O Site Maldito, de Jorge H. Gris

Ricardo era um adolescente não muito diferente da maioria dos adolescentes, se considerarmos a essência da fase e da juventude. Ia razoavelmente bem no colégio, se esforçava para agradar seus amigos e tinha a certeza absoluta de que conhecia todos os segredos do universo e os culpados pelos piores males do mundo.
Como boa parte dos rapazes de quinze anos, também passava horas a fio na internet vendo os sites mais escabrosos. Tinha um gosto especial por endereços e vídeos que disponibilizavam cadáveres e espíritos. Acessava-os de madrugava, e às vezes compartilhava informações com alguns amigos, ignorando muitos pedidos para que ele não fizesse isso. Ricardo era um pouco mais sombrio que a média, é verdade, e só Marcelo, um rapaz mais velho, do terceiro ano, o entendia bem.
Foi Marcelo quem chegou com a excitante notícia, no pátio ao intervalo:
– Cara, tem um site muito louco que nem eu tenho coragem de explorar.
– Qual é?
– Não é seguro, a coisa lá é na vera, dark net bem escura.
– Qual é? Eu quero ver essa porra.
– Beleza, mas avisei. Só funciona entre uma e três da manhã.
– E por quê?
– Sei lá, mano, é assim. No resto do dia tá só a página branca lá.
Como demorou a escurecer! O coração do rapaz batia ansioso, e naquela tarde não comeu, não estudou, não deu atenção a amigos ou família. Seus pais provavelmente acharam o comportamento do filho mais estranho do que o usual estranho, mas não fizeram caso. Ricardo se recolheu antes das oito, ligou o PC, foi pra cebolinha e digitou a url maldita. Nada, só uma página em branco.
Sorrindo que nem criança, e tão impaciente quanto uma, agüentou a custo o passar das horas, olhando enviesado para o relógio no canto inferior direito da tela. Respondeu um boa noite mal-humorado aos pais e à irmã mais velha sem abrir a porta.
Uma hora!
Palavra que jamais digitara tão rápido na vida. O site mostrou, dessa vez, uma tela preta, onde uma ordem estava escrita em vermelho: “Apague a luz”. Ricardo se levantou para apagar a luz, e logo após ficar de pé, se virou desconfiado para a máquina. “Como essa merda sabia que eu estava de luz acesa?”. Descartou o incômodo, e também descartou a idéia de que provavelmente o Marcelo estaria a tirar graça com sua cara. Sentou-se e leu: “Invocar?”. Abaixo, duas caixinhas retangulares com “sim” e “não”.
Teve medo, mas era aquele medo de quem está prestes a fazer uma insanidade e não pretende voltar atrás. “Sim”.
Quase sem fôlego, arfando, viu a mensagem sumir e a tela voltar à negridão total. Seu pescoço arrepiou-se com uma súbita corrente fria vinda da janela aberta e algo pareceu errado com o quarto. No site, entretanto, nada mais apareceu. Tentando relaxar, tirou a mão de cima do teclado, e quando a pôs na mesa, sentiu o toque de um líquido quente. No susto, pulou e pôs a palma em frente à tela para que fosse iluminada. Sangue.
Algo pingou na sua perna. Mudo, viu que era sangue, viu que havia sangue escorrendo do teclado e da base do monitor. Olhou para a CPU e percebeu que sangue escorria dela.
Nesse momento, um cheiro forte começou a invadir o cômodo, um odor roto, sufocante, e a tela do computador piscou algumas vezes antes de revelar uma imagem que parecia vinda de alguma câmera de segurança. O que podia ser visto era o próprio quarto de Ricardo, todo cinza.
O adolescente quase entrou em convulsões e falou baixinho, enquanto o sangue não parava de jorrar dos eletrônicos:
– Já chega… já chega… eu não faço mais isso… já chega. – Seus olhos simplesmente não conseguiam se desviar da tela, só se desviaram quando o rapaz pulou de susto na cadeira por causa de uma batida violenta da janela.
Desconfiado, Ricardo observou a janela, tremendo, boca meio aberta. Ouviu ao seu lado:
– Psiu.
Todo enregelado, virou a cabeça muito, muito lentamente para a tela. Lá havia um rapaz só um pouco mais novo, imberbe, cabelos negros e muito lisos, sorria. Ricardo arregalou os olhos.
O sorriso do outro transfigurou-se de súbito num esgar de ódio virulento, seu pescoço esticou e a cabeça atravessou a tela. Ricardo quase caiu, não podia acreditar. A boca do invasor escancarou-se, derramando baba e sangue, produzindo um barulho grotesco e espalhando fedor horrendo. Seus olhos começaram a derreter, escorreram pelas faces. Mãos inesperadas, feitas de morte, agarraram as canelas de Ricardo e dois gritos lancinantes cortaram a noite.
Um apagão atingiu o bairro.

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