Notinha sobre a teimosia

Uma moça que se metia a violinista apareceu num dos ensaios da segunda banda que tive com esperanças de ficar no grupo. Tudo bem, dei umas instruções rápidas, ela só precisaria acompanhar certo trecho da música que ensaiávamos, e a primeira coisa que ela devia fazer, neste trecho, era tocar um Fá longo e lamurioso. Pois eu não sei o que a menina fez, algum acidente abriu um buraco, a nota se enfiou lá dentro e ficou berrando por ajuda rouca e desesperada.

: — Isso não é um Fá. – Constatei.
— Ôxe, e é o quê?
— Não sei, a descoberta foi sua, você que batize, mas não é um Fá.
— É um Fá de violino. – Armou-se, como se estivesse diante d’um bando de bárbaros incapazes de apreciar um instrumento tão nobre. Eu virei a guitarra no colo e toquei aquele Dó com síndrome de Saturno logo abaixo da pauta em clave de Sol:
— Que nota foi essa?
— Foi o Fá da guitarra.
Olhe, deu dó, mas teimosia burra é a única coisa trivial do mundo que me irrita.
— Foi Dó.
— Foi não, foi Fá!
— E isso aí que você causou no violino foi Fá também?
– Foi, é Fá de violino!
– Minha filha, se isso é Fá eu tô é Fu!

Poucos anos depois eu estaria cometendo erro parecido: meti-me a escrever Haicais sem ter a menor idéia do que eram Haicais e teimei com um senhorzinho que teve a bondade de se dispor a me alertar de que aquilo não era Haicai nem aqui nem no Japão. Só uns dois ou três anos depois aceitei que estava errado, me irritei profundamente com minha teimosia e apaguei mais de 450 “poemetos” estúpidos.

Teimosia é um negócio do Cão.

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