Brevidades #20

É mais agradável olhar para uma tampinha de Budweiser do que para os trambolhos que geralmente são expostos como se fossem arte no Centro Cultural de São Paulo.

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A situação das artes hoje está tão calamitosa que já vi alunos de artes plásticas expondo sabão na embalagem e chamando aquilo de obra artística. Certa noite, quando ia à faculdade, passei por um corredor onde estavam expostos mimos d’uma turma de artes, e pelo menos cinco estudantes haviam colocado sabão em barra embalado num pedestal. Oras, o exercício era fazer esculturas de sabão, mas esculpir dá trabalho e exige técnica, a beleza não existe e, de qualquer modo, é só viajar na invenção da justificativa, falar uns negócios nem nexo mesmo, tipo “esta obra representa a nossa pureza asfixiada pelos rótulos e artificialismos do capitalismo, o capitalismo não nos permite a individualidade, estamos presos ao consumo em blocos, bláblébló” que fica tudo bem.
E os outros alunos, que pelo menos se deram ao trabalho de tirar o sabão da embalagem? Bom, dois deles expuseram o sabão inteiro – provavelmente com justificativas aos moldes de “este é meu interior bruto, em todo o potencial, nu perante os julgamentos da sociedade”, ou “esse sabão demonstra as infinitas possibilidades da arte, pois ele pode atingir qualquer forma… na verdade, todas as obras já estão nele através dos olhos de um apreciador arguto, pois a arte não está nas coisas, está em nós” –, outros tantos fizeram cubos ou esferas, uns dois ou três tentaram esculpir algo que prestasse e teve um maluco que deixou o pedestal vazio, talvez em protesto, como se ali, em cima do pedestal, estivesse todo o talento e inteligência dos seus colegas.

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Rodrigo Gurgel já disse ou escreveu em algum lugar algo na linha de que tudo pode render literatura, e eu mesmo já cheguei sozinho a uma conclusão parecida: tudo pode render um texto, cabe ao escritor saber o que vale ser expandido e, a partir dessa expansão, que temas são mais apropriados para exploração, que histórias devem ser contadas, etc.
Se vejo um avião passar entre os fiapos de algodão d’um céu azul perfeito, posso imaginar como é a vida daquele piloto, ou antes, imaginar como seria a vida d’um piloto que poderia estar dentro daquela pequena aeronave em dia tão ensolarado. Há alguém o esperando? O que ele sente ao ver a cidade e os vales, que parecem de brinquedo, abaixo de si? Ele está no caminho certo para realizar seus sonhos? E o que há na alma humana que a faz querer voar, subir, se elevar?
Se vejo uma árvore especialmente estranha numa praça posso imaginar quem a teria plantado, e por qual razão. Ou poderia, ao observar o solo fértil no qual ela cresceu e compará-la com suas irmãs mais belas e altivas, pensar sobre o fato de, às vezes, um ambiente mais ou menos homogêneo produzir seres tão diferentes, pensar como isso se aplica na vida humana.
Tudo está à disposição da imaginação do escritor; mas não só do escritor. Um compositor pode, d’um cômodo no sétimo ou nono andar de qualquer prédio que esteja, observar longamente o movimento frenético de uma grande avenida e de suas ruas adjacentes para depois transformar aquilo numa música poderosa que ilustre a fuga dos homens e a carência de sentido na vida. Um pintor pode escolher como assunto tanto um sabiá, para retratar toda a singeleza da criação, quanto uma revolta civil, para retratar a agitação dos espíritos presos em tramas mais ou menos demoníacas, e por aí segue.
Há janelas em toda parte, o tempo todo.

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