Comentário sobre “Viagem ao Araguaia”, de Couto de Magalhães

Nas primeiras páginas da introdução, escrita anos depois do lançamento da obra original, aprendi mais sobre caça do que julgava possível num livro, excetuando-se aí, obviamente, os títulos específicos de caça.

Depois que li mais duas seções do livro fiquei convencido de que o Araguaia deve ser navegado, muito embora eu tenha percebido exagerados apelos retóricos por parte do Couto de Magalhães. Ele compara de maneira descabida, por exemplo, o rio ao oceano. Após isso, ele inicia a narração propriamente dita da viagem que fez por Goiás. O primeiro trajeto, da antiga cidade de Goiás ao povoado de Santa Rita, durou quase quatro dias, dias passados sem maiores incidentes, exceto por uma desorientação que deixou o autor e seu parceiro perdidos no mato até noite adentro. Couto de Magalhães descreve bem as terras por onde anda, tão bem que já lamento não ter maior conhecimento natural.

Couto de Magalhães continua sua viagem pelo mato, agora à Leopoldina, e eu realmente sinto falta de uma formação naturalista mais forte. São muitos nomes de bichos e minerais, e alguns de plantas, que não sei a que diabo correspondem; o autor encheu as páginas com eles – o livro é um registro de explorações, afinal –, então, por parte não pequena da leitura, fico perdido. Desta seção, guardei melhor as impressões da gruta parcialmente explorada, onde havia morcegos e quantidade absurda de abelhas, e do modo indígena de preparar peixe cozido: enrolar o animal em folhas, enterrar e acender, diretamente acima dele, a fogueira.

Couto de Magalhães, durante a narração de sua viagem, acaba trazendo ao leitor características de dois grupos de índios bem distintos: os Canoeiros e os Xavantes (junto com os Xavantes, ele também pincela os Carajás).

Os canoeiros possuíam ódio mortal ao povo civilizado. Devastavam o que podiam devastar e matavam os cidadãos sem dó; eram capazes de passar meses espionando um povoamento, apenas esperando o momento apropriado para o ataque. Dos seus cotovelos até a lateral de suas mãos, seguia uma espécie de casca calosa, do hábito que adquiriram de rastejar escondidos em busca de informações e oportunidades de ataque. Quando capturados por brasileiros ou portugueses, geralmente preferiam a morte. Os raros que se rendiam eram posteriormente caçados e eliminados pela própria tribo.

Os Canoeiros entendiam e até falavam o português. O relato que mais me chocou demonstra que pelo menos algum contato com o latim eles tiveram. A igreja de uma cidadezinha estava cheia de fiéis que ouviam a missa, e a partir de certo momento, todos passaram a escutar, logo após as exortações do padre, um coro entoando, de maneira cada vez mais forte e próxima, “Ora pro nobis”. Intrigados, alguns saíram e viram que centenas de índios cercavam a igreja.

Já os Xavantes eram mais amáveis, opostos aos canoeiros até no porte, pois eram altos e robustos, ao passo que aqueles eram baixos e sem atributos físicos notáveis à exceção da superfície áspera nos braços, já mencionada. Os índios da sociedade Xavante recebiam bem os civilizados e tinham um profundo senso de castidade. Os índios só podiam experimentar o sexo após o casamento – quem o fizesse antes, morria – e se por acaso alguém enviuvasse, devia voltar à castidade até novo casamento. Os símbolos daquela espécie de pureza eram pulseiras distintas.

O casamento era uma grande ocasião. Toda a tribo comparecia, e antes de casar o homem tinha de mostrar aptidão para sustentar e proteger sua mulher. Para isso, devia correr determinada distância com uma imensa tora de buriti, palmeira da região, presa às costas. Se caísse, a união era adiada.
Existem outros detalhes consuetudinários, como o fato dos velhos serem responsabilidade de toda a tribo, e as mulheres andarem nuas apenas da cintura para cima, enquanto os homens caminhavam completamente despidos, mas o que mais me chamou a atenção foi que, segundo Couto de Magalhães, os Xavantes não tinham qualquer noção própria de divindade, como é comum na esmagadora maioria dos povos pelo mundo – eu pensava que em todos.

Todavia não posso continuar escrevendo agora, o escritório ficou turbulento. Deixo somente o meu lamento por tanta matança de bicho naquela viagem. Talvez seja a minha sensibilidade moderna falando, mas eu realmente fiquei agoniado com tanta caça e pesca… nem mesmo ovos de tartarugas a comitiva poupava.

Terminei a leitura de “Viagem ao Araguaia”, e às observações anteriores não tenho muito a acrescentar. Fiquei com a impressão de que o Brasil é mesmo um país complicado, repleto de homens de pose e egos maiores que o mundo. Voltarei ao livro no futuro, talvez, só para consultar uma coisa ou outra, mas não esquecerei a jornada pelo meio do mato no centro do Brasil Imperial. Olho para a capa do livro e vejo mato.

Deixo registrado que Couto de Magalhães, na década de 60 do século XIX, se referiu ao Brasil unido a Portugal como “colônia”.

*

Bragança Paulista, 2017

Imagem: Jornal Opção

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