Início da segunda aula do II Encontro de Escritores Brasileiros na Virgínia

Olavo: Boa noite a todos, sejam bem-vindos. Bom, hoje o nosso tema diz respeito especificamente à capacidade de leitura, que nas novas gerações vem declinando de uma maneira muito impressionante. Essas pesquisas que mostraram que 50% dos formandos das nossas universidades são analfabetos funcionais revelam menos sobre o estados da universidade – mas revelam algumas coisas a respeito dela – do que sobre o estado do ensino elementar, porque é evidente que não foi a universidade que alfabetizou essa gente, portanto ela não pode ser considerada diretamente responsável pelo fenômeno, mas pode ser considerada diretamente responsável pelo fenômeno da aprovação desses 50%; quer dizer, se não sabe sequer escrever, como é que chegam ao último ano d’uma faculdade e ainda recebem um diploma de alguma coisa?
Pelo aspecto da universidade, é claro que é uma conduta criminosa, mas não podemos responsabilizar a universidade por esse estado de coisas, e sim todo o sistema educacional. Nesse sistema foram introduzidas certas modificações entre os anos 70 e 80 que tiveram resultados desastrosos, sobretudo com a introdução de técnicas criadas por Jean Piaget. Emília Ferreiro, Vygotsky e todo um conjunto de educadores que entrou na moda nesse período, sobretudo graças à contribuição de intelectuais e jornalistas trabalhando para a fundação Victor Civita, através das revistas “Nova Escola” e “Sala de Aula”, numa das quais, inclusive eu trabalhei e foi onde eu comecei a observar este fenômeno muito estranho que estava acontecendo. Então hoje nós vemos que mesmo as melhores pessoas – eu observo isso entre os meus alunos, mesmo os mais inteligentes – têm deficiências de escrita que são coisas medonhas e muito difíceis de superar.
Então você vê que não é um problema de superfície, é uma coisa muito profunda, de ordem estrutural, e sinceramente eu não saberia o que fazer; então eu pedia, pelo amor de Deus, que quem pudesse que estudasse esse problema e averiguasse meios de consertá-lo pelo menos na escala individual, não na escala nacional.
E daí apareceu o Carlos Nadalim, que estava ensinando as crianças a ler com enorme sucesso. De repente você via criança pequena aprendendo não somente Português, mas também Latim, com uma rapidez e eficiência impressionante; então, evidentemente, eu entrei em contato com ele e ele veio me dando várias explicações sobre porque essas coisas acontecem, e eu gostaria que ele as resumisse aqui – pulando os detalhes mais técnicos, evidentemente.
Eu acho que esse é o problema mais sério desta geração. Não é um problema estético. No Brasil tem isso, o pessoal pensa que escrever bem Português é apenas uma questão estética, um enfeite, um adorno, não; isto é um problema de compreensão da leitura, e portanto de compreensão do mundo. Eu noto, por exemplo, que a dificuldade de compreender o sarcasmo e a ironia é uma coisa que se tornou endêmica, e os psiquiatras consideram isso um indício de doença mental. E isso é muito comum no Brasil.
Nos debates públicos a gente vê também esse negócio do analfabetismo funcional cada vez mais grave, e a falta de domínio do vocabulário reflete uma falta de domínio do assunto que você está mexendo. Outro dia eu vi aquele caso do Mauro Iasi, que leu aquele poema do Brecht que o operário ameaça matar toda a burguesia e depois ele disse: “Não, isso é somente uma metáfora.” Quer dizer, ele pra escapar – o pessoal ficou brabo, começou a protestar – ele disse: “Não, isso é somente uma metáfora.” Bom, isso é um professor de universidade, ele tem que saber o que é uma metáfora. Evidentemente não era uma metáfora, porque metáfora é quando uma coisa significa outra; no caso, o proletário significa o proletariado, e o burguês significa a burguesia, então isso é uma metonímia, uma parte que representa o todo. Quer dizer, o nêgo não sabe distinguir uma metáfora de uma metonímia. Mas o pessoal pode perguntar que importância tem. Bom, num caso ele pode dizer que foi apenas uma brincadeira, e no outro caso é uma ameaça de genocídio, essa é a pequena diferença entre a metáfora e metonímia no caso.
Eu não acredito que ele estivesse mentindo, acho que ele não sabe realmente o que é metáfora e metonímia, e no entanto chegou a ser professor universitário. Na época que nós temos um ministro da educação que fala “cabeçário” e o grande teórico do PT que escreve “Getúlio” com lh o negócio já virou bagunça, o pessoal não tem mais controle nenhum do que está falando, do que está escrevendo. Estão realmente como cegos em tiroteio.
Então, nessa altura, as idéias das pessoas são determinadas por motivos meramente impulsivos, são reações impulsivas, reações emotivas de muito baixo nível que se expressam como se fossem idéias, idéias políticas, etc. Você tem um debate que não é, na verdade, um debate, é apenas um confronto de emoções, e como é que nós vamos enfrentar os grandes problemas do país na base das nossas emoções? Realmente, não é possível.

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