Trecho da segunda aula do II Encontro de Escritores Brasileiros na Virgínia

Carlos Nadalim: Então por exemplo, professor, vou tentar fazer algum gancho aqui, porque eu cheguei aqui no encontro, mas minha especialidade é essa.
Quando você lê os escritos de Cecília Meireles, do Mário Quintana, do Manuel Bandeira, eles escreviam livros para crianças. O Paulo Briguet foi o responsável por me apresentar o livro “Ou Isto ou Aquilo”, da Cecília, um livro para criança. Esses escritores tinham essa noção. Lá no livro você terá rimas, aliterações e jogos com sílabas e palavras nas poesias, ou seja, os poetas percebiam que essas unidades são unidades naturais de fala, mas quando você lê “A Festa das Letras”, da Cecília, “O Batalhão das Letras”, do Mário Quintana, eles ainda transmitem aquela idéia de que, aprendendo os nomes das letras do abecedário, você vai entender como se compõem as palavras. Mas eu acho que eles não teriam a obrigação de explicitar fonemas em obras de arte.
Então esses autores entendiam que, antes da criança ser alfabetizada, ela precisa ter um ouvido muito afinado pra semelhanças e diferenças sonoras, levando em consideração os sons verbais, e é isso o que esses métodos eficazes fazem. Então há um programa de pré-literacia. No Brasil eles usam aquela palavra horrível para alfabetização, “letramento”. Esse conceito de letramento no Brasil já está repleto de marxismo. O letramento é você aprender a ler grosso modo, pra tomar consciência de classe, pra ser um sujeito crítico, etc. É alfabetização como meio pra transformar o cara num altercador, que é isso que vira a filosofia nas escolas do Brasil, você está gerando altercadores.

Olavo: Você veja que há duas confusões superpostas. A primeira é que o nêgo não está distinguindo entre o que ele ouve e a abstração que ele faz, e com base nisso ele já está analisando a estrutura da sociedade humana. Você vê que porcaria que isso pode dar.

Aluno: Que deu, né?

Olavo: Deu, né? Aquilo del nisso.

Carlos: Então, a Montessori… Professor, eu vou citar algumas autoras e autores aqui, mas eu tirei um pouquinho de cada um. Eu não sou montessoriano, não sou nada, sou aluno do COF e eu sei perfeitamente que, quando o senhor cita uma frase do Nietzsche é aquela frase, e não o pensamento dele como um todo, e o mesmo acontece comigo.
A Maria Montessori falava que o princípio da educação infantil é treinar as percepções das crianças. E qual é a base do treinamento, dizia ela? A percepção de semelhanças e diferenças, seja no plano da percepção visual ou auditiva; e esses programas faziam isso.

Olavo: Agora pensa uma coisa. A posição de classe, introduzir o sujeito na estrutura de classe… isso não é um dado natural perceptível pelos sentidos, é uma abstração já muito elaborada e hipotética. Como é que você vai querer passar isso logo pra criança? Ela vai fazer de conta que ela está vendo uma coisa que, na verdade, é o professor que está pensando. É uma confusão monstruosa logo no início, pegam os bichinhos inocentes, que nem sabem, e já vão metendo numa confusão dos diabos.

Carlos: Eu tô citando essas habilidades aqui porque eu acho louvável o que está acontecendo no Brasil, esses grupos que se formaram no Brasil para condenar a ideologia de gênero nas escolas. Só que antes disso acontecer foram retirados das escolas esses materiais que treinavam essas percepções, entende? Então agora é fácil você chegar e falar que isso, que é diferente disso, é igual. Porque é isso o que eles estão fazendo, “olha, o que você tá vendo não tem essas distinções.”
Mas ao mesmo tempo não há um movimento no Brasil para restabelecer esse treinamento das percepções.

Olavo: E já começa a destruir a capacidade de discernir da criança, de discernir coisa que ela vê. Se você não consegue ver a diferença entre um menino e uma menina, meu Deus do céu, então seu cérebro está danado pra sempre.

Carlos: Então, professor, isso existiu no Brasil, esse treinamento das percepções na pré-escola. Eram percepções visuais e auditivas. Para treinar essas percepções você precisa de duas habilidades básicas, que o professor já mencionou e eu preciso do nome do autor, professor, porque eu lembro que o senhor disse isso numa aula, que são duas habilidades básicas do pensamento, análise e síntese.
Todos os métodos eficazes de ensino, no campo da matemática, da linguagem, só realizam essas duas operações, análise e síntese. O que é o bendito método fônico? O método fônico é o seguinte, vamos pegar uma palavra aqui e decompor essa palavra em fones, vamos reunir esses fones, porque essas duas operações são centrais na leitura, então vou explicar pra vocês rapidamente. O que acontece no curso da leitura? No curso da leitura você decodifica sequencialmente, da esquerda para a direita, grafemas em fonemas, então aqui você tem uma operação de síntese, certo? Por exemplo, você tem lá a palavra “mala” – vou fazer aqui no plano acústico, mas imagine as abstrações – então eu faço m a l a, no fim, o que acontece? A criança sintetiza esses fonemas e chega à palavra “mala”. Daí nós vamos discutir “não, vamos fazer a síntese no fim da sílaba”, “não, vamos fazer no fim da palavra”, mas não vem ao caso explicar isso agora.
Então, na leitura qual a operação que precisamos adotar? Síntese. E na escrita? Na escrita a operação é via análise. Você evoca a palavra na sua mente, a decompõe em fonemas, procura os grafemas correspondentes e começa a escrever. Leitura, síntese. Escrita, análise. Então é esse o treinamento que as crianças recebem na escola todos os dias. Há jogos de subtração de fones, de fonemas, inversão e síntese. Basicamente é isso. Os melhores métodos de ensino de matemática farão isso, os melhores métodos de ensino de música farão isso; os melhores métodos para dar consciência corporal para as crianças farão isso. Hoje, no Brasil, os conteúdos são apresentados de forma global.
Vou citar o exemplo da Educação Física aqui. Todo o mundo aqui jogou bola na escola. Qual é a figura do professor de Educação Física nas nossas recordações? De um camarada que pegava um apito, dividia a turma em dois times e jogava a bola lá no meio. Foi ou não foi assim? Conhecimento global do corpo, o cara não sabe nem andar direito e está lá jogando bola. No campo da música é a mesmíssima coisa. As crianças tocam instrumentos precocemente, não têm uma preparação adequada de escuta musical, já estão lá aprendendo notação. Matemática e linguagem é a mesma coisa. Então eu comecei a pesquisar todos esses métodos e cheguei à conclusão que o problema do Brasil não é só no campo da alfabetização, mas em todas as áreas.
Vou dar um exemplo pra vocês: em linguagem o caminho é muito simples, eu tenho até vergonha de explicar. Você precisa ouvir primeiro para falar e depois ler e escrever. Então a escuta está para a leitura assim como a fala está para a escrita, e é evidente que a escrita é a habilidade mais difícil, porque ela reúne todas as outras. Então às vezes o escritor que enfrenta dificuldades para expor alguma coisa às vezes tem um problema de memória auditiva de curto prazo. Falava, ontem, o Gurgel aqui, que as pessoas não são mais capazes de escrever orações com 30 palavras ou mais. Isso é um problema de memória auditiva de curto-prazo. Desde pequenininhas as crianças precisam receber esse treinamento. Por exemplo, o Tomás que foi nosso…

Olavo: A gente observa isso aí no jornalismo. Articulistas que na terceira frase já esqueceram o que disseram na primeira. Então isso aí não é bem uma contradição lógica, quer dizer, analisando, você diz que é uma contradição lógica, mas na verdade é um problema de memória.

Carlos: Problema de memória.

Olavo: São erros elementares, é um problema de criança.

Carlos: De criança.

Olavo: E a gente vê jornalista, deputado, professor, todo mundo assim.

Érico: Eu fui corretor do ENEM por dois anos. A gente precisa ganhar a vida, né?

Olavo: A gente não conta pra ninguém.

Yuri Vieira: Vou editar essa parte.

Érico. Tá. Por dois anos eu corrigi as provas do ENEM, e aquilo ali, querendo ou não, é uma radiografia do estado do nosso ensino médio. As notas iam de 1 a 5, não tinha 0, então vai de 1 a 5, e a maneira como os instrutores – pessoas muito capazes, mas que só estavam cumprindo ordens – treinavam os corretores pra corrigir ali é… no fundo, você não corrige mais gramática, pensamento analítico, nada disso. Você dava uma lida geral e via mais ou menos como a pessoa articulava, e se aquelas palavras-chave que deviam estar lá, sempre com temas já – a gente sabe – temas no mínimo capciosos, não é? A linha da argumentação já estava pré-estabelecida nos textos que foram selecionados como mote da redação, evidentemente, e assim ia. Olha, Olavo, a quantidade de detrito daquilo ali é um negócio absurdo, realmente a situação ali é gravíssima.

Rodrigo Gurgel: Detrito é a palavra certa.

Érico: Não é? É gravíssima a situação. E já faz uns dez anos isso aí, e depois eu parei, viu, graças a Deus, tá? mas é difícil.

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