Trecho do II Encontro de Escritores Brasileiros na Virgínia

Olavo: György Lukács, que era o marxista mais inteligente depois de Karl Marx, dizia que o gênero romance tem uma estrutura baseada no seguinte ponto: um herói degradado num mundo degradado, quer dizer, o herói que quer se sobrepor à sua sociedade, ele quer ser melhor do que os outros, mas depois você vê que o veneno está dentro dele mesmo também. Quer dizer, ele carrega em si todo o mal da sociedade que ele deseja superar, ele quer ter uma vida superior, uma vida significativa, mas ele está contaminado; como Julien Sorel, quer subir na vida e acaba terminando no crime, ou o Raskólnikov, a mesma coisa, ou a própria Madame Bovary, ela quer uma vida encantadora, maravilhosa, mas ela é medíocre, ela não sabe, o veneno está dentro dela.
Isso é uma tensão básica. Mas se não existe o bem e o mal, como é que você vai fazer isso aí? Você não vai nivelar tudo, dizer que é tudo maldade, não, tem maldade, mas tem um impulso positivo, só que o impulso é fraco, é impotente pra fazer face à sociedade. O Raskólnikov, pra ele superar suas dificuldades, só se ele fosse um santo, um herói realmente, o que ele não é. Se ele fosse, você sairia desse gênero e entraria no épico, você ia escrever, sei lá, o Egmont ou Henrique IV, uma coisa assim. Seria outro gênero, onde o herói realmente se sobrepõe à sociedade, dobra a sociedade. Você não teria a tensão dramática, seria outro gênero. Mas o romance é assim mesmo, tem que ter esse conflito, agora, no Brasil o pessoal neutraliza o conflito porque o personagem já é medíocre desde o início.

Yuri: Agora eu li um outro que é por aí também, do Paul Auster. Ele escreveu um livro sobre um terrorista de esquerda, mas você vê que ele é de esquerda, porque ele não consegue, assim, ver de cima a maldade do cara.

Olavo: Mas aí é que tá o negócio. Agora vamos pegar um exemplo contrário: você deve ter assistido ao filme Cinzas e Diamantes, do cineasta polonês Andrzej Wajda.

Yuri: Sim.

Olavo: Que fez esse filme no tempo da Polônia comunista e o herói do filme é um terrorista de direita. Ele vê o cara como… ele vê todos os personagens com simpatia, ele não é malvado com nenhum. Mas aí você já tem uma tensão. Quer dizer, o cara estava lá soltando as bombas para matar o chefe do partido comunista, mas ele tinha suas razões, ele era um ser humano e tal. Você tem toda esta tensão do bem que trabalha para o mal, do mal que trabalha para o bem; sem isso não tem romance, meu Deus do céu. Mas pra isso é preciso que o escritor tenha uma noção muito séria do bem e do mal. Ele tem que ter sofrido isso, pensado isso. É o negócio do Saul Bellow: “Os intelectuais lidam com ideologias, nós, os escritores, lidamos com as impressões autênticas.”
Então, o primeiro problema do conhecimento é sempre na esfera poética que é, pra definir como Benedetto Croce, expressão de impressões. Então você tem de ter uma linguagem capaz de expressar impressão, mas se você não tem nem impressão, se seu horizonte de consciência é desse tamanhinho, é melhor você ficar quieto.
Você quer ver um contraste? Você pega o livro do Ferreira de Castro, que é um escritor português, A Selva, sobre a Amazônia, e você pega o livro do Gastão Cruls, A Amazônia Misteriosa. A Amazônia do Gastão Cruls é só um mato cheio de cobra, jibóia, peixe-boi; e a do Ferreira de Castro não, é um drama histórico, o Ferreira de Castro inseriu a Amazônia na história do mundo.
Por quê? O Ferreira de Castro era um homem de enorme experiência humana, conhecia a humanidade inteira, viajou pra tudo quanto é lado, leu, era um homem de cultura, e um cara humano, entendia as pessoas. Essa é a diferença. O tema amazônico está aí à nossa disposição, nós podemos fazer o que quisermos com ele. Mas nós chegamos lá e ficamos caindo na história do cara do modernismo, então é só jibóia, peixe-boi e essas coisas todas.

Rodrigo: Mas percebe? Quer dizer, um escritor com a grandiosidade do Ferreira de Castro, para escrever sobre a Amazônia, nem precisa visitar a Amazônia.

Olavo: Nem precisa, é capaz de imaginar.

Rodrigo: É capaz de imaginar, é capaz de entender os dramas, essa é a questão. A essência é aquilo que eu disse: se você nega a complexidade do drama humano, da realidade, acabou, você destruiu a literatura.

Paulo Briguet: O Padura conseguiu isso no romance dele, não é? (Paulo se refere a O Homem que Amava os Cachorros)

Olavo: Nossa, esse livro é uma maravilha. Porque ele trata com igual simpatia o Trotsky e o assassino do Trótski. E você vê que os dois… é uma situação humana da qual eles não têm escapatória, nem um nem o outro.

Paulo: Um está condenado ao outro.

Rodrigo: Olha que interessante… eu não li…

Olavo: É, um está condenado ao outro, exatamente, eles são como gêmeos inimigos.

Yuri: Então ele segue bem a teoria do Tolstói, sobre a história, do fatalismo histórico, que ele fala, uma hora o cara está na guerra e você acha que o cara tem a liberdade de escolher correr pra trás e fugir quando todos os seus companheiros estão correndo em direção ao inimigo? Não, o cara não tem.

Olavo: Não tem pra onde correr mesmo.

Paulo: Esse livro é uma viagem ao inferno. São três infernos, na verdade. O inferno da União Soviética, o inferno da Espanha Franquista, de onde veio o Mercader, e o inferno de Cuba, que é onde está o narrador do livro, o escritor. Só que nesse inferno todo, o que sobressai no livro – eu achei isso muito impressionante – é a bondade humana. É incrível como…

Olavo: É, está presente em toda parte.

Paulo: o Leonardo Padura, com esse símbolo forte, que é o símbolo do cão, do cachorro, consegue algo que une os três personagens, o Ramon Mercader, o Trótski, e o narrador. Então ele consegue encontrar a bondade humana no meio desse inferno todo. Realmente é um ótimo exemplo da literatura latino-americana; mostra que “as notícias sobre a minha morte foram um pouco exageradas”, como dizia o Mark Twain. Ainda tem…

Olavo: Quer dizer, sem essa tensão do bem e do mal, um puxado muito pra baixo, e outro muito pra cima, não vai, agora se você achata os dois…
Mesmo que você tenha uma visão profundamente negativista da vida, como Machado de Assis tinha… mas ele tinha dimensão de profundidade. Aquela cena do nêgo assando as pernas do rato, é uma coisinha de nada, mas você leva um susto.

Paulo: A Causa Secreta

Olavo: A Causa Secreta, isso mesmo.

Rodrigo: Fora o domínio técnico.

Olavo: Quer dizer, por baixo da mediocridade, existe um abismo de maldade. A mediocridade não é inocente. Talvez seja esse o tema do Machado de Assis, a maldade da mediocridade.

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