“Há um medonho abismo…”, soneto de Bocage

Há um medonho abismo, onde baqueia
A impulsos das paixões a humanidade;
Impera ali terrível divindade,
Que de torvos ministros se rodeia.

Rubro facho a Discórdia ali meneia,
Que a mil cenas de horror dá claridade;
Com seus sócios, Traição, Mordacidade,
Range os dentes a Inveja escura e feia.

Vê-se a Morte cruel no punho alçando
O ferro de sanguento ervado gume,
E a toda a natureza ameaçando:

Vê-se arder, fumegar sulfúreo lume…
Que estrondo! Que pavor! Que abismo infando!…
Mortais, não é o inferno, é o Ciúme!

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