Brevidades #22

Dark caminha devagar, não é sem pausas e demoradas contemplações que a série conta sua história, e embora existam arroubos de urgência aqui e ali, o negócio é lento. É lento, mas dá vontade de acompanhar, dá vontade de vagar pela sombria floresta de Winden sem pressa, de tentar entender todas aquelas pessoas com paciência; e a paciência é recompensada. Parte generosa da recompensa é o elenco quem entrega, fazia muito tempo que eu não via um conjunto de atuações tão bom.
Há problemas na série – por exemplo, tive a impressão de que alguns monólogos saíram pretensiosos, pois não pareciam ter estofo –, mas são percalços menores que não chegam a comprometer seriamente o trabalho completo.
Eu ainda assistirei de novo, por enquanto é isso que tenho a dizer.

*

Vestida de preto, conto que abre os Contos Novos de Mário de Andrade, além de genérico, tem como protagonista um tipo de personagem contra o qual tenho ojeriza, isto é, o merdinha sem atitude, e embora aqui esse tipo esteja ligeiramente diferente, sua essência é a mesma. Juca não tem centro próprio, dá a impressão que passa a vida simplesmente reagindo – e reagindo erroneamente – a estímulos externos vindos principalmente de sua prima Maria, por quem se apaixonou ainda criança.
A única parte que realmente prestou na história foi quando os priminhos, brincando de marido e mulher, deitaram numa cama de toalha suja e travesseiro usado. Ali foi também o único momento no qual Juca teve atitude, afundou a cara nos cabelos cheios da amada e beijou-lhe o pescocinho. Como resposta, recebeu o sutil consentimento da prima – seria sua se ele quisesse – mas bastou aparecer a adversidade na forma da Tia Velha, que surpreendeu a pouca vergonha da dupla, que o moleque voltou a ser o arregão de sempre.

*

Acredito que Otto Maria Carpeaux foi um erudito como poucos, e ele é uma de minhas inspirações, mas que o sujeito tinha umas tiradas incompreensíveis, tinha. No primeiro volume de sua “História da Literatura Ocidental”, por exemplo, ele chama Horácio de poeta menor. O maior dos poetas menores, mas menor. Eis uma das coisas que ele diz do poeta menor: “Horácio criou um dicionário poético e uma língua poética comuns à humanidade inteira.”
Poeta menor, Carpeaux?

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s