Resposta de Ariano Suassuna aos críticos de “O casamento suspeitoso”

Depois de encenada e revista por duas vezes, entrego ao público, em forma definitiva, minha peça “O casamento suspeitoso”. Creio que, de todas as que montei, foi esta a mais atacada. Os pontos mais visados era referentes às minhas repetições e vulgaridades. Disseram, por um lado, que eu estava repetindo tipos e situações já usados no “Auto da Compadecida” e, por outro, que empregara, nesta comédia, mais do que na primeira, meios vulgares e grosseiros de comicidade, além de criar personagens sem sentido.

Quanto a esta última crítica, não posso avaliar até que ponto é justa ou não. Quanto às duas primeiras, porém, tenho algo a dizer: tais críticas partem de uma idéia do teatro e de uma concepção do mundo inteiramente diferentes das minhas, absolutamente inconciliáveis com as minhas. Na invenção de certos personagens, por exemplo, o que fiz foi um processo clássico de recriação de tipos já existentes numa comédia popular, no caso a tradição do Romanceiro Popular Nordestino. No mesmo sentido — se bem que com outra medida, é claro, porque se tratava de dois gênios — Moliére e Goldoni recriaram os tipos da comédia popular mediterrânea. Não se preocupou, o primeiro, com o fato de o Sganarelle do “Don Juan” parecer com o Sylvestre de “Les fourberies de Scapin”; de serem semelhantes e terem problemas semelhantes o M. Jourdain de “Le bourgeois gentilhomme” e o George Dandin; de serem seus jovens apaixonados quase iguais; de serem seus criados astutos, Sosie, La Fléche ou Scapin, herdeiros diretos do Arlequim e traçados sob padrões semelhantes de astúcia e simpatia; e assim por diante. Não se incomodou o segundo de escrever peças em que os personagens eram diretamente transpostos da tradição popular, esquemática e fixa, não se dando sequer o trabalho de mudar seus nomes de peça para peça. E assim, toda uma tradição clássica do teatro e da novela. Não se agia desse modo por falta de imaginação — era o que faltava, acontecer isso com Moliére, Goldoni ou Shakespeare! — mas porque aquilo firmava uma tradição e um estilo, valorizava o que já existia na consciência coletiva, aproveitava, com maior solidez, uma arquitetura preexistente e que já recebera, na sanção coletiva, o selo de uma perenidade que só um orgulho muito tolo deixaria de lado em nome da criação exclusivamente individual.

Dizer, assim, que o mundo das Carobas, dos Joões Grilos ou dos Cancões, em que me baseio, é um mundo pobre e que vai me levar para a repetição estéril é, ao mesmo tempo, falta de respeito a algo que é profundamente nosso e, ao contrário do que dizem, muito rico — muito mais do que o teatro contemporâneo, burguês e “erudito” — e desconhecimento total daquilo que Ortega y Gasset chamou “a realidade mais eficiente do teatro” — a tradição do teatro grego e romano, do elisabetano, do espanhol e francês clássicos, do goldoniano, do alemão oitocentista, enfim, do teatro que considero o grande teatro e que ele opõe ao contemporâneo, “o teatro em ruína”, expressão que subscrevo integralmente. Se a tradição popular nordestina é pobre, não o será mais do que, por exemplo, a da Commédia dell’Arte que aqueles gênios renovaram e cujos tipos eram poucos e esquemáticos.

Quanto à vulgaridade dos meios cômicos de que lanço mão, é coisa que não me incomoda absolutamente. Não tenho nenhuma tendência para a finura — pelo menos para isso a que os distintos chamam de finura. Ao humor educado e delicado deles, prefiro o rasgado e franco riso latino, que inclui, entre outras coisas, uma loucura sadia, uma sadia violência e um certo disparate. Depois, vejo os mestres que mais amo manifestarem a mesma preferência que eu, seja no Falstaff, seja no Scapin, por exemplo, este último criticado por Boileau — uma espécie de distinto intelectual da época — por causa da “vulgaridade” da cena em que Scapin dá umas cacetadas em Geronte, enganando-o com a ameaça de pretensos inimigos. Mas é sempre assim: os distintos pensam de um modo e os autores de outro.

Repito assim que, quando aproveito de um romance popular, a idéia do João Grilo — que apresento em minha peça recriado como tipo e não como transposição direta do mito –, sei perfeitamente o que estou fazendo. Como sei também o que estou fazendo quando recrio do mesmo modo outro “amarelinho”, outro “quengo” (pessoa astuta, sabida), o Cancão, de “O casamento suspeitoso”.

A mesma coisa acontece na criação de outros personagens, estes partidos, não mais da tradição oral, mas da realidade. O Chicó, do “Auto da Compadecida”, foi baseado num personagem real, já morto, cujas histórias são conhecidíssimas em Taperoá, pela geração anterior à minha. O mesmo acontece com Manuel Gaspar, baseado num serviçal de minha família, ainda vivo, com o mesmo nome, gago e não muito corajoso, para quem quiser ir ver. Quando juntei o primeiro a um amarelinho astuto (João Grilo) e o segundo a outro (Cancão), sabia que estava incorrendo na incompreensão de toda essa gente. Mas isso não me interessava: o que me interessava era novamente recriar uma tradição do teatro popular, esta circense: a que apresenta sempre, ao lado de um palhaço astuto, meio maldoso e valente, um outro, bobo, ingênuo, moralista e covarde. Essa tradição, aliás, corresponde, como sempre acontece com a autêntica, a uma verdade profunda, pois ordinariamente as pessoas astutas, inteligentes, têm um amigo, um empregado, um sócio, um secretário, seja lá o que for, que é mais ou menos a antítese de suas qualidades e a quem elas se apegam com grande amizade temperada de bonomia, ironia e benevolência. Aliás, o professor Enrique Martinez López, na exegese admirável com que honrou o “Auto da Compadecida” — a mais completa, profunda, compreensiva e erudita que eu podia desejar –, salientou, com enorme agudeza, o fato de que Chicó era o bobo oficial da peça, muito mais palhaço do que o Palhaço. As duas duplas, João Grilo-Chicó e Cancão-Gaspar, são, assim, uma recriação da dupla circense que o povo, com seu instinto certeiro, batizou admiravelmente de O Palhaço e O Besta. Dupla que pode se reencontrar a cada passo na realidade: ou na semirrealidade, como aquela formada pelo Homem da Cobra e pelo Secretário, da propaganda comercial popular nordestina; ou no mundo da arte, como o Mateus e o Bastião do Bumba-Meu-Boi.

Creio que basta como explicação.

* O texto está na edição da José Olympio (a que tenho em mãos é a décima primeira), apresentado como “Nota do Autor”

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