Sobre “Se”, poema de Rudyard Kipling

Rudyard Kipling escreveu “If” (1) com a intenção de orientar seu filho de doze anos a ser um homão da porra. O garoto morreu na Primeira Guerra poucos anos após o poema do pai, certamente mais homem do que muitos, e as admoestações poéticas de Rudyard, tão suaves quanto firmes, restaram como um belo farol capaz de iluminar a trilha de qualquer navegante perdido.

Eu li o poema original e a tradução ao Português de Guilherme de Almeida, e claro, algo se perdeu na tradução. Não tenho capacidade para avaliar se a essência do poema, isto é, o golpe que ele dá na alma mais sua mensagem geral, foi perturbada nessa versão em Português, todavia tenho a impressão de que existem diferenças significativas entre a versão traduzida e a versão original. Ilustrarei meu ponto com dois exemplos.

Guilherme de Almeida traduziu assim o quinto verso da primeira estrofe: “Se és capaz de esperar sem te desesperares”. No original, está assim: “If you can wait and not be tired by waiting”. Logo se vê que o cansaço pela espera não significa, necessariamente, um desespero, um abandono de esperanças, não significa necessariamente nem mesmo uma irritação ou o fim definitivo da paciência(2), afinal é possível cansar e apenas permanecer cansado. Kipling, aqui, é mais sutil, mas talvez Guilherme de Almeida entendesse não ter saída se quisesse cuidar da métrica do verso.

Um exemplo mais flagrante está no verso seguinte. Diz Kipling: “Or being lied about, don’t deal in lies,”. Guilherme traduz assim: “Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,”. Não mentir ao mentiroso que te enganou, em muitos casos, é ser trouxa e pode até ser perigoso; não é isso, acredito, que o poeta ensina. Kipling fala que, mesmo se você for enganado, não deve enganar os outros, não deve fazer acordos baseados em mentiras. O tradutor talvez tenha tentado forçar alguma figura de linguagem, eu realmente não o entendi.

Há problemas assim em todas as estrofes, a última delas, aliás, tem versos seriamente comprometidos, porém chega de explorar os defeitos desta versão em Português, Guilherme de Almeida certamente fez o melhor que pôde e eu não o teria superado na tradução.

“If”, se lido em voz alta, soa mesmo como as palavras d’um pai extremoso preocupado com o destino do filho. Kipling deita versos cheio de recomendações aparentemente moderadas, mas que, se olhadas a fundo, exigem de quem as tente seguir uma excepcional fibra de espírito, quando não uma radicalidade incandescente. Oras, não é nada fácil manter a cabeça no lugar quando tudo desmorona e existe uma turba ao redor jogando em você a culpa da situação calamitosa, é preciso se conhecer muito bem para lidar com uma questão dessas e continuar confiando em si mesmo quando ninguém mais confia; não é nada fácil não se cansar depois d’uma longa espera que se afigura vã; não é fácil se manter humilde após triunfos! E arriscar tudo o que já conquistamos, então, por mais nobre que seja o motivo, provavelmente é loucura para a maioria de nós. Transformar a vontade em fonte de energia quando não resta mais nada dentro de nós é complicado. Não permitir que amigos queridos machuquem você não é simples. Não adular os poderosos e não se corromper em meio à massa são posturas para poucos.

Kipling, basicamente, expõe a individualidade humana e desdobra seus versos em lições de responsabilidade, dignidade e caridade que, tomadas a fundo, têm o poder de transformar a vida de qualquer um.

Enfim, Rudyard Kipling abriu o coração de pai que tinha e orientou o filho com toda a cautela, tentando não deixar brechas para grandes quedas ou erros crassos.

Quem lê esses versos também de coração aberto se torna, no instante da leitura, filho do poeta.

1 – “Se”
2 – Os dicionários consultados foram: Dicio, Priberam, Aulete, Oxford, Cambridge e Michaelis Inglês-Português.

Segue abaixo o poema original:

If you can keep your head when all about you

Are losing theirs and blaming it on you,

If you can trust yourself when all men doubt you,

But make allowance for their doubting too;

If you can wait and not be tired by waiting,

Or being lied about, don’t deal in lies,

Or being hated, don’t give way to hating,

And yet don’t look too good, nor talk too wise:

If you can dream—and not make dreams your master;

If you can think—and not make thoughts your aim;

If you can meet with Triumph and Disaster

And treat those two impostors just the same;

If you can bear to hear the truth you’ve spoken

Twisted by knaves to make a trap for fools,

Or watch the things you gave your life to, broken,

And stoop and build ’em up with worn-out tools:

If you can make one heap of all your winnings

And risk it on one turn of pitch-and-toss,

And lose, and start again at your beginnings

And never breathe a word about your loss;

If you can force your heart and nerve and sinew

To serve your turn long after they are gone,

And so hold on when there is nothing in you

Except the Will which says to them: ‘Hold on!’

If you can talk with crowds and keep your virtue,

Or walk with Kings—nor lose the common touch,

If neither foes nor loving friends can hurt you,

If all men count with you, but none too much;

If you can fill the unforgiving minute

With sixty seconds’ worth of distance run,

Yours is the Earth and everything that’s in it,

And—which is more—you’ll be a Man, my son!

Tradução de Guilherme de Almeida:

Se és capaz de manter a tua calma quando

Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;

De crer em ti quando estão todos duvidando,

E para esses no entanto achar uma desculpa;

Se és capaz de esperar sem te desesperares,

Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,

Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,

E não parecer bom demais, nem pretensioso;

Se és capaz de pensar — sem que a isso só te atires,

De sonhar — sem fazer dos sonhos teus senhores.

Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires

Tratar da mesma forma a esses dois impostores;

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas

Em armadilhas as verdades que disseste,

E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,

E refazê-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar numa única parada

Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,

E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,

Resignado, tornar ao ponto de partida;

De forçar coração, nervos, músculos, tudo

A dar seja o que for que neles ainda existe,

E a persistir assim quando, exaustos, contudo,

Resta a vontade em ti que ainda ordena: “Persiste!”;

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes

E, entre reis, não perder a naturalidade,

E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,

Se a todos podes ser de alguma utilidade,

E se és capaz de dar, segundo por segundo,

Ao minuto fatal todo o valor e brilho,

Tua é a terra com tudo o que existe no mundo

E o que mais — tu serás um homem, ó meu filho!

*

Bragança Paulista, 2020

Imagem: Retrato de Rudyard Kipling feito por Sir Philip Burne-Jones

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