Novo Demônio no Inferno

Rios do fogo mais vivo explodiam quando se chocavam com as rochosas paredes montanhosas do submundo, e as almas lá dentro estrondavam o lamurioso ribombar das dores. Por todo o ambiente ressoavam gritos, pragas, prantos, ranger de dentes. Tudo se combinava numa eterna sinfonia da corrupção.

Era a música do Inferno.

Lá onde o rio se tornava mais caudaloso e espaçoso, um enorme demônio se sobressaía, um colosso dotado de trezentos chifres medonhos, alguns espigados, outros lascados, que desciam através de sua nuca e envolviam seu pescoço. Sua aparência esguia, algo reptiliana, se desvelava monstruosa no horizonte e o brilho de suas escamas sangrentas ofuscava o próprio fogo. Cercavam-lhe sombrias aves em chamas, de asas largas, garras mortais, muitas com duas, três cabeças ou mais, de bicos longuíssimos, dentados, largos ou não, e elas efetuavam vôos desordenados. Seus odiosos corvejos serviam como os acordes da ópera dos condenados. Eram centenas dessas aves, e as mais ágeis se atiravam à tormenta incandescente, ascendendo depois com um espírito infeliz a gemer-lhe nos dentes. A pobre alma era logo dilacerada pelo pássaro inclemente.

Urros bestiais de outros demônios, próximos e distantes, lânguidos e guturais, estremeciam fundações. Batalhavam entre si e amaldiçoavam as nações.

Às margens do rio de fogo, minúsculas criaturas corriam aos milhares, enxotando com tortos facões, de olhinhos malignos a espreitar das lâminas enferrujadas, os desesperados que tentavam escapar de tão ardente sina. Escarneciam dos mortos, debochavam com vigor visceral, como se só para isso existissem.

Quando encontravam forças para descarregar ao fogo algo mais articulado do que rasgos de sofrimento, as almas se expressavam majoritariamente de duas maneiras: pediam perdão a Deus ou juravam destruir a Criação. Os mais determinados dentro do segundo grupo freqüentemente eram escolhidos para se juntar às chusmas infernais.

Era por isso que o colossal monstro estava ali. Numa ilhota também marcavam presença diversos outros anjos caídos, e eles olhavam ansiosos, em obscena expectativa. Sabiam quem seria o escolhido da vez, e mal viam a hora de dar as boas vindas a tão violento companheiro.

Já de espírito totalmente negro, Sextus ia novamente passando por aquele trecho, carregado pelo insuportável calor penetrante, e ao ver Abadom e os outros, seus olhos se comprimiram em fúria abissal:

– Deixem-me sair! Sair! Eu luto, eu luto! Preciso sair! – A voz de Abadom reverberou pelos túneis, em resposta:
– Hoje é teu dia, Sextus! Nomeio-te servo de Azazel e Behemoth! – trovejou o som furibundo da corneta do elefante infernal. – Leve a destruição aos humanos! Destrua tudo o que for bom no mundo!
– Amém! – retrucou, no mais refinado deboche que o Inferno havia ouvido em muito tempo.

*

Recife, 2012

Imagem: Pixabay/Pexels

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