Conto #6 – O Guarda-Roupa, de Jorge H. Gris

Bragança Paulista tem várias lojas que vendem móveis usados, e algumas das histórias macabras por trás de certas peças desencorajaria qualquer comprador.

Jorge não era qualquer comprador.

Após passar por lojas diversas, ele viu na última exatamente o que procurava. Entrou de olhos fixos no guarda-roupa estacionado ao fundo, esquivando-se de sofás velhos, mesas, cadeiras, fogão, gavetas empilhadas, cama de casal com colchão, e deslizou a palma da mão pela lisa superfície de madeira escura, encantado. Divertiu-se com o contraste causado entre sua aliança de ouro branco e as portas do móvel.

Um senhor bem magro, de jeans e camisa branca, alto e calvo, surgiu, ergueu o queixo e ficou observando o cliente de boca meio aberta.

O guarda-roupa tinha seis portas largas, nove gavetas, os puxadores eram banhados em prata. Era grande, crescia três metros, e o bagageiro amplo armazenada tranqüilo excelente quantidade de malas. Jorge bateu nele usando o nó dos dedos, aproximando o ouvido para escutar bem o som. Aprovou, satisfeito.

O proprietário da loja, seu Osvaldo, entrelaçando as mãos às costas, interferiu:
: – Olhe, eu tenho outros, viu? Tá pra chegar um esta semana mesmo. – Jorge se virou distraído, alegre, relanceou ao idoso e tornou a examinar a madeira.
– É ébano?
– Não sei o que é, não.
– Quanto tá? – voltou-se para seu Osvaldo.
– Tá caro. – Devolveu o velho, abaixando o queixo e olhando profundamente nos olhos do comprador.
– Quanto?
– É melhor comprar novo.
– O senhor não está querendo vender o produto? – inquiriu Jorge, confuso. – Por que o tem à mostra, então? – Osvaldo nada disse.
– Vamos lá, quanto quer por ele?
– Veja, o senhor pode comprar barato, mas só depois de ouvir.
– Pois fale que eu ouço. – Um casal entrou no estabelecimento.
– Lucão, deixe de cachaça e vá atender os clientes! – berrou o dono pro interior da loja. Saiu, de uma saleta adjacente, um dos homens mais destrambelhados que Jorge já vira na vida. – Oi, Rita; oi Cássio. – Cumprimentou Osvaldo. Deviam ser fregueses antigos.

O tal de Lucão parecia eternamente ébrio, sem foco nos olhos, fala enrolada, bochechas inchadas, barrigudo; andar impreciso.
Jorge retomou a conversa:
– Então, seu…
– Osvaldo.
– Seu Osvaldo. O que tenho que ouvir?
– Um cadáver apodreceu aí dentro. – Jorge nem piscou, manteve-se fixo no rosto do proprietário, sério.
– Vai levar mesmo assim? – o cliente não deu resposta. Voltou-se para o guarda-roupa lentamente, limpando a mão nas calças.
– Sábia decisão. Eu tenho outros ali, vai chegar um esta semana…
– Mas foi bem limpo dentro?
– Como? – Osvaldo se alarmou. – Foi, claro que foi, só que o senhor não vai querer depois de saber do que aconteceu.
– Vou, não acredito em fantasmas, nessas coisas. E não é pra mim.
– É pra quem, se posso perguntar? – seu Osvaldo ergueu uma sobrancelha. O casal passou por trás do velho, guiado por Lucão.
– Pro meu filho.
– Ah… – o vendedor balançou a cabeça em silêncio, devagar, várias vezes.
– E aí, quanto é? O senhor falou que ia baratear se eu ouvisse.
– A boca grande que chega com a idade. – Ele se afastou. – Venha cá, duzentos reais.
– E entrega quando? – Jorge o seguiu.
– Até o final da tarde. Quero me livrar disso logo.

Jorge chegou em casa satisfeito. Comunicou a seu filho, Mateus, o excelente negócio que fizera, e Flávia, a esposa, ficou bastante satisfeita. Mateus, como quase todo adolescente, não ligava muito para guarda-roupas e reagiu indiferente à notícia, mal olhou para o móvel posto em seu quarto.

Contudo, veio a noite avançada e a hora de dormir. Mateus, um rapazote alto e magro, de cabeleira cheia, desligou o PC e sentou na cama de frente para o presente. Pela primeira vez no dia o jovem estudou o guarda-roupa, reparou em seus puxadores prateados reluzindo à lua e na madeira que adensava a noite.

Mateus coçou o ombro e continuou olhando para o guarda-roupa. Bonito, achou bonito, e embora o espaço útil de seu aposento houvesse diminuído, a figura imponente que o tomara era digna de respeito. Examinou as seis portas largas, as gavetas, o bagageiro, e concluiu que gostava do presente. O velho armário, provavelmente já levado da rua por alguém, desaparecia perto dele.

Mateus ainda não se interessava pela história dos objetos, ou pela história do que quer que fosse, portanto não elaborou nenhuma conjectura concernente à procedência do móvel novo, apesar de não conseguir afastar a impressão algo sombria causada pelas tábuas e o tom lacrimoso embebido na prata.

O adolescente, por fim, deitou de qualquer jeito. Assim que deitou, se sentiu observado. Ele franziu as sobrancelhas e respirou mais rápido, não apreciava essas coisas. Convenceu-se de que era bobagem o que sentia e fechou os olhos.

Adormeceu sem ver a moça nua e ensangüentada sentada ao chão.

Na corrida rotina matinal do apartamento, Jorge perguntou às costas do filho, que saía pro colégio:
– Gostou?
– Ele é da hora, sim.

O dia passou como sempre passava; anoiteceu, e lá estava Mateus de volta ao quarto, navegando na internet com fones de ouvido. Às duas, o jovem ouviu as rápidas batidas costumeiras na porta; seu pai avisando que, se não dormisse, estaria quebrado no dia seguinte.

Mateus desligou a máquina e se acomodou na cama olhando para o guarda-roupa. Sua mãe havia organizado todas as vestes dentro do móvel, mas pelo visto esquecera uma gaveta aberta. Ele levantou e foi fechá-la, fazendo pouco caso da textura fria da madeira. Tinha um joelho no colchão quando ouviu o ranger de dobradiças. Olhou para trás e viu duas das portas do guarda-roupa escancaradas. Mateus permaneceu imóvel, joelho no lençol, pescoço virado, por longos minutos. Talvez, arrisco dizer, havia sido montada na cabeça do jovem a suposição de que o vento fora autor do susto, porém a suposição caiu depois dele constatar que a janela se encontrava firmemente cerrada.

Disse ele:
– Oi? – sentiu-se estúpido.

Tremendo de medo, caminhou até as portas, e as fecharia, se antes não tivesse visto uma face feminina de olhos arregalados e sorriso lunático.
: – AH!!

Recuou, esbaforido, a moça morta caiu no chão do quarto e levantou a cabeça com a boca arreganhada, esticou um braço pustulento e agarrou seu calcanhar, tirando-lhe o equilíbrio. Mateus caiu com as costelas na base da cama e gritou.

Seu quarto foi praticamente arrombado pelo pai, seguido da mãe. Eles o acharam estirado a ter convulsões, meio envolvido pelas cobertas puxadas do colchão, as portas do guarda-roupa abertas, panos espalhados. Jorge, boquiaberto, só conseguia olhar para o guarda-roupa enquanto sua esposa, desesperada, se debruçava sobre o filho combalido.

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