“Os Passarinhos Imbecis”, trecho do II Encontro de escritores brasileiros na Virgínia

Rodrigo Gurgel: E olha, digo mais, a coisa é mais grave ainda. Eu não acompanho literatura infantil, mas outro dia eu estava na casa de uns amigos que fazem homeschooling, e quem cuida da educação das crianças é a esposa; e ela veio me mostrar um livro – claro, tudo o que eles compram eles lêem antes pra ver se as crianças podem ver –, uma história infantil, de uma passarinha que mora no alto da árvore, e o pai fala pra ela: “Olha, o seu lugar é aqui na árvore. Você não desça lá pro chão porque lá tem a raposa e ela come passarinho.” Aí, claro, um belo dia a passarinha, voando, diz assim: “Pô, mas será verdade o que meu pai disse, será que eu não posso ir até o chão e tal?”. Aí ela vai, desce, começa a andar no chão, chega a raposinha e as duas fazem amizade.
Muito bem.
Mas aí a passarinha, preocupada com o que o pai falou, faz assim: “Meu pai disse que você come passarinho e que nós não podemos ser amigas.” Vira a raposinha pra ela e diz assim: “Mas o seu pai é um idiota.”. “É, mas o quê é que eu faço agora? Vou voltar lá pra cima da árvore, eu vou fazer o quê?”. Aí a raposinha fala: “Ah, você não precisa contar nada pro seu pai. Pra quê é que você vai contar o que tá acontecendo pro seu pai? Não fala nada, fica quieta.” Aí ela ainda tem aquela dúvida, né, aí a raposinha a convence de que ela não precisava falar a verdade ao pai.
Aí as duas vão formando a amizade. Um belo dia o pai descobre, e claro, dá uma bronca na passarinha: “Você é uma idiota, porque ela não come você agora, mas daqui a alguns anos ela vai comer!”. Aí a passarinha vira e fala assim: “Não, não tem nada disso. Você quem não entende que é possível existir amizade entre duas pessoas diferentes!”

Olavo: Um outro mundo é possível.

Rodrigo. Um outro mundo é possível. E o pai, um passarinho completamente idiotizado também, vira, põe a asa na consciência, e diz: “Oh, filhinha, você tem razão, papai até hoje era um passarinho preconceituoso. A partir de hoje, nós começaremos a fazer amizade com as raposas.” E termina a história.

Paulo Briguet: Nossa.

Olavo: Meu Deus do Céu.

Rodrigo: Vocês percebem?

Yuri Vieira: O epílogo é assim: aí a raposa volta pra casa e diz assim “Pronto, nosso Thanksgiving está garantido.

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