Brevidades #17

Tem uma situação especialmente chata que se repete várias vezes por semana aqui na rua e envolve uma mulher, um velho e uma menininha. Pelo que posso ouvir, imagino que o velho e a mulher discordam veementemente dos seus respectivos métodos de educação e acabam trocando gentilezas gritadas. A mais virulenta é a mulher, já a ouvi chamá-lo de “velho nojento” e ameaçá-lo. Eu não sei bem o que acontece, mas a situação é tensa e às vezes fico preocupado com o volume e intensidade dos gritos desferidos, é quase como se saíssem pela boca da mulher tentáculos formados por antigos ressentimentos especialmente dolorosos.

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“The Burning Soil”, do Murnau, provavelmente tem alguma inspiração na parábola do filho pródigo e mostra como a ganância corrompe e entristece – ou antes, como a falta de virtudes corrompe e emurchece.

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Personagens artificiais, idealizados de maneira muito distante da realidade para cumprir algum propósito ideológico numa obra ou utilizados como mera ferramenta narrativa chamam a minha atenção imediatamente. Foi assim, por exemplo, com Jolly em “Heart of a Samurai”, um cuzão desgraçado feito somente para incluir agenda ideológica no livro e infernizar a vida do Manjiro – esse sim um sujeito real – imaginado por Margi Preus. Bati os olhos no personagem e já percebi que ele era (mal) inventado. E era mesmo.

Foi assim também com Ulana Khomyuk, de “Chernobyl”. Com poucos segundos da mulher em cena eu já sentia que havia coisa errada ali, talvez algo nos modos de Emily Watson e do colega de trabalho dela, que parecia um tantinho atarantado ao seu redor, tenha me alertado; A babação de Legasov quando vai libertá-la do confinamento foi mais do que suficiente para eu terminar de me convencer: sa’porra não existiu. E não existiu mesmo.

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Vi um abortista dizendo que não adianta proibir o aborto, pois o negócio sempre existiu e continuará existindo. Bora legalizar tudo de ruim, então, já que essas desgraças vão sempre existir.

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Uma característica tosca de muitos abortistas é a crença deles de que um bebê gerado em núcleo menos favorecido deve ser morto senão ele NECESSARIAMENTE virará bandido. Além disso demonstrar raiva e nojo não só de pobre, mas de quem quer que não tenha uma vidinha considerada perfeita, nenhum desses abortistas contempla a possibilidade da criança se tornar cineasta, escritora, médica, cientista, professora, etc; o único caminho é o do crime.

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Vi no mercado um tal de biscoito Piraquê que custava R$ 5,19. A embalagem dizia que o negócio era feito com leite maltado e que o chocolate era crocante; pois bem podia explicar que “leite maltado” quer dizer leite produzido pelas sábias vacas das ilhas de Malta e que, no pacote, também estava o sentido da vida.

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Um sujeito, incomodado com os apontamentos acerca da tradução de um trecho de livro, queria que o povo falasse sobre o trecho, não sobre a tradução dele. Mas caramba, se o sentido da coisa pode estar comprometido na tradução, como falar do trecho em questão sem antes discutir a tradução?

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Dando uma olhada num desses velhos livros de cursinho de Inglês que achei aqui em casa fiquei meio surpreso ao notar que, em 2004, já havia nele a recomendação direta de que os alunos fossem politicamente corretos. O livro em questão é o CEP 1, do Yázigi.

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Passeei pela grade do Canal Brasil e constatei que os responsáveis por ele não têm o menor interesse em conquistar público.

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