Editorial – Lá e de volta outra vez

Grandes jornadas podem acontecer dentro de nós mesmos. Para que tais jornadas aconteçam não é necessária a visita inesperada de um mago em busca d’um ladrão que possa servir a comitiva de anões exilados decidida a retomar o próprio reino das garras d’um dragão odiento e ganancioso. Não é preciso, nessas jornadas, enfrentar monstros selvagens ou fugir de masmorras. Contudo me foi crucial lidar, no caminho, com variegadas tentações e não me permitir ser obscurecido por minha própria sombra.

A jornada que empreendi se deu inteiramente dentro de mim. Saí de meu velho casebre arruinado, ali pela região do Pântano dos Arrependidos, e bati pernas do Bosque Lamurioso ao Rio das Tormentas, onde quase me afoguei diversas vezes, pois meu barco não era confiável e as águas eram violentas. Pressenti, entre as tristes árvores das margens, olhos agoniados de fantasmas tenebrosos que espreitavam meus apuros. Depois eu caí no Lago dos Desejos, tive de cruzar o Vale da Perdição e vencer as Montanhas do Orgulho Vão. Hoje estou em novas terras, já respiro melhor, e mais forte trago o coração.

Reinicio este projeto pela última vez; apesar das minhas inúmeras deficiências (algumas delas serão corrigidas com o tempo, por favor, paciência), julgo-me pronto a prosseguir em definitivo com esta página e com minha vida de escritor.

Esta sessão editorial servirá para que meus eventuais leitores tenham alguma noção do que esperar nas próximas rodadas de postagens. As postagens estarão online todos os dias às seis da manhã, se Deus quiser. Hoje eu publiquei memórias a respeito do meu batismo, certamente um dos momentos mais importantes da minha vida. Fui ateu por muitos anos, e mesmo depois de voltar a crer em Deus passei outros tantos anos desinteressado em formalizar minha crença; cria em Deus de maneira vaga, e embora soubesse que Jesus Cristo veio ao mundo para nos salvar, tinha imensa dificuldade em enxergar o salvador como alguém vivo e preocupado conosco até hoje, dois mil anos após seu sacrifício amoroso.

Amanhã aparecerá aqui uma espécie de conto-crônica retirado justamente do início da minha fase intermediária entre o ateísmo e o catolicismo, uma colega de trabalho tentou me levar ao culto do deus oceano e eu recusei o convite.

Depois surgirá um breve comentário sobre “Viagem ao Araguaia”, relato da expedição de Couto de Magalhães pelas entranhas do Brasil colonial, e um poeminha tecido num momento de aguda desesperança. Em seguida, visito rapidamente o Inferno e espio o ódio dos demônios. Saio do fogo da danação pra resenhar brevemente o poderoso poema “If”, de Rudyard Kipling, escrito pelo poeta ao seu filho, então no início da adolescẽncia. Kipling pretendia ensinar o rapazote a ser um homão da porra, a ser uma figura realmente inspiradora; infelizmente, o moço morreu na guerra antes dos vinte anos, e a lição ficou para todos nós.

Por fim, apresento aos leitores um brevíssimo conto policial estrelado pelo investigador Davi Hermano — a razão de tamanha brevidade é que a historieta fora originalmente escrita por encomenda para alimentar a página d’uma editora com a qual colaborei algumas vezes, o continho não devia ultrapassar mil caracteres –, e uma crônica a respeito de uma das tantas fulanas que existem em nosso país.

Essa é a programação dos próximos dias, espero que gostem das leituras.

Sejam bem-vindos e Deus os abençoe.

*

Bragança Paulista, 2020

Imagem: Ylanite Koppens/Pexels

Um comentário

  1. Olá, Yuri, meu Amor!

    Parabéns por ter posto o site de volta à ativa.

    Adorei a sua ideia de colocar posts editoriais aqui e acho muito válido usar esse espaço para colocar informações sobre como andam os seus projetos também. Mesmo que você só tenha publicado alguns trabalhos mais periféricos da sua obra, sua escrita é uma pérola na literatura nacional, mas poucos dos que te acompanham sabem que podem comprar um livro seu se quiserem.

    Seria super legal se num próximo editorial você pusesse alguns parágrafos sobre como mestrar RPG de mesa para os seus amigos na adolescência foi o embrião para criar seu mundo fantástico que hoje conta com dois livros escritos, contos avulsos e uma infinidade de textos mitológicos. “As Fadas da Xícara de Chá” é um livro infanto-juvenil pequeno, carismático, e que te trouxe adultos com e sem filhos te cobrando por uma sequência. Aqui você poderia responder a perguntas e atualizar os interessados sobre os projetos aos quais você tem se dedicado.

    Você escreve várias coisas que pelo menos a princípio não passam pelo site e os editoriais podem ser usados para dar noção aos seus leitores do tamanho e da qualidade da sua obra. Tenho certeza que todo mundo que te segue vai gostar.

    Da sua maior fã. Beijo!

    Curtido por 1 pessoa

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