Nota sobre “Phantom”, de Murnau

Lorenz era um sonhador, mas não desses sonhadores visionários que cativam meio mundo de gente e freqüentemente contribuem para a humanidade, e sim desses avoados escapistas que se contentam mais ou menos com a mesmice do cotidiano e negligenciam aspectos importantes da vida, como o trabalho que os sustenta. O sujeito viajava tanto que acabou se permitindo ser tragado por uma espiral de humilhante decadência após se tornar obcecado por uma mulher. A partir daí, Lorenz foi expulso de terreno alheio como se fosse um vadio pervertido, foi aliciado por um mau-caráter, perdeu a confiança da Tia, que só confiava nele, se afastou das pessoas que o queriam bem, gastou dinheiro com uma dessas mulheres sanguessugas, perdeu o emprego, contribuiu para a morte da mãe – a velha morreu foi de desgosto — e enfim foi preso.

Lorenz era, portanto, um homem frouxo, sem espinha, que certamente não havia desmoronado antes por misericórdia divina. Depois que sua vida começa a escorrer pelo ralo ele não retoma o controle da situação em nenhum momento, apenas se rebaixa mais e mais, chega até a ser praticamente chutado como cão pulguento.

Dos filmes do Murnau que já vi — não foram muitos, é verdade — este foi o que achei mais doloroso e significativo. Este filme merece linhas mais numerosas, maiores e melhores do que as que escrevi acima.

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