Breve impressão sobre “Canção”, de Cecília Meireles

Primeiro, para quem não conhece, segue o poema:

“Canção

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
– depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio.

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito:
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.”

Antes de escrever as minhas impressões sobre um dos poemas mais famosos de Cecília, resolvi ver o que alguém mais capacitado do que eu tinha a dizer sobre ele e fui ler as páginas escritas por Massaud Moisés em “A Análise Literária”. Apesar de encontrar nelas pontos interessantes, pude constatar que a linguagem e o método acadêmico não só tiram o brilho do assunto, como também, por vezes, direcionam o olhar de modo errado; o foco recai muito na apreciação das particularidades em detrimento do todo, em detrimento de uma compreensão mais apurada.
Um dia escreverei sobre isso, mas não hoje. Hoje me limitarei a discorrer brevemente sobre o poema, o qual, aliás, já trago memorizado.
Cecília teve uma vida cheia de dores, e “Canção” foi, provavelmente, uma das maneiras que a poetisa achou para expressar seu interior abatido.
Ela põe o sonho no navio e o navio em cima do mar; depois abre o mar com as mãos, para o sonho naufragar. Ainda diz que chorará o quanto for preciso para fazer com que o mar cresça, e o navio chegue ao fundo, e o sonho desapareça. Só assim tudo estará perfeito: a praia estará lisa, as águas, ordenadas; os olhos dela secos como pedras e suas mãos quebradas.
É evidente que ela, que o eu-lírico, chamemos assim, quis se livrar de algo importante, algo que talvez julgasse ser sua vocação ou seus principais anseios.
Se tomarmos o mar como metáfora para a alma do eu-lírico, veremos que o sonho está sendo selado dentro da própria alma da poetisa, e que tal encerramento é tão doloroso que custa todas as lágrimas da vida (os olhos secos como pedras). Notemos também que as mãos quebradas ao final do poema podem bem simbolizar suas mãos vocacionais, por assim dizer. Elas estariam inutilizadas, jamais seriam usadas no cumprimento dos anseios anteriores à dura decisão de abandonar tudo.
Vale ainda observar que, enquanto o sonho é afogado, chega o vento que curva a noite de frio. É como se, dali para frente, a vida fosse se assemelhar a uma planície escura e friorenta.
As aparências, no entanto, seriam mantidas, as águas ficariam, enfim, ordenadas. Em outras palavras, tudo pareceria sempre bem com a poetisa. Talvez até melhor do que quando o sonho, agitando o mar de seu espírito, despontava à superfície em trejeitos, dizeres, impulsos e expressões faciais.
Muito ainda poderia ser dito sobre este poema, mas mais não arrisco.

*

Impressões escritas em 2016 ou 2017.

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