O Deus Oceano

Passar uma noite inteira na praia até amanhecer é uma experiência encantadora, ainda mais se você está acompanhado de uma mulher bonita. Quando trabalhei como corretor imobiliário em Recife tive a oportunidade de assistir as sedas do sol lentamente se avolumando sobre o mar; ouvi os primeiros pássaros, vi as águas clarearem e, devagarinho, vi a areia branquear, sempre envolvido pela benévola brisa que me havia cofiado os cabelos curtos durante toda a noite.

Ao meu lado, dormia, cansada, minha colega de labuta, mulher muito bem feita cuja cara, ao sono, era de menina. Seus cabelos castanhos alourados passeavam desordenados por aquele relaxado semblante adormecido. Olhei seus pés descalços e dei por falta das sandálias, deviam estar ali perto… não, eu certamente cochilara de madrugada e algum espertinho havia colhido a recompensa sem maiores problemas. Quando ela acordou, ficou sentida por ter perdido as sandálias, todavia a tristeza que durou não foi a tristeza pelo calçado perdido, foi a tristeza por não ter conseguido me fazer ateu novamente.

Antes de termos ficado ao léu à beira das águas havíamos tido um dia de trabalho muito intenso. Passáramos a manhã inteira no escritório, inclusive aquela parte da manhã na qual a maioria das pessoas ainda está acordando, e a tarde inteira trabalhando numa ação externa de vendas em Casa Forte. O escritório ficava na zona sul da cidade, Casa Forte é um bairro da zona norte, e uma ação externa consiste basicamente na entrega de panfletos e na importunação de pessoas com o objetivo de que elas se interessem em comprar aquele maravilhoso empreendimento daquela construtora renomada ou daquela outra construtora não tão renomada assim; ou seja, à tarde, trabalhamos longe e andando o tempo todo.

Quando finalmente acabamos fomos todos a um bar, tomamos cerveja, cavoucamos uma tigela de aperitivos e atiramos palavras vãs a quem quisesse apanhá-las. Depois o grupo se separou e, como eu e Daniela, minha colega, éramos os únicos que precisariam de ônibus, fomos juntos ao ponto. Durante a caminhada, e enquanto esperávamos, percebi Daniela olhando pra mim estranhamente, do mesmo modo, aliás, que olhara no bar. Mas antes, certamente por causa dos outros, seu olhar interrogativo não era tão insistente.

O ônibus chegou, e lá dentro ela continuava com o rosto voltado para mim. Olhei-a nos olhos, enfim, demoradamente, e suas bochechas coraram um tantinho. Observando a nuca d’um sujeito diante de nós, ela me perguntou se eu tinha mesmo de ir pra casa. Não, não tinha. Podíamos ir a outro bar? Podíamos.

Descemos do ônibus e logo estávamos sentados em cadeiras dobráveis de madeira, numa calçada, com cerveja e petiscos diante de nós. A noite estava fresca, as pessoas ao redor conversavam alegres, os carros iam sem pressa e a música que tocava não era desagradável.

Quando começou a falar, Daniela foi direta, disse algo mais ou menos assim:

— Você não me convence. Esse seu jeito quieto, misterioso, eu acho que é tudo pose.

Eu, é claro, bebi mais cerveja. Ela continuou:

— Por que você é assim?
— Eu não sei ser de outro jeito. Foi pra isso que viemos aqui?
— Foi.

Bebi cerveja.

— Você não sorri, não demonstra alegria, isso me agonia.

Não consegui conter um sorriso, foi um sorriso genuíno, juro, mas a mulher jurou que era afetação zombeteira.

— Olha aí, pose! — bradou, se empertigando na cadeira.
— Não é pose! — redargüi rindo. Ela ficou impressionada por me ver rindo, deixou a boca entraberta, e seus olhos negros fixos nos meus demonstravam nítida confusão.
— Bebe aí, Dani.

Ela bebeu me observando profundamente. Não se deu por vencida e começou a elencar minhas supostas razões para manter aquela pose de sujeito quieto e misterioso, que não sorria e evitava confraternizações pós-expediente. Segundo ela, eu era arrogante, me achava melhor que todo o mundo, e era falso. Ela estava ali para me desmascarar.

Daniela estava errada, naturalmente, mas eu não me sentia inclinado a rebater informações tão peremptórias costuradas com uma voz carismática de adolescente perdida.

: — Acertei tudo, né? — reclinou-se na cadeira e pôs no rosto uma expressão tão triunfal que quase cuspo a cerveja numa risada.
— Não, errou tudo.
— Acertei tudo, eu sei que acertei tudo.
— Então tá bom, você acertou tudo.
— Sabia!

O que ela sabia, no fundo, é que tinha metido os pés pelas mãos. A expressão de triunfo não durou muito e o incômodo cresceu ainda mais dentro dela. Voltou a me olhar de soslaio, inquisitiva, quase fazendo biquinho.

: — Tudo bem. — Eu disse. — Estou acostumado que me leiam errado.
— E você não se importa?
— Não.
— Então toda essa pose aí não é pose?
— Não.

Dani calou-se por um instante e de repente, com as faces em brasa e os olhos cintilando, perguntou o que eu achava dela.
— Não vou responder.
— Diga, tem uma pulguinha aqui atrás da minha orelha me enchendo, eu quero saber.
— Mata essa pulga.
— Diga, pode dizer!

Fiquei mais sério e liguei no ar as seguintes palavras:

— Você é infeliz, terrivelmente infeliz, é uma pessoa muito triste que precisa esconder a realidade com esses infindáveis sorrisos que raramente deixam seu rosto. Não tenho como saber porquê você é triste, mas você é triste e odeia ser triste; seus olhos exprimem uma melancolia inconformada densa, funda, que nunca vi. Se seus olhos fossem lagos, todos os que neles nadassem se afogariam em desilusão.

Daniela disfarçou habilmente o leve marejo num dos lagos e foi logo dizendo que eu errei tudo, que não era correto julgar uma pessoa sem nunca ter sequer conversado direito com ela antes, coisas assim.

Conversamos mais um pouco e eu quis ir pra casa.

: — Por que não vamos à praia? O mar é muito bonito à noite.

Passamos numa loja de conveniência e compramos vinho, ela subitamente animada, dançarina, como se quisesse me convencer que toda aquela felicidade era o que alimentava suas veias. Saindo da loja me deparei com um antigo colega de faculdade que não se deu o menor trabalho para esconder a imensa surpresa de me encontrar todo perdido na noite acompanhado d’uma gostosa enlouquecida, até se inclinar pra trás o caboclo se inclinou.

Chegamos à praia devia ser pra mais de onze horas. A princípio não descemos, nos acomodamos aos pés d’uns coqueiros, conversamos sobre as mais diversas amenidades e sobre o trabalho. Tomamos o vinho e ela acabou confessando que não era realmente muito feliz, não tinha ninguém; viera de São Paulo tentar a sorte em Recife, havia largado incompleto um mestrado em Biologia Marinha e sentia-se estrangeira em minha cidade.

Quando o vinho acabou, Daniela me pediu colo. Eu deixei que ela se aconchegasse nos meus braços, e ali restamos, ouvindo o vento nas folhas das palmeiras, o marulho da água, a tímida vida noturna da Avenida Boa Viagem. Beijei o topo de sua cabeça e ela apertou meu braço com força, sorrindo. O tempo deixou de se importar conosco e o caminho argênteo sobre o negrume do pélago, trafegado por um barquinho, pareceu pintura.

Daniela beijou meu braço e pediu:

: — Não conta isso pra ninguém lá na empresa.
— Não conto.

Depois, descemos para mais perto do mar e nos pusemos inteiramente a contemplar aquela imensa massa de segredos inexplorados, verdadeiro mundo de mistérios, o maior dos cemitérios.

Notei no rosto da minha colega um bagunçado aflorar de emoções antagônicas, suaves, mas a custo seguradas, queriam flanar livres por aquela bela madrugada. Uma pergunta, enfim, escapou-lhe dos lábios róseos:

: — Você acredita em Deus?
— Sim.
— Mas Deus é uma bobagem!
— Então eu sou besta.
— Pare de acreditar!
— Eu já fiquei sem acreditar por quase sete anos. — Ela demonstrou grande surpresa.
— E voltou a acreditar por quê?
— Ele me provou que existe.
— Bobagem! Se você precisa acreditar num deus — Daniela esticou um dos braços diante de si, indicando as águas com a mão aberta — acredite no deus oceano! Olha como ele é magnífico e poderoso! Olha como ele nos transmite paz e nos torna humildes! Ele também oferece alegria e terror! E quem pode com o oceano? O oceano é invencível! Ele também está presente nos quatro cantos da Terra, e é bonito, olha como é bonito!

Eu fiquei absorvendo os marulhos que ressoavam com minha alma, sossegado, sem dizer nada. Perdi-me no oceano, e do resto dos louvores de Daniela ao seu deus só escutei ecos trêmulos, meio desgarrados do mundo.

Pus-me a pensar nos mistérios do mar, nas aventuras de seus exploradores, nos naufrágios de caravelas, nas ruínas submersas, nas espécies desaparecidas, nos abismos mais profundos… fui envolvido pela escuridão primordial dos oceanos e vislumbrei uma luz doce lá em cima, muito lá em cima, inquieta e majestosa, luz que parecia se derramar em sublimes declamações d’uma poesia essencial e inacessível; o espírito de Deus pairava sobre as águas.

Talvez eu tenha formado nos lábios um sorriso especialmente idiota, porque Daniela, subitamente animada, perguntou-me se eu havia deixado de crer em Deus. Respondi que não.

: — Mas como não? E tudo o que eu disse? O oceano é maravilhoso!
— E ainda assim é só uma parcela das maravilhas que Deus é capaz de proporcionar. — Furiosa com minha teimosia, ela bradou:
— Ai meu Deus!

Eu caí na risada. Vendo-a chateada, emendei:

— Não falemos mais nisso, Dani, você não vai me convencer que Deus não existe.

Ela permaneceu amuada por mais uns minutos antes de propor que cantássemos.

Pois cantamos, aquela noite foi uma das poucas ocasiões na vida que soltei a voz às alturas, e após este e outros divertimentos inocentes, já sentindo as pesadas mãos de Morfeu sobre nossa fronte, deitamos abraçados, ela diante de mim. Prometi que não dormiria, que zelaria por nossa segurança, todavia o som das ondas e da brisa nas folhas de palmeiras, o cansaço acumulado, os fios de cabelo dela que me acariciavam as faces, a presença daquele corpo saudável colado ao meu, o silêncio, todas as circunstâncias, enfim, contribuíram para que eu tirasse vários cochilos involuntários.

O tempo passou e a vida separou nossas sendas, mas até hoje, às vezes, quando vejo as águas salgadas, lembro-me do deus oceano tão caro à minha ex-colega e daquela inesquecível noitada.

*

Bragança Paulista, 2020

Imagem: александр-прокофьев/Pexels

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