Fulana

Fulana é funcionária de um restaurante popular que freqüentei durante meses. Quando penso nela o que me vem à cabeça é sua figura anuviada, mas sempre simpática, fechando marmitas e anotando os valores dos almoços em papeizinhos.

Qualquer um que a olhasse com atenção e sensibilidade, isto é, que a olhasse demorada e insistentemente, aberto à captação de incontáveis sinais não verbais contidos em nuances expressivas, gestos corporais, cores vocais, etc, percebia acertadamente que a vida dela não ia bem, que as coisas aconteciam ao seu redor de modo muito diverso não só do que ela queria, mas do que ela considerava aceitável.

Eu vi essa infelicidade assim que bati os olhos nela há mais ou menos 7 anos. Hoje, chamando sua figura no salão da memória após saber das tristezas de sua vida, vejo ainda mais.

Vejo que ela foi dessas moças que não levaram a vida a sério, dessas moças boas, porém superficiais e sem senso de urgência ou prioridade, que depois de adultas se vêem largadas sem preparo no mundo real e a cada nova frustração mais se apegam, entre nostálgicas e entristecidas, ao mundo juvenil que carregam em si, espécie de união entre lembranças e ilusões romantizadas da época que vai da adolescência aos primeiros anos da vida adulta.

Algo que certamente contribuiu para que Fulana tomasse o caminho que tomou e que faz a situação em que ela está não ser totalmente culpa dela foi, provavelmente, o moralismo nocivo de seus familiares mais próximos. Entendo por moralismo nocivo aquela cagação de regra invasiva, nada caridosa, sem sentido, e portanto extremamente irritante e corruptora; corruptora, pois a vítima dos ataques de tais corações empedernidos, por repulsa aos hipócritas insensíveis, faz de tudo para ser tão diferente deles quanto possível, e nesta ânsia acaba tomando as qualidades de seus acusadores também por defeitos, de maneira que a descida aos precários porões da frustração se torna inevitável.

Todavia, não é o fim. Fulana ainda está viva e bem de saúde, a tristeza não precisa ser eterna, erros podem ser corrigidos e acertos valorizados. Há esperança, muita esperança.

Força, Fulana!

*

Bragança Paulista, 2018

Imagem: Pexels

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