Conto #5 – O Mistério da 496, de Jorge H. Gris

Está é uma história que não me agrada contar… nenhuma história deste tipo me agrada contar, é verdade; conto por necessidade, mas esta é demasiado doída.

Havia, numa rua singela não muito diferente de outras, uma casa estranha, a número 496, de onde ruídos sutis e assustadores podiam ser ouvidos pelas pessoas que se atrevessem a cruzar seu umbral após a meia-noite com os olhos abertos e as mentes alertas.

Raul, que desde a infância havia morado defronte ao casarão aparentemente abandonado, coberto de hera e de janelas eternamente fechadas, tivera a infelicidade de testemunhar algo horrível quando adolescente: um visitante batera à porta da morada sombria e fora subitamente recepcionado por tentáculos orgânicos laminados que perfuraram sua carne e arrastaram-no para dentro.

Desde que vira o incidente perturbador, Raul nunca mais abriu a cortina do quarto à noite, e se recusava a dormir sem ter o abajur ligado junto a si. Não havia contado o caso a ninguém, apenas escrevera-o, meio incrédulo, num diário, e tentou por anos esquecer do assunto. A casa à frente não era de sua conta.

A firme resolução de fingir que a construção vizinha não existia, contudo, foi abalada por causa de sua namorada à época em que se passa esta história. Raul era então prodigioso mancebo de vinte e poucos anos, já quase terminando a faculdade de Economia e se preparando, psicológica e financeiramente, para deixar o teto dos pais, por quem nutria enorme carinho e perene admiração.

A namorada, Rebeca, depois que começou a frequentar o lar de Raul, não pôde deixar de reparar na casa vizinha, e notou também o comportamento esquivo do companheiro toda vez que o assunto era mencionado. “Nem é tão estranha assim”, “Não acho que tenha nada demais lá dentro”, “Sei lá, provavelmente os donos esqueceram dela”; eis algumas das respostas lacônicas dadas à moça.

Na primeira noite que passou no quarto do namorado, Rebeca se aproximou das cortinas cinzentas; já as segurava quando foi interrompida por Raul.
– Não, Beca. Prefiro assim.
– Mas você passa o dia todo com as cortinas afastadas. – Virou-se, sem entender.
– E à noite as fecho, do contrário elas não teriam serventia nenhuma, né?
– Tem a ver com a casa? – Rebeca pôs as mãos na cintura.
– Ah, não, a casa não é muito agradável de olhar no escuro, mas não tem nada a ver, não. – Só que ela percebeu a tensão do outro. Raul havia baixado a vista e se encostado, visivelmente desconfortável, à parede da cama.
– Raul, o que você não está me contando?

Pressionado por aqueles olhos doces e incapaz de manter atitude negativa por mais tempo perante a amada, Raul contou o que vira quando adolescente, hesitante, pois narrado em voz alta o caso parecia loucura.

A narrativa animou Rebeca. Ao término dela, a mulher nitidamente continha a euforia, disfarçava a custo o brilho nos olhos, mostrava-se satisfeita por ter as suspeitas de que algo sombrio acontecia no terreno vizinho confirmadas de maneira tão espetacular.

Relembrar da noite terrível também havia despertado a incômoda curiosidade adolescente no coração de Raul. Deitado para dormir, poucas horas mais tarde, ele verdadeiramente tentou afastar de si os pensamentos relacionadas à casa de número 496.

Felizmente o sono veio logo, e ao contrário do que ele pensava, os sonhos não desabrocharam recheados de pesadelos.

Na manhã seguinte, Rebeca lavava a louça, os pais de Raul haviam saído com seu irmão caçula, e resolveu convidar:
– Vamos lá na casa?
– Não, Rebeca. Que ideia é essa? – respondeu o namorado, pálido, depois de se recuperar do choque.
– Raul, você não quer saber o que tem lá?
– Eu vi o que tem lá. Não quero conhecer aquilo pessoalmente.
– Devem soltar só à noite.
– Soltar? Você acha que aquilo é um bicho, um pet?
– Deve ser um tipo de guardião. – Ela parou de lavar louça. A empolgação era quase palpável. – Vamos, vamos, vamos… Por favor…
– Pode ter alguém lá…
– Se tiver a gente volta. Vamos?

Rebeca provavelmente era uma daquelas pessoas embriagadas de cultura popular rasteira, para quem tudo é diversão, para quem a idéia de estar numa bizarra imitação real de enredo cinematográfico, por mais perigosa que fosse, era excitante.

Uma pessoa, resumindo, que não entendia os perigos do escuro e a importância da luz, caso típico de nossa contemporaneidade.

Raul foi com ela mesmo assim.

A rua era razoavelmente inclinada, com uma padaria perto da esquina inferior, postes modestos, muitas árvores e preguiçosa vida matinal aos fins de semana.

O casal não viu nenhum vizinho e chegou rapidamente à porta da frente. A memória macabra assaltou de pronto a mente de Raul, que titubeou.
– Vamos voltar, não é seguro.
– Raul! Já estamos aqui!
– Ninguém vem aqui, a única…
– Pois então somos exploradores. Não dê pra trás agora. – Bateu à porta.

Para a intensa surpresa de ambos, um homem de altura mediana, cabelos ralos e feições imóveis atendeu ao chamado. Raul engoliu em seco.
– A que devo o infortúnio? – perguntou o homem, demorando o olhar inexpressivo em cada um; o tom rígido e frio.
– Perdoe-nos, pensamos estar vazia. – Apressou-se Raul.
– Invadiriam, se estivesse?
– Esta era a intenção, na verdade, mil perdões. – Confirmou o rapaz.
– É que estamos curiosos sobre um crime que aconteceu aqui há quase dez anos. – completou Rebeca, num misto de medo e fascínio.
– É mesmo? – rebateu o morador, nada curioso.
– Já importunamos o cidadão por demais, Rebeca. – Disse Raul.
– Decerto. – Anuiu o homem, imóvel.
– Ah…
– Vamos. – Prosseguiu Raul.
– Não se metam com esta casa. – O casal parou e observou atentamente o homem que atendera a porta. Não havia ameaça na voz, havia somente uma espécie de gélida constatação em forma de aviso.

Nenhum dos dois teve coragem de dizer nada àquilo e simplesmente se afastaram, descendo a rua rumo a uma praça não longe dali.

Eu gostaria de dizer que, após a advertência do estranho residente da casa, o casal afastou da cabeça qualquer ideia de xeretagem, mas o espírito humano, às vezes, é suicida, e seguindo a tendência natural, a curiosidade se agigantou nos dois corações, talvez por igual, mas Raul saberia se conter se não fosse a mórbida insistência de Rebeca no caso.

Eles passaram o dia inteiro conversando sobre o local misterioso, Rebeca não cansou de lembrar o quão improvável seria alguém morar naquele lugar caindo aos pedaços, talvez o homem que atendera a porta fosse um empregado dos donos, talvez até um policial, afinal, quem garantiria que Raul era a única testemunha dos horrores do casarão? O homem também podia ser bandido.

De qualquer modo, era perigoso se meter mais, Raul falava, todavia a moça não ouvia e deslindava teorias intrigantes, absurdas e assustadoras.

Raul acabou vencido pela paixão da namorada e permitiu que a curiosidade, ainda que temerosa, aflorasse. Poucos dias depois, uma câmera foi instalada à janela do rapaz, apontada diretamente à construção vizinha, e quase toda manhã, antes de ir à faculdade, o jovem inspecionava as gravações e contava as novidades inexistentes para a namorada.

Meses passaram antes que algo aparecesse em vídeo.

O que apareceu, entretanto, acordou todos os temores de Raul, adormecidos pela inatividade na casa e pela rotina diária.

Foi numa manhã de sábado que Raul assistiu, pasmo, à praticamente a mesma cena de anos atrás: um sujeito apareceu à beira da casa, de madrugada, demonstrando estar incerto sobre o que fazia por ali àquela hora, bateu à porta e foi recepcionado por trevas e morte brutal.

Raul cogitou esquecer de novo, jamais contar a Rebeca que gravara o terror, mas sabia que a namorada não o deixaria em paz se ouvisse que uma das fitas havia dado problema.

Sem muita escolha, telefonou para ela:

– Beca? Pode vir aqui?
– Já estava indo. O que houve, pegou alguma coisa?
– É… alguma coisa pegou alguém.

A moça deu um gritinho de satisfação e desligou em nítida euforia.

Quando Raul ouviu a campainha no andar inferior, segundos depois de falar com a namorada, surpreendeu-se enormemente com a velocidade da moça. Desceu para atender a porta, e viu que seu pai diante de um homem inexpressivo de ralos cabelos cinzentos.

: – Raul, é pra você. – Disse ele, um sujeito simpático, com o meio da cabeça careca, óculos de aros finos e braços roliços.

Raul mal se moveu. Fixou o olhar na figura do visitante e só conseguiu sentir o mais puro terror, terror alimentado por uma inexplicáveis vagas de maus pressentimentos.

O pai já havia saído de cena, e o indesejado homem de terno negro mantinha, paciente, as mãos sobrepostas em frente ao corpo. Encarava o jovem não com olhos duros, mas vazios, e por isso, destruidores.

Enfim, Raul tomou coragem e se aproximou:

– Eu disse para não se meterem com a casa.
– Nós não… como sabe?
– Não nos subestime. Não subestime o que não compreende. Queime a fita, rapaz, queime a fita e jamais aponte a câmera para nosso lado novamente. Se desobedecer, em breve perderá tudo o que lhe é mais precioso. – O homem fez uma pausa. – Não sobrará nada. – Frisou a última palavra.

Raul quis protestar, seu brio de homem havia se eriçado com uma ameaça tão clara, porém permaneceu quieto, sem conseguir esboçar qualquer reação que não viesse do medo. Respirava pesadamente, tentava não tremer. O homem parado à sua porta parecia emanar um poder estranho e maligno; no entanto aparentava desinteressada e fria serenidade.

O visitante disse as últimas palavras:

– Ninguém mais deve ver aquilo. Siga as minhas recomendações e provavelmente terá uma vida feliz. – Ele fez um rígido aceno com a cabeça à guisa de cumprimento e girou nos calcanhares. Raul fechou a porta assim que viu as costas do indesejado mensageiro e subiu correndo para o quarto. Amaldiçoou-se por não ter sido mais másculo, por não ter lançado perguntas, por não ter encetado qualquer tipo de diálogo.

Segurou a fita, suava. O que diria à namorada? E se destruísse a gravação depois de mostrá-la à sua amada? Isso violaria as ordens do sujeito… o fato é que uma hora foi embora e o jovem não havia chegado a conclusão alguma.

A campainha tocou pela segunda vez naquele dia. Era Rebeca.

Chegamos então ao triste desfecho desta história. Que súbito, pode pensar o leitor. Pois continue.

Raul mostrou a fita para Rebeca. Contou também do aviso dado pelo misterioso visitante e ambos se convenceram de que o melhor a fazer, afinal, era queimar a fita e nunca mais filmar a casa de número 496. Entretanto, nas noites que passava com o namorado, ela insistia em ao menos espiar a construção vizinha periodicamente, e ele permitia.

Nos dias seguintes à destruição da fita, Raul foi acometido de uma angústia quase insuportável, e paranóico, via o homem de cabelos ralos e faces mortas em todo lugar.

Meses depois, a agonia estava reduzida a um resíduo incômodo de mau pressentimento. As espiadas noturnas com a namorada nada de novo revelaram, os dois cogitaram envolver a polícia na questão.

Em novembro de 1996, Raul teve um sonho estranho. A noite havia sido especialmente divertida porque além de sua namorada, seu tio favorito com a esposa e filhas passavam o fim de semana em sua casa, a convite do pai, louco para mostrar a piscina nova.

No sonho, que não era um sonho, devo adiantar, Raul perambulava sozinho pela rua. Tendo percorrido a vizinhança, voltou-se para a casa proibida, estranhara a porta aberta, e foi até lá. Tudo estava muito escuro, mas o jovem percebeu que o local era mesmo abandonado; Não viu móveis e as paredes descascadas apresentavam rachaduras finas; as plantas se faziam presentes.

Ele foi até o primeiro andar da casa, que não se encontrava em melhor estado, e se aproximou da janela que dava diretamente para o seu quarto. Sua casa tinha as luzes apagadas já há horas e parecia-lhe estranha, vista dali. Quando Raul percebeu a porta da frente escancarada, notou que não sonhava, ele realmente saíra de casa e estava agora no primeiro andar da 496.

Os pêlos do braço se eriçaram, o rapaz ouvia, completamente desperto, um ruído crescente, rasgado, que em breve se transformaria em barulho infernal. Olhou para o céu e viu um pequeno avião parcialmente em chamas lutando em vão para evitar a iminente queda.

Imóvel, Raul não se mexeu mais a noite toda. Viu a explosão, acompanhou o mórbido rebuliço da rua, esperou os bombeiros e assistiu ao combate contra o fogo, ouviu algumas perguntas dos policiais enquanto as luzes das sirenes pintavam a noite.

As equipes de resgate levaram quinze corpos, e ele não pôde reconhecer quem era quem.

Contemplava, morto por dentro, a comoção diante de si quando o homem que o advertira chegou junto de si. Carregava o mesmo ar inevitável, a mesma inexpressividade. Observou a cena por um momento antes de perguntar:

– Aprendeu a lição?

Raul não disse nada. Ele já não sentia nada, já não era coisa alguma.

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