Brevidades #24

Eu não esperava que existisse conto bom entre os “Contos Novos”, do Mário de Andrade, mas existe. Apesar de algumas irrealidades do autor – achar que fazendeiro que não trabalha é capaz de fazer crescer a fortuna, por exemplo. –, e de alguns tipufes (caiu de novo) na escrita que eu nem não ninguém saberíamos elencar de maneira apropriada, o conto captura quase à perfeição aquele jeito de ser mesquinho e infantil que habita a alma de tantos homens e transforma tudo em vaidades das mais bestas.
Não só isso, Mário acaba esboçando fiéis retratos de homens simples, bons e trabalhadores, personagens, aliás, que penam por causa de capricho do fazendeiro mencionado acima.
O que acontece é o seguinte: o fazendeiro decide inspecionar um poço que cavavam para ele e, enquanto olha o buraco, sua caneta-tinteiro cai. Bom, fazia frio, os arredores do poço não eram lá os mais seguros do mundo, e basta dizer que o sujeito preferiu arriscar a vida dos seus subordinados, por birra fruto de orgulho mesquinho, do que ficar sem a maldita caneta, apenas uma entre outras que tinha.

*

Se as pessas no ônibus tivessem morrido queimadas eu queria ver se ia ter matéria falando dos sonhos de cada uma delas, explorando suas personalidades, se ia ter discurso a respeito de cada uma delas, se iam mostrar o impacto de cada morte em cada família.

Não dá nem pra chamar essa mídia de nojenta, não há nojeira que baste.

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Passei pela TV e a tela mostrava um ritual indígena que consistia no compartilhamento d’um líquido servido numa cuia. Uma mulher não agüentou o ritual, foi vomitar. Não é que o câmera, meio afoito, seguiu a infeliz e gravou seu momento nojento como se aquilo merecesse ser registrado a todo custo? O sujeito parecia pensar: “É pra isso que estamos aqui!”

*

Hoje no mercado o rapaz responsável por guardar sacolas e badulaques dos clientes repousava o queixo sobre os braços no balcão. Só que é o seguinte, ele tem o rosto rechonchudo, o maxilar largo, e usava um coque apavonado, de maneira que sua cabeça ficou parecendo mais uma fruta exótica, ali esquecida, do que qualquer outra coisa.

*

Contos Novos, do Mário de Andrade

I. Vestida de preto – Medíocre

II. O ladrão – Ruim

III. Primeiro de Maio – Muito ruim

IV. Atrás da Catedral de Ruão – Muito ruim

V. O Poço – Muito bom*

VI. O Peru de Natal – Medíocre

VII. Frederico Paciência – Ruim

VIII. Nelson – Muito bom*

IX. Tempo da camisolinha – Medíocre

*Descontadas as confusões, irrealidades e as libertinagens com o Português.

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