Meu Batismo

Chegamos à capela de Nossa Senhora da Penha cedo demais, os portões ainda nem haviam sido abertos ao público. Em frente à capela, uma senhorinha prestativa e fortalecida pelos anos de uma vida que, embora talvez não tenha sido como ela queria, fora bem vivida, varria o chão. O sol agarrava na gente, e tenho quase certeza que perguntei do batismo com a cara meio franzida por causa dos olhos agredidos pela luz no piso claro dos arredores. Ela não sabia de batismo algum, mas disse que em breve o pessoal chegaria com a chave para abrir o portão e eu poderia esclarecer a questão.

Não demorou e logo estávamos — eu, minha esposa e meus dois meninos –, no estacionamento da capela, um espaço amplo que contava com umas casinholas arrumadas ao fundo e também fazia divisa com uma quadra poliesportiva. Deixei meu garoto mais velho correr livre pela quadra, e zanzei por lá conversando com minha mulher. O passeio foi agradável e estávamos satisfeitos.

A mesma senhorinha que varria a entrada da capela, passando perto da quadra, me comunicou que de fato haveria batismo naquele domingo, e foi essa mesma velhinha que deu uns bons puxões na corda do sino para que ele avissasse ao mundo em roda que já era hora de lembrar do Cristo outra vez. A capela da Nossa Senhora da Penha aqui de Bragança Paulista, aliás, é modesta, mas bonita e respeitosa. Suas paredes claras bordadas de verde, sua tímida torre que parece se desculpar por não conseguir subir mais alto, sua compleição razoavelmente robusta, como se houvesse um dia tido pretensões a igreja, o grande Jesus cruficicado esculpido e pintado por mãos inábeis, mas a serviço d’um coração fervoroso, os pedacinhos coloridos de vidro em cima das janelas à guisa de vitrais, a claridade do salão, tudo era acolhedor e se afigurava a mim meio como que uma extensão natural da boa vontade das pessoas que lá freqüentavam.

Enquanto esperava a missa, me entreti com o vai e vem de uma formiga descomunal entre o altar e a primeira fileira de bancos. A bichinha foi pisada, sem querer, por um solícito coroinha, mas sobreviveu e saiu arrastando sua metade esmagada pelo Templo do Senhor. Tive pena. Antes do serviço, o padre encarregado quis falar comigo na sacristia, e a caminho de lá pus fim à miséria do inseto. A primeira impressão que o padre me passou foi de alguém entojado, desarmônico com um ambiente tão verdadeiramente cristão. Durante a missa, entretanto, vi que havia me enganado e me envergonhei dos meus pensamentos.

Após uns cânticos cujas letras eram sérias demais para a música que as serviam de base e da pregação, nosso batismo foi anunciado na capela. Fomos chamados à frente de todos, uma mulher muito da boazinha tomou meu filho caçula, que dormia, dos braços da minha esposa e o ritual começou. Óleo em cruz foi passado em nossas mãos, renegamos o apego ao pecado, reafirmamos a fé em Cristo. O padre abençoou a água que cairia sobre nossas cabeças, e quando aquela água caiu sobre minha nuca e escorreu quebrantada para a bacia, como pedacinhos de diamantes, como faíscas do sol, eu senti, realmente senti, que uma nova etapa havia começado, que algo havia acontecido.

Enquanto eu era batizado em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, um funk principiou a tocar baixinho, meio chiado, talvez fosse o toque do celular de alguém, talvez um mano estivesse caminhando ao comprido da capela, na rua, não sei. Sei que naquele momento minha missão ficou clara; meu lugar era mesmo na cultura combatendo essas coisas feias, de maneira que, se eu conseguir contribuir um pouquinho que seja para sanear o imaginário de alguns indivíduo, já estarei realizado.

Minha esposa foi em seguida, tímida que só ela, assustada qual Chinchila contrabandeada, não conseguia piscar e mantinha os olhos arregalados; recebeu a santa água batismal e pude ver a mais genuína felicidade clareando-lhe as feições, enchendo seus olhos do fogo da vida.

Depois irromperam os aplausos, palmas vigorosas, satisfeitas. Fiquei sem jeito e, voltando ao meu lugar, lancei aos fiéis apenas um rápido olhar, acompanhado por um brevíssimo cumprimento de cabeça, mas foi o suficiente para pescar umas duas dezenas de sorrisos. A felicidade era geral e verdadeira. Aquela Capela de Nossa Senhora da Penha e aquele povo tão acolhedor viverão para sempre em minha memória.

Aquele domingo, um dos dias mais importantes da minha existência, foi mesmo muito, muito abençoado.

*

Bragança Paulista, 2019

Imagem: Sérgio Souza/Pexels

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