão sem volta é seu caminho, mais intratável fica. É bom notar que o velho passou a ficar mais intratável após começar seus passeios noturnos, momentos que aproveitava sozinho, encerrado em si mesmo; isto é, o velho passou a ficar mais desagradável após começar a cultivar seu mundo interior e a perceber de vez, sem as distrações mecânicas do cotidiano, a miséria de sua existência.

– Uma vez iniciado o cultivo do mundo interior, José Amaro se apega a essa atividade de maneira desesperadora. Quando começamos a desenvolver e explorar o nosso mundo interior, começamos também a buscar sentido na vida, e é isso que faz o mestre Zé Amaro, muito embora sem o saber. Quando surge a oportunidade de ajudar o capitão cangaceiro que admira, Zé Amaro parece se encher de alegria, como se houvesse encontrado um propósito na vida.

– José Amaro se surpreende com a vida interior do negro Passarinho.

– José Lins do Rego, talvez sem querer, dá uma importante lição sobre como a falta de comunicação pode transformar relacionamentos, convivências, num inferno. José Amaro e a esposa pensam coisas terríveis um do outro – ela vai mais longe em tais pensamentos, chega a achar que o marido tem parte com o tinhoso – mas tudo isso podia ser evitado com algumas poucas conversas francas, de coração aberto mesmo, e com uma comunicação cotidiana mais saudável.

– A vida tradicional agrária brasileira de um século e pouco atrás, a julgar por Fogo Morto, era uma coisa triste e sem sentido. Não é de se admirar que, no meio de tanto desperdício de gente, José Amaro, ao contemplar seu mundo interior e ao adquirir um senso de dever maior para a sua existência, vira meio que outra pessoa. Não é de se admirar também que Marta, a filha do mestre José Amaro, tenha enlouquecido. Imaginemos a vida da moça: O pai, bruto no tratamento, batendo sola e cortando couro o dia todo, a mãe ocupada com os afazeres domésticos e ambos recebendo visita o tempo inteiro, pois a casa ficava à beira da estrada; Marta certamente ouvia a conversa fiada do bicheiro, as bravatas do capitão Vitorino, a conversa mole do pintor Laurentino, o canto inspirado de José Passarinho — canto tanto mais triste quanto a falta de perspectiva melhor para o cantor e para todos os que o ouviam — os papos de comadres da mãe com a esposa de Vitorino, a velha Adriana. Ouvia também, o dia inteiro, carros, bois e pessoas passando na estrada. Para alguém como ela, que não havia sido educada, que nada vira do mundo, tudo aquilo devia parecer terrivelmente sem sentido.
E é, ou me parece ser, exatamente esse o ponto. São vidas sem sentido, são pessoas preocupadas apenas em sobreviver, em chegar ao próximo dia.
O ímpeto humano criador e civilizador, então, mal existe. É um fogo morto.

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