O Crichtul

Caso vocês não me conheçam, meu nome é Gimbold Tarim. Há muitos e muitos anos saí de casa na minha jornada rumo ao adultismo. Na minha família, para mostrar que são adultos, os gnomos têm que viajar por aí e retornar apresentando a todos a surrada capa de viagem, prova de que passou por situações perigosas ou de que pelo menos andou bastante.

A minha capa eu perdi, mas isso é outra história. Pelo menos me consolo em saber que a perdi de maneira heróica, fazendo o que eu achava certo.

Na minha juventude, há mais de cento e quarenta anos, eu era um pitéu garboso. Gimbold Garboso, era como as damas de todas as raças me chamavam; bastava meu sorriso para que meu charme irresistível fluísse às paragens. Eu era alto para um gnomo, tinha vastos cabelos pretos que teimavam em cair por todos os lados… por todos os lados mesmo, as mechas se deitavam por minha testa, cobriam minhas orelhas e ainda se derramavam pelas costas de meu pescoço, sempre cheias, rebeldes ao menor sinal de vento. Juro que um passarinho, se quisesse, poderia se esconder entre aqueles fios grossos.

Meus olhos eram curiosos e vivazes, de um verde folha de salgueiro no início da primavera mais frondosa. Nada passava despercebido por esses incansáveis vigilantes. Meu nariz tinha porte: grosso, adunco, e levemente encovado no meio da face, com respiradores discretos, e meu rosto era ossudo, com um pouco de carne nas bochechas; meu semblante era desconfiado. De meus longos lábios finos saíam as águas da sabedoria. Assim eu pensava, pelo menos. Não faz mal, hoje elas saem de lá, tenho certeza.

Foi com essa aparência agraciada, usando minha capa de viagem da cor da terra, sapatinhos finos, mas de tecido resistente, uma bolsa que continha frascos, ervas, alimentos básicos, um mapa amarrotado, algumas pedras de ouro, armado apenas com uma espada curta e com presença de espírito que cheguei a Barhim.

Sempre amei viajar, e quando chegou a minha hora de virar adulto, exultei como a criança que eu era. Fui a alguns lugares meio a esmo, contudo quando cheguei ao vale do Anghail nas Montanhas Prateadas, me encantei.

Sabia que o lugar era um dos cinco maiores redutos anões em Orundia, e sempre alimentei simpatia pelos barbudos troncudos. Do alto de uma encosta, lembro-me de ter visto o brilhante rio Anghail seguindo seu curso pelo vale gigantesco, ladeado por cadeias de montanhas cujos cimos pois desapareciam entre as nuvens daquela tarde nublada.

Encarapitadas em encostas, espalhadas por ravinas e dispostas ao longo do rio, vilas e cidades humanas, algumas ligadas entre si por robustas pontes de madeira que cruzavam compridos desfiladeiros, seguiam suas rotinas. Embarcações de duas velas singravam as águas tranqüilas do rio, e barquinhos de pesca tripulados por um ou dois pescadores repousavam sobre o espelho prateado.

Algumas das vilas que eu podia ver pelas montanhas eram simples, mas existiam cidades de respeito por ali, especialmente nas partes mais planas ao longo do curso fluvial. O porto de uma delas era grande e abrigava quatro naus.

Nas partes mais baixas o verde e a vida eram abundante, arbustos, árvores, tufos de mato, grama, pequenos animais, aves, tudo muito lindo. A vida exuberante acontecia até certa altura, os desfiladeiros, ravinas e cidades mais altas também esbanjavam natureza. Mesmo quando árvores e roedores começavam a escassear, a majestade daquelas montanhas encantava. Nunca havia visto nada tão alto e forte na minha vida, e eu já havia passado por um lugar ou outro antes de chegar ali, incluindo um ninho de grifos. Mas isso é outra história.

As Montanhas Prateadas possuíam colossais blocos de pedra que, sozinhos, já eram maiores do que muitos montes. Eu nem estava me importando com o vento espalhando meus grossos fios desordenadamente, e embora piscasse quando alguma mecha mais rebelde acertava-me os olhos, estava maravilhado com tudo aquilo. O que mais me impressionava era saber que, dentro daquelas montanhas, embaixo daquelas terras, existiam os anões, suas cidades, suas minas.

Era incrível.

Eu tinha ouvido histórias sobre o Reino da Prata, e ter estado lá foi uma experiência gratificante. Tive problemas a princípio tentando achar a entrada para alguma cidade anã, mas um solícito rapaz que andava pelo vale e se sentiu atraído por minha exótica figura contou-me que Barhim não ficava longe dali. Disse-me para procurar uma caverna que abria para o norte na Montanha do Crichtul. A cidade anã era a única na rocha inteira, tinha estradas que, a partir da base da montanha, levavam até ela de modo seguro.

Feliz e saltitante, agradeci o mancebo e parti para me informar onde ficava a montanha. Quando descobri, acampei não longe dela e no início do dia seguinte comecei a seguir uma das estradas. Na verdade, essas estradas eram infindáveis escadarias já há muito desgastadas, com trechos enterrados no solo.

Arrependo-me porém de não ter perguntado mais cedo o que ou quem era um Crichtul. Não me culpo. Quem, quando está viajando, ao saber o nome de um lugar onde deseja chegar, elabora um questionário a respeito daquele nome ou despeja torrentes de pensamentos sobre seu significado?

Subi aqueles caminhos antigos, me afastando da parte verdejante da encosta, e na manhã do segundo dia de escalada, já sem água, fôlego ou paciência, atingi uma ampla seção mais plana onde se via a entrada de uma alta caverna, emoldurada por rústicos blocos de rocha mais ou menos lapidados por braços fortes e talvez embriagados.

No topo da moldura, lia-se, em duas línguas, “Minas de Barhim”. Olhei para a vastidão do vale atrás de mim e entrei, só que lá dentro não havia cidade ou mina. Andei por longo tempo através de um infindável corredor rochoso e úmido até chegar numa espécie de abertura imensa que continha uma larga escadaria, essa bem cuidada, e mostrava-me a curiosa vila mineradora de Barhim.

Trilhos de caçambas cruzavam todo o lugar, e no paredão distante diante de mim um arco imponente dava passagem, sem dúvidas, às minas propriamente ditas. Lá embaixo, entre mim e o arco, Barhim tomava quatro níveis de altura, com trilhas, rampas e maciças pontes de pedra. impecavelmente esculpidas e enfeitadas com motivos mineiros, como trilhas, caçambas, pilhas de metais, estátuas de anões mineradores e, em uma delas, que ligava uma parte populosa do lugarejo a outra caverna, a estátua do Patriarca anão da ferraria.

Nela, o Patriarca sorria por entre seu emaranhado de barbas e tinha as duas mãos na cintura. Curioso esse Patriarca.

Bom, os anões caminhavam pelo lugar, conduziam materiais, entravam e saíam de suas casas, que eram pequenos redutos de pedra, muitas vezes escavados na própria montanha. A ferraria e a taverna eram enormes, possuíam feições angulares perfeitas em pedra polida e tinham dois andares. Na taverna, aliás, vi canecas de cerveja quase do tamanho de minha neta. Estava prestes a considerar que os anões bebiam de maneira diferente, mais comunitária, quando percebi que aquele lago de cevada pertencia a apenas um deles. Enfim, o armazém local se estendia por três dos quatro níveis da vila e abraçava duas pontes, por onde podia-se também entrar nele.

Barhim, como, presumo, qualquer cidade ou vila anã, era lotada de tochas nos mais diferentes e estratégicos lugares, mas o fogo que brilhava ali era azulado e não parecia quente.

Os anões conversavam com animação exacerbada, às vezes com raiva, sempre exaltados de alguma maneira. Cumprimentavam-se com fortes golpes nos ombros, costas ou cabeças, às vezes se davam abraços mortais. Eu morreria.

Passei a observar os sólidos pilares retos que se erguiam entre as pontes e de cada lado do arco que levava às minas; cada bloco deles possuía fragmentos de um desenho que, completo, resultava numa criatura estranha que eu nunca vira antes. As outras partes de Barhim certamente tinham mais pilares daqueles, e pensei que se eu reproduzisse todos os desenhos poderia montar o quebra-cabeças.

Enquanto meus olhos se perdiam naquilo tudo e a curiosidade de ver o resto da cidade crescia, certamente suas galerias e túneis resultavam em mais salões subterrâneos tão ricos quanto aquele que eu estava vendo, ou até mais, um de seus habitantes subiu a escada em minha direção, com os olhos apertados (deviam estar muito apertados, pois eu não os enxergava), a testa franzida, a barba desgrenhada e o punho firmemente fechado em volta do cabo do machado.

O anão que parou em minha frente era enorme. Parrudo, a barriga se projetava numa pequena saliência, empurrava o cinto de couro com gravuras em pedra. Não era hora entretanto de eu prestar atenção no que ele estava vestindo, por isso me foquei em seu rosto rechonchudo, e juro que fiz esforço para localizar os olhos naquele labirinto de negras linhas faciais, sujo de terra em muitas partes. Devia ter acabado de sair das minas, lembro-me de ter cogitado isso.

Eu me sentia indefeso perto de tão musculosa criatura, mas permaneci firme, com os pés fincados no chão e com o impulso de correr como uma galinha assustada controlado. Além disso, eu estava sedento, faminto, cansado.

Decidi falar primeiro, lembro que disse algo assim:

– Oi. Eu sou um gnomo. – Pelos deuses, a minha voz saiu mais cansada do que eu supusera.

– O que faz aqui, gnomo? – agora me digam, por que ele tinha que perguntar isso enquanto batia com a lateral da lâmina na palma da mão? Claro que não consegui responder, produzi guinchos miúdos terríveis e logo fiquei quieto.

– Não gostamos de visitantes em Barhim. – Prosseguiu o anão, agora mexendo no fio do machado. O que eu ia dizer? Eu era um visitante, ele não gostava de mim, dedução simples: eu ia morrer.

– Torno a perguntar: o que faz aqui? – A lateral da lâmina voltou a estalar na palma daquela mão cheia de calos.

– Senhor… este machado está me deixando nervoso. – Falei, num fiapo de voz saído sem a menor sombra de dignidade. O anão olhou para a arma, e dela para mim. Que viesse, eu me defenderia como pudesse, ele veria quem era Gimbold Tarim!

– Desculpe. – Prendeu o machado ao cinto.

Minhas pernas amoleceram, mas não caí. O que importa é que era urgente achar um banheiro.

– O que faz aqui, gnomo? – Inquiriu novamente. Sua paciência era admirável.

– Nada, estou em peregrinação, adultismo, viajar, viajando, tenho que adulto, então, eu nada, estou nada.

– É raro termos gnomos por aqui, a última vez foi há mais de cinqüenta anos. Venha, Gwarvaim vai querer conhecê-lo, ele é amigo dos gnomos. – Disse, ignorando minha claríssima explicação sobre meus propósitos e impelindo-me com sua mãozorra sobre meu trêmulo ombrinho.

Andamos juntos até uma das pontes, atravessamo-la e cruzamos um curto túnel que deu para outra área ampla do local. No caminho o meu guia cumprimentou outros anões e apresentou-me como o “gnomo medroso”. Alguns anões se compadeciam e diziam para eu não me preocupar, não me fariam nenhum mal. Outros tiravam de repente suas armas, fingindo que iam me atacar. Toda vez eu gritava.

Finda essa breve provação, encontrei-me diante de Gwarvaim das pernas tortas, mestre das minas de Barhim havia mais de oito décadas. Gostei dele. Sua barba loura, seus olhos claros, suas faces avermelhadas, seus modos amigáveis, era um bom anão, soube disso assim que o vi.

Ele estava usando roupas surradas de mineiro, botas grossas e anéis de prata. Sua barba não era tão longa, acabava antes do peitoral, mas tinha uma densidade anormal. Seus cabelos também eram mais curtos.

Naquele momento lembro de um questionamento que me ocorreu. Por que os anões, especialmente em uma cidade mineira, geralmente usavam barbas e cabelos tão longos? A terra e pedrinhas enganchadas não os incomodava? Não seriam comuns acidentes acontecerem por causa de pelos presos em algum lugar, vamos supor, roda das caçambas por exemplo? E quando comiam ou bebiam, não seria desagradável aqueles minúsculos nacos de carne e pão perdidos por seus fios emaranhados empapados pela cerveja escorrida?

Eu devia estar fazendo uma expressão incomum enquanto fitava uma pedra, pois Gwarvaim me perguntou o que havia de errado. Estávamos andando por Barhim em direção a uma taverna, o imenso prédio reto de dois pisos estava perto, uma sacada contornava todo o primeiro andar. Esta taverna não era maior do que a que eu tinha visto no primeiro salão, mas chamava mais atenção.

Respondi ao bondoso anão:

– Barbas. Penso nas suas barbas.

– O que tem nossas barbas? – Perguntou Hilgrd, o anão que me descobrira nas escadas; ele nos acompanhava.

– São incríveis! – Respondi.

– Pode acreditar que são. – Falou Hilgrd, com orgulho, cofiando o seu tesouro. Pensei que os anões talvez não tivessem também participado de muitas guerras, pois com tanto lugar pra ser puxado pelos inimigos, dificilmente venceriam alguma coisa.

Naquele instante veio-me à mente a imagem de uma batalha onde os adversários dos anões usavam flechas com fogo nas pontas ou tochas, e vi vários anões correndo desesperados com barbas e cabelos a queimar. Caí na risada e parei quando Gwarvaim e Hilgrd olharam confusos para mim, todavia foi difícil parar, tanto que até estou sorrindo agora.

: – O que acha engraçado, gnomo? – Hilgrd perguntou.

– Suas ba… barrigas, suas barrigas. – Foi a primeira coisa que saiu, lamentável.

– O que tem nossas barrigas? – Gwarvaim olhava-me curioso, já a curiosidade de Hilgrd residia em sua barriga, ela a olhava e passava-lhe a mão, pensativo.

– As barrigas… elas são bem maiores que a minha… então pensei se eu agüentaria viver com uma dieta anã, em seguida me imaginei do tamanho que sou com uma barriga anã. – Isso dito, fiz uma prece silenciosa para Lor, que me atendeu, pois o mestre das minas gargalhou com gosto, dando-me um tapa de mão cheia nas costas que me jogou ao chão.

– Você é engraçado, gnomo! Bem vindo a Barhim! Hilgrd, leve-o para uma cerveja, apresente-o ao pessoal, tenho uns assuntos a tratar.

– Sim, senhor.

– Obrigado. – Disse eu, tossindo e levantando.

Notei que os pilares dali continham mais fragmentos da estranha criatura também desenhada nos pilares do salão anterior. Antes de entrar na taverna, perguntei a Hilgrd o que seria aquilo, e ele respondeu que não era seguro visitantes saberem.

Pelas partes que vi, não era nada que eu tivesse conhecimento. O corpo parecia ser grande e rotundo, mas tinha patas longas e estranhas, ou assim me pareceu, pois comecei a tentar montar a figura na cabeça. Vi uma pinça também, revestida de calombos que pareciam duros. Talvez tenha visto uma fileira de olhos fechados.

Pensando nisso, tomei o meu lugar na taverna para só então notar que o local só tinha uma mesa, a maior mesa que eu já vira na vida; era de pedra e madeira, começava do balcão e serpenteava por toda a sala, seguida por assentos esculpidos provavelmente da própria montanha. Em cima da mesa, barris de cerveja, carne, pão e moedas sendo jogadas para lá e para cá. Além disso, um anão dançava perto da escada, embalado alegremente pela vigorosa cantoria dos companheiros, que uniam pesadas batidas no tampo, com as mãos ou armas e no chão, usando os pés, às as vozes carregadas de bruta melodia.

Em um espaço quase redondo deixado entre as curvas da mesa dois anões lutavam sem camisa e desarmados, assistidos por uma pequena turba violenta que insistia em encorajar a pancadaria e jogava moedas em dois baldes postos lado a lado, cada um contendo uma etiqueta de madeira com o nome de um dos brigões.

O barulho que vinha do primeiro andar não era menor, mas o que eu estranhei foi o predomínio de urros e berros masculinos. Desde que eu chegara a Barhim não havia visto uma única mulher. Ia perguntar o motivo da ausência feminina quando Hilgrd pousou sua delicada mão sobre meus cabelos, empurrando meu crânio contra meu pescoço. Odiei aquilo, minha raça já era pequena, eu não precisava de ajuda para ficar menor.

O anão estava me apresentando para alguém próximo:

– Este é Gimbold Tarim, veio conhecer nossa Barhim!

– Pois então beba, gnomo, beba até chegar o fim! – encorajou-me o outro anão, de barbas castanhas e olhar alucinado, fustigando com uma daquelas imensas canecas de cerveja a parte do tampo à minha frente. Fiquei incrédulo ao constatar que o recipiente era mesmo do tamanho de Cicília, minha neta.

– Mas como vou beber tudo isso? Eu não agüento! – tive que forçar minha voz para ser ouvido em meio àquela algazarra generalizada. Uma vibração explodiu do grupo que assistia à luta, um anão havia montado no outro e o socava impiedosamente. O lutador caído defendia-se com seus braços musculosos, quem sabe esperando uma brecha para um contra-ataque que poderia mudar a situação.

– Isso é cerveja de verdade! – continuou o anão de olhos alucinados, percebendo minha relutância. – O sabor fará você beber até o final!

– Eu nem consigo levantar a caneca!

– Isso não é problema aqui! – ele foi rápido, o infeliz. Com uma mão levantou a caneca, com a outra, me segurou, forçando a borda do recipiente contra a minha boca, que se abriu com a pressão. Engasguei, mas ele não parou, a cerveja escorreu pela minha roupa e pingou nos meus sapatos, quis falar, mas só conseguia fazer um ruído sofrido, que aliás, foi interpretado desse modo:

– Uma delícia, hã? Maravilha, vamos cantar à boa bebida! – exultou.

A cerveja era mesmo gostosa, entretanto eu não conseguia respirar.

– Não, seu bêbado imprestável! Ele não vai agüentar desse jeito! – Ouvi e vi quando um outro anão, que eu ainda não conhecia, empurrou aquele que me forçava a bebida e tirou de mim o caneco, graças a Lor.

– Desculpe os modos de Barbanim, ele perde o juízo quando bebe, mas merece beber, é o nosso melhor mineiro, trabalha como ninguém.

– Trabalho como ninguém! – Concordou Barbanim, já de pé e sorvendo o maior gole do mundo. Perto dali, os anões continuavam brigando e cantando.

– O pequeno chegou aqui agora mesmo. – Informou Hilgrd, comendo e bebendo de maneira mais civilizada.

– Não está acostumado com tavernas, está, pequeno? – Perguntou meu anão salvador, um tipo mais delgado do que os demais, de ombreira metálica e barba castanha clara. Seus dentes eram grandes e brilhantes. Eu balancei a cabeça negativamente, tonto, se fosse falar algo certamente vomitaria, e eu não queria vomitar num anão.

– Então vamos, vamos sair daqui.

– Não o leve para longe, é convidado de mestre Gwarvaim. – Advertiu Hilgrd.

– Não se preocupe.

– Apareça para beber mais, gnomo! – Convidou-me Barbanim.

Fiquei feliz de sair dali, pois tão logo eu desocupei o lugar um dos anões da roda de briga caiu por cima da mesa, derrubando Hilgrd e Barbanim, portanto iniciando outra confusão generalizada que descambou numa briga maior ainda. Agradeci aos deuses quando deixei a taverna, eu teria pelo menos ficado aleijado ali dentro.

O prestativo anão que dali me tirou, enquanto me conduzia entre penedos marcados por cortes de lâminas e simpáticas residências anãs, falou bastante. Chamava-se Falforjes. Eu achei o nome feio, porém nada disse, ainda me recobrava do enjôo e recuperava a força nas pernas. Fiquei surpreso quando chegamos à casa de Gwarvaim, uma estrutura circular feita de rochas e vigas de madeira.

O lar do mestre das minas ficava em uma pedra elevada, era necessário subir alguns lances de escada para alcançar sua porta. Gwarvaim nos recebeu bem, e descobri que o jovem anão que havia me salvado era seu filho único, seu orgulho, seu maior legado, bravo, heróico, indomável, sábio e outros trezentos adjetivos.

Sentado à mesa com eles, já mais tranqüilo, bebendo chá após ter falado longamente de mim e de minha família, tomei a liberdade de perguntar por que não existiam mulheres ali. Pai e filho se entreolharam brevemente, e o mais velho respondeu:

– O trabalho nas minas é perigoso, preferimos nossas damas em segurança, produzindo cerveja. – Ignorei a tontura que a última palavra dele me causou e persisti:

– Mas elas não precisam trabalhar nas minas aqui, vocês têm armazéns, tavernas… não, em taverna não daria certo… só que existem ferrarias; além disso, vocês precisam de tecidos… – eles me deixaram falar, foram civilizadíssimos. O filho tomou a palavra para a tréplica:

– Não é tão simples quanto parece, Gimbold Tarim de Lorieth. Entenda que nossas mulheres estão mais seguras em outras cidades.

– Por quê? – devo ter arregalado os olhos e ter soado excessivamente incisivo, pois Gwarvaim saiu-se com esta:

– Há, há, como é curioso este pequeno! Um viva aos gnomos!

– Um viva aos gnomos! – Repetiu seu filho.

Eles escondiam alguma coisa, era óbvio, e tinha a ver com a criatura fragmentada pelos suportes da cidade. Eu não queria ultrapassar nenhum limite, mas minha língua não se importava com o que eu pensava:

– O senhor Hilgrd me disse que visitantes não devem saber sobre a criatura desenhada nos pilares da cidade. – Disse ela, minha língua irrefreável. Essa maldita quase me mataria muitas vezes na vida, espere e verá.

– Hilgrd está certo, pequeno gnomo. – Concordou o mestre das minas. – Barhim não costuma receber visitantes. O último antes de você veio há quatro anos. – Prosseguiu, com aquela voz rouca que tinha. – Eu, no entanto, gosto de gnomos. Eles entendem a terra e seus segredos, não como nós, mas de um modo curioso.

– Quanto tempo pretende ficar aqui, Gimbold? – questionou o filho, sem me dar tempo de esboçar reação às palavras do pai.

– Ainda não sei. Este lugar me intriga, mas não quero nem vou ser invasivo.

– Aprecio muito isso! – berrou de repente Gwarvaim, feliz, dando um murro na mesa que me fez saltar sentado.

A força do mestre das minas devia ser descomunal, pois imediatamente após a pancada na mesa o chão e as paredes começaram a tremer.

Uma sequência de estrondos ensurdecedores foi ouvida pelas galerias, então entendi que Gwarvaim não tinha provocado aquilo, pois ele saiu correndo, se equilibrando como podia em suas pernas tortas, para fora da casa, seguido por Falforjes, que disse-me para ficar. Eu não fiquei, claro, segui correndo atrás dos dois, estranhando ainda o caimento da camisa que me haviam dado: a menor roupa da casa parecia uma túnica para mim.

Caí quando cheguei lá fora, os estrondos continuavam, vorazes, altíssimos, e o tremor atingiu seu ápice, muitos anões caíram ou tiveram que se apoiar em pilares ou paredes. Todos vimos, aterrorizados, rachaduras aparecerem nas pontes, estruturas e pilares; archotes caíam ainda queimando no chão, que a cada segundo parecia estar numa altura diferente.

Não me levantei até a sucessão catastrófica de tremores e estrondos passar, estava assustado, muito assustado. Quando tudo parou, Barhim estava mais escura, tanto pela ausência de várias tochas quanto por causa da nuvem de pó que envolveu o lugar. Inseguro, pus-me de pé e consegui reconhecer Hilgrd no meio de outros anões.

Cheguei-me a ele, andando devagar para caso o chão voltasse a tremer, e perguntei, com voz fina:

– Isso é normal? – ele me olhou rapidamente.

– Foi uma péssima hora para você visitar, gnomo.

– Então não é normal? – continuei, borrado de pavor.

– Não. Este foi o mais forte dos últimos cento e vinte anos.

Em meio ao silêncio, um grupo de anões vindo do outro lado da cidade, através do túnel, bradava a todos que tanto a entrada para as minas quanto a saída sul de Barhim estavam bloqueadas pelas rochas. Estávamos presos.

Baixei os olhos para o solo e lembrei de minha bem amada família.

Estranhamente, a notícia não causou o pesar que eu esperava nos anões. Eles ficaram mais pensativos do que desolados. Ouvi de súbito a voz rouca de Gwarvaim, ele havi subido em cima de uma casinha e falava enquanto mais anões do outro lado da cidade chegavam.

– Peguem suas ferramentas e armas, vamos desobstruir primeiro as minas, temos de saber se nossos estimados amigos estão bem!

– Mestre Gwarvaim! – Começou outro anão, de robusta compleição, rosto inflado, do meio da multidão. – Não podemos tirar aquelas rochas em pouco tempo, são muitas e são enormes! Talvez seja melhor desobstruirmos a saída sul a fim de conseguirmos ajuda de nossos irmãos!

– Quero ver! – Falou o mestre das minas, pulando para o chão.

Todos o seguiram, inclusive eu, para o grande salão inicial de Barhim, onde havia a grande taverna, o armazém de vários pisos, a estátua do Patriarca, a escadaria de entrada, e também pontes e pilares, além do enorme arco que servia de entrada para as minas.

Mas o arco desaparecera. Diante dele encontramos um amontoado de penedos avantajados. Por mais que os anões tivessem habilidades com escavação, presumi que tirar aquilo dali levaria laboriosos dias.

Gwarvaim praguejou alguma coisa, e em seguida:

– Examinem aquilo para ver se não há uma parte mais fraca!

Alguns anões trataram de subir lepidamente no gigante entulho rochoso,e após demorado exame, um deles gritou:

– Mestre, não dá, não conseguiremos abrir caminho em menos de dois dias!

O engraçado é que ele falou com pesar que o povo dali não conseguiria abrir caminho em menos de dois dias. Dois dias! Trezentos de mim levariam trezentos dias!

Outro anão, de um ponto mais alto, disse:

– Parece haver uma falha aqui! Está tão sólida quanto todo o resto, mas talvez uma de nossas crianças menos robustas logre êxito na travessia, pelo menos para se certificar de que os mineiros estão bem e levar-lhes provimentos enquanto trabalhamos na abertura.

– Não temos crianças aqui! – Disse alguém da multidão.

– E se tivéssemos, não arriscaríamos nossas crianças! – Bradou Falforjes.

– Eu vou! – Língua maldita, quantas vontades não tive de cortá-la de minha boca e jogá-la aos cães do Fosso?

O povo de Barhim olhou ao redor, me procurando, afinal a minha voz diferia muito do vozeirão bruto típico do anão comum, e eu esbanjava medo na fala, coisa rara entre eles também. Gwarvaim, Hilgrd, Falforjes e Barbanim, este último com uma caneca de cerveja, ao reconhecerem minha voz, vieram até mim, ladeados por curiosos.

Eu estava ciente de que não poderia dizer que mudara de idéia, que o clamor tinha sido um capricho de meu ser diminuto, ávido por morte e mutilação.

– Não podemos deixá-lo ir. – Disse Hilgrd. Eu não contestei, agradeci-o internamente.

– Seria perigosíssimo, de fato. – Emendou Falforjes.

– Mas o pequeno demonstrou coragem e vontade de ajudar! – berrou o bêbado, tomando um demorado gole em seguida, a cerveja escorria-lhe pela barba. Ninguém escutaria a um bêbado, então permaneci relaxado. Todavia… por que seria perigosíssimo? Não creio que tal adjetivo tivesse sido dado apenas por causa do risco de novos desabamentos.

– Gimbold Tarim, és um gnomo valoroso e te agradeço por oferecer ajuda. – Falou o mestre das minas. “Obrigado, senhor, agora complete o que quer dizer, deixando claro que não pode permitir que eu vá. Eu, compreensivo, entenderei e não mais me meterei em seus assuntos.”

– Esta provação pode ser bastante significativa em sua jornada rumo ao adultismo. – “Como assim, o que se passa por essa cabeça imensa, meu caro Gwarvaim?” Foi o que pensei. Olhei-o com conturbada expectativa, ai de mim!

– Quer mesmo nos ajudar? – perguntou.

– É perigoso! – Contestou alguém.

– É só um gnomo!

– Não subestime os gnomos!

A turba continuou com seus issos e aquilos, e eu me ouvi dizer:

– Quero, vejo-me na obrigação de ajudá-los, sou o único que passa por ali, não me detenha, nobre Gwarvaim. – “Não me detenha? NÃO ME DETENHA?!” Engoli em seco e olhei para o chão, fúnebre. Ouvi quando Hilgrd respirou pesadamente e falou:

– Eu me encarrego de explicar tudo a ele, mestre Gwarvaim.

– Por favor. – Disse o pernas tortas.

– Qual sua especialidade, Gimbold? – inquiriu Falforjes, e de súbito todos pareceram interessados.

– Não cozinho muito bem. – Falei, sem entender. Alguns anões riram e Falforjes me explicou:

– Os gnomos são seres conhecidos por suas aptidões mágicas especializadas. Uns são excelentes ilusionistas, outros são grandes conjuradores, outros são fantásticos curandeiros, alguns são defensores… em que você é bom?

– Ah… Mágica Elemental. – Silêncio. Tudo bem, eu sabia que gnomos elementais eram raros.

– Seu foco é? – Falforjes fora atingido pela curiosidade.

– Não tenho exatamente um foco…

– Você tem facilidade com todos os elementos? – Sua voz traiu um nota de assombro, talvez também pescada dos espíritos em volta.

Abri a mão direita e coloquei a palma para cima. Uma chama dançou, apagada por uma delicada corrente de ar, que virou água e caiu; antes de tocar a palma de minha mão, porém, transformou-se num cubo de gelo, que logo metamorfoseou-se numa pedra, que se desfez em areia. A areia escorreu pelos dedos em pequenas cataratas feitas de grãos de luz.

Gwarvaim, Hilgrd e Falforjes me seqüestraram, por assim dizer. Ambos concordaram com Hilgrd, que ainda insistia no elevado perigo da empreitada, mas já haviam decidido, com a aprovação do povo, que eu ajudaria.

Na casa do mestre das minas, me inteiraram dos detalhes. Nas profundezas da montanha vivia um mal muito antigo, um monstro, encerrado há várias gerações.

Era o Crichtul.

O tremor podia também ter posto abaixo as paredes que o prendiam, então eu deveria proceder com excessiva cautela. Hilgrd me disse para não sair dos trilhos e para não me apavorar caso visse algo grande e monstruoso. Minha missão era checar se os anões estavam bem, e com isso confirmado, supri-los com o que precisassem enquanto seus amigos abriam novamente o caminho para casa.

Até então eu nunca havia visto algo grande e monstruoso, saíra de Lorieth havia menos de uma estação e minha maior aventura até então tinha sido uma expedição a um ninho de grifos nos picos de Alamara, contarei essa história em seguida.

Enfim, Hilgrd explicou-me as coisas, Falforjes e Gwarvaim acrescentaram detalhes.

O crucial, afinal, era não sair dos trilhos e não entrar em pânico se visse algum bicho feio.

Perguntaram-me, obviamente, se meu poder não era grande o suficiente para cuidar das rochas bloqueando a entrada da mina, e assegurei-lhes que não, ainda os desenvolvia.

Finda a entrevista, me certifiquei quanto ao fio da minha espada, fiz preces silenciosas, amaldiçoei a minha língua e fui embora escalar as pedras até chegar à pequena passagem sob o olhar atento de Barhim. Não tive problemas na subida; notei que o túnel era apertado, muito estreito. Eu era mesmo o único capaz daquela tarefa.

Pensei, antes de entrar, sobre providência divina. Os deuses me queriam ali, naquele dia, para ajudar os anões. Claro que antes do final da tarde minha idéia mudaria por completo. Respirei pausadamente, olhei para todos lá embaixo e acenei, sendo respondido com brados guerreiros de esperança que ressonaram pelas pedras.

Fechei os olhos e entrei na estreita passagem de terra.

Mal havia alcançado o meio do trajeto quando meu coração começou a palpitar incomodamente, era o medo se alastrando como fogo pelo meu corpo e colocando para fora lágrimas silenciosas de arrependimento. Parei e pensei na minha família. Eu teria boas histórias para contar, a eles e a todos, serviria de modelo e inspiração em Lorieth, caso sobrevivesse. Eu podia não sobreviver. Se um novo tremor me encontrasse ali, naquela apertada, eu viraria apenas comida para vermes, seria conhecido entre eles como Gimbold Iguaria, pois devo ser gostoso.

Maldizendo-me, avancei sentindo a terra fria embaixo das minhas mãos e joelhos, até bati de leve a cabeça duas vezes. Quando cheguei ao outro lado, desci com cuidado as pedras empilhadas, e divisei na minha frente dois trilhos afastados. Desembainhei minha espada e a envolvi com uma língua de fogo a fim de observar melhor o caminho. Um trilho era mais gasto, o outro mais conservado, só que os dois, a princípio, iam na mesma direção. Descendo pela imensa caverna, notei que rochas haviam caído por perto das paredes pedregosas e rachaduras eram visíveis. Cheguei numa bifurcação, o caminho da frente descia, o outro entrava à esquerda.

Foi naquele momento que fiz a escolha que transformaria Barhim em ruínas.

Fui pela esquerda, seguindo os trilhos mais desgastados, querendo ver aonde eles me conduziriam; os arredores provavam a luz de minha chama. Devo ter me distanciado horrores do caminho original, o breu me havia engolido, e sufocava; sentia que, caso o fogo em minha lâmina apagasse, eu deixaria de existir. Jamais havia experimentado situação tão opressora, há algo nas trevas profundas, algo maligno. Era como se alguma coisa sussurrasse murmúrios de perigo.

Parei de andar quando os trilhos acabaram. Adiante, no solo, apenas terra. Qualquer criatura sensata teria voltado, mas eu estava longe de saber o que significava sensatez, e fui tomado por uma curiosidade irrefreável. Apesar de meu coração estar cheio de medo, eu queria ver o Crichtul, queria ver algo grande e monstruoso. Talvez se eu me esgueirasse com cautela o suficiente ele não notaria minha presença.

Contudo eu tinha medo, muito medo, tremia, olhava com desconfiança para os lados. Afinal, minha curiosidade venceu, e dei os primeiros passos no caminho proibido. A sensação incômoda que já me acompanhava ficou mais poderosa, podia jurar que estava ouvindo alguma coisa na escuridão, um grotesco ruído pontuado por pausas longas.

“Aquele que busca a desgraça já está desgraçado”. Lembrei-me desse dito popular humano que ouvi de Ramiro, meu companheiro na aventura anterior com os grifos, e estremeci. Eu não estava buscando a desgraça, apenas veria o monstro e retornaria rapidinho.

O corredor úmido e trevoso se bandeou para a direita abruptamente, e após andar mais um pouco, cheguei noutro monte de entulhos rochosos. Escalei-o, ansioso, e no meio da subida estaquei. Ouvi uma respiração profunda, ritmada, pesada, gorgolejante. Era isso que eu já vinha escutando, e agora a repulsiva melodia apresentava-se por completo aos meus ouvidos.

Quis continuar e quis sumir, deixei-me permanecer nas trevas, de pé sobre as pedras, sem controlar minha própria respiração. E se a luz da flama o atraísse? Por outro lado, não podia apagá-la, como veria? Os gnomos conseguem ver bem na penumbra, mas na escuridão total vemos muito mal.

Diminuí a intensidade do fogo que envolvia minha espada e antes que percebesse já estava escalando de novo. Estaria querendo me punir por alguma coisa? Não, essa idéia não fazia sentido.

Terminei a ascensão e me vi diante de um imenso salão subterrâneo, muito úmido… talvez o que eu estivesse enxergando à distância, debilmente, fosse o espelho de um lago. A respiração perturbadora seguia alta, mais perto… cautelosamente, desci os penedos quebrados e comecei a andar pela região, minha cabeça não parava de se mover sobre o pescoço, eu olhava para tudo o que podia, mas o alcance de minha visão era limitado.

Meus olhos deram de repente com algo estranho. Não pude definir direito suas características no momento, mas vi que era algo grande, maior que a maior taverna de Barhim, algo vivo, de lombo curvo, diversas patas, quatro membros vigorosos que não pude distingüir bem e uma cauda, se é que assim posso chamar, achatada e revestida com camadas que mais pareciam pedras ásperas repletas de calombos. Notei que os calombos e a couraça cobriam boa parte daquele corpo. Era como se aquilo fosse algum bicho aquático no lugar errado.

A criatura estava quieta, apenas respirando, meio afundada n’água, parecia extremamente atenta, porém desolada. O bicho não se movia, inspirava e expirava tranqüilamente, a longos intervalos. Indaguei-me se acaso o monstro não havia me detectado, e em um instante de desvario que até hoje não compreendo, chamei:

– Crichtul? – Dizem que você não tem como saber de antemão sua reação em situações muito novas ou extremas. Por mais que se insista na teimosia em dizer que a reação será essa ou aquela, é na hora que acontece de verdade alguma coisa que somos realmente testados. Eu estava nervoso, morto de medo e fatalmente curioso, daí a besteira inominável que produzi.

O monstro ergueu a parte dianteira do corpo soltando um temível gorgolejo e se voltou para minha direção. Arregalei os olhos, abri a boca e andei para trás.

Meu coração de gnomo quase parou de bater quando a fera lançou um ruído gutural proveniente das entranhas de seu ser, um barulho nauseante, como dezenas de gritos unidos a dezenas de rugidos envolvidos naquele gorgolejar maldito.

Gritei também, gritei muito alto, conheci naquele dia o tom mais agudo de minha voz e até hoje me surpreendo por minhas cordas vocais não se terem rompido em tão alucinado rompante. Girei nos calcanhares e corri desembalado para as rochas caídas, as escalaria, fugiria, e com sorte, o monstro ficaria ali.

Minhas pernas atingiram uma velocidade impressionante quando eu senti o chão tremer e ouvi o novo urro bestial que ecoou pelas cavernas. O crichtul me perseguia.

Berrei como nunca na vida, subi as pedras de qualquer jeito e praticamente me joguei para o outro lado, meio rolando, meio saltitando, arranhando braços e cotovelos. Atrás de mim, quando eu já corria a gritar pela caverna, um estrondo avisou que a antiga besta desmoronara sem cerimônia o bloqueio rochoso e a instabilidade no solo revelou que a criatura continuava em meu encalço.

De súbito, as paredes começaram a tremer e pedaços de terra começaram a cair do teto. Em um lampejo de coragem, olhei para trás e vi que o crichtul avançava pela parede. Os quatro grandes membros que antes eu não havia conseguido distingüir me pareceram pinças, vigorosas pinças assassinas de aspecto encouraçado.

Não parei de gritar, via o fim!, e sem pensar, quando voltei à bifurcação, tomei o caminho de Barhim. Apaguei a espada, a embainhei de qualquer modo e joguei-me no diminuto túnel pelo qual eu tinha passado antes. Arrastei-me por ele suando, com os olhos esbugalhados, como um rato em desespero fugindo da morte certa.

Quando Barhim descortinou-se perante meus olhos, desci correndo e gritando. Os anões olharam-me com temerosa expectativa, reconheci Hilgrd e Gwarvaim, que já seguravam suas armas.

Passei correndo entre os anões:

– O crichtul! O crichtul! O crichtul! Crichtul!

– Gnomo maldito! – esbravejou Hilgrd.

– Barhim, às armas! – Ordenou Gwarvaim.

Escutei um tremendo estouro e caí, virando-me para trás. O crichtul entrou na cidade anã demolindo as pedras que haviam caído em frente ao arco, espalhando-as por todo lugar, muitos anões tiveram que se jogar ou se abaixar para escapar da pancada que receberiam.

Finalmente enxerguei o monstro por completo.

O Crichtul era gigante, sim, mas o imaginava maior, que bom que estava enganado. Não importa, era enorme, revestido por uma camada dura, talvez um exoesqueleto, de aspecto cinzento, avariada com incontáveis arranhões e recheadas de calombos de aparência quase rochosa. Tinha muitas patas, e elas eram firmes, resistentes, angulosas. Na frente do que parecia ser a cabeça, tentáculos viscosos, por pouco não grudados uns aos outros, possuíam uma estrutura aberta ao centro, a horrenda boca, talvez. Ainda na parte superior de seu corpo esguio, mas atarracado, quatro membros com pinças maciças estraçalhavam tudo o que tocavam.

Os urros de raiva, e, acredito, fome, se espalharam pelos salões de Barhim. Vi que muitos anões acorriam às pontes e ruas, se organizando para enfrentar o monstruoso invasor.

Não podendo agüentar de culpa, ergui-me, criei uma lança de gelo comprida e pontuda e, com um clamor indignado, atirei-a contra a criatura, bem entre seus tentáculos. O crichtul ficou furioso e avançou em minha direção, fazendo montes de anões saírem de seu caminho de qualquer modo. Impeli-me também a ele, usando o ar, flutuando, e o monstro tentou agarrar-me com uma das pinças, o que evitei com um jato de fogo.

Enquanto o crichtul lidava com o fogo, subi rapidamente numa escadaria e me lancei às costas pedregosas do monstro. Ele odiou aquilo e tentou jogar-me para o lado, mas segurei-me em seus calombos, triunfante. Desembainhei a espada, devia ter uma brecha em algum lugar!

Mentira, não fiz nada disso.

Perdoe-me, é doloroso contar as coisas como elas acontecem. Tome jeito, seu velho fanfarrão!

Eis como foi: levantei e saí correndo, gritando, com os olhos saltando para fora das órbitas, apenas ouvindo a destruição atrás de mim. Subi a escadaria principal e me escondi atrás de uma pedra.

Vi quando o crichtul, em sua corrida pavorosa, saltou, agarrando-se a uma das pontes com as pinças e usando o impulso para lançar-se num pilar, abalando-o; no mesmo embalo ele chegou noutra outra ponte, a que tinha a estátua do Patriarca, e parou em cima dela, fazendo-a rachar e derrubando alguns anões mais afoitos.

Os guerreiros lançaram machados e flechas que, para minha surpresa, penetraram na carapaça do monstro… mas superficialmente. O crichtul varreu o ar com seus poderosos membros, e depois atacou mais embaixo, derrubando outra leva de anões. Uns loucos conseguiram agarrar-se à sua pinça dominante e galgaram-na com muita força e habilidade, chegando às costas do bicho, onde, sôfregos, cravaram armas.

O urro do monstro foi terrível, mas os anões não se importaram. Lá embaixo, em uma área mais ampla da cidade, um grupo de anões rodava a corrente de uma enorme bola de prata com espinhos, e após alguns giros o arremesso aconteceu e a esfera acertou o flanco do crichtul, que se recusou a cair, ele deslizou pela ponte e se segurou na beirada sofregamente. Já sem os anões às costas, ele subiu a ponte novamente e pulou para um pilar próximo, encarapitando-se ali, se deixando escorregar até perto do nível do solo.

Agarrado e protegido, destruiu as construções por perto e por pouco não agarrou guerreiros que se aventuraram numa luta mais próxima. Foi quando vi Barbanim correndo com um martelo de seu tamanho, com o olhar desvairado, seguido por outros anões com o mesmo semblante de loucura. Os martelos de ferro atingiram quase que simultaneamente o pilar do crichtul. O bicho bramiu, raivoso, e os anões desferiram um segundo golpe, ainda mais firme. O pilar então cedeu, as rachaduras tornaram-se fendas e o crichtul foi ao chão, meio soterrado por uma breve chuva de pedras robustas e, às vezes, afiadas.

Uns anões bradaram como se tivessem conseguido a vitória, mas o monstro sacudiu de cima de si os escombros e jogou as pesadas rochas para todos os lados. Uma delas destroçou a porta do armazém.

Vários outros anões, inclusive Falforjes, lançaram pesadas correntes a conseguiram a maioria de suas patas. A criatura tentou se mover mas não conseguiu, estava segura por mais de quarenta anões parrudos. Nervoso, o crichtul tentou alcançar os grilhões com suas pinças, mas não logrou cortá-los, Anghail, a prata anã, não cedeu de modo algum.

Os anões sabiam como lutar contra aquilo, tanto que nenhum anão havia morrido até então.

O crichtul demonstrou sua força bruta e girou violentamente para um lado, e metade dos anões soltaram as correntes e rolaram pelo chão. Foi o suficiente para, numa nova investida, a criatura conseguir se desvencilhar do restante para seguir seu iroso caminho de demolição.

O que me alarmava era que o lugar estava cada vez mais escuro, pois os archotes eram freqüentemente derrubados. Os anões eram ótimos guerreiros, porém era questão de tempo até morrer o primeiro, e depois desse, o segundo e o terceiro. Eu tinha que fazer alguma coisa, mas o quê? O pânico me paralisava, eu não sabia lidar com a minha magia muito bem, não era um bom combatente, e pelos deuses, como encararia alguma coisa daquele tamanho, furiosa como estava?

E se eu o levasse para fora da montanha? A entrada estava bloqueada, mas a criatura abriria facilmente com sua cólera e corpanzil… esse pensamento habitou minha mente durante tempo suficiente para mais casas serem destruídas. Também pereceu a taverna; também pereceu a estátua do Patriarca.

O crichtul não parava quieto, pulava pelos pilares, escorregava ao tentar frear suas ansiosas corridas, subia o que restava do armazém; tinha abaixo de si a cidade arrasada, os pelejadores feridos e a escuridão quando outra leva de anões, incluindo Gwarvaim, arremessou na direção dele uma imensa rede de prata, que passou direto, se chocou contra uma parede rochosa e caiu sem eficiência.

Granjeando minha coragem e toda a minha presença de espírito, saí de meu esconderijo e me atrevi a chegar razoavelmente perto de onde estava o monstro. Os anões arfavam, cansados, logo as mortes começariam, e isso eu não permitiria!

O que vou contar agora é verdade.

Puxei minha espada curta e fiz o fogo abraçá-la uma segunda vez. Com a voz tremida, tentei gritar sem sucesso. Tomei fôlego e fui bem sucedido na quarta tentativa:

– Crichtul! Estou aqui! Eu fui perturbar sua paz! Venha! – “Lor querido, dos colares preciosos, como assim, ‘venha’? Mas não era o que eu queria?”

O monstro pareceu reconhecer minha voz, e acho que me viu, pois atendeu o chamado sem demora. Corri loucamente, sentindo as mãos de Radamanthys no meu pescoço. Refiz todo o meu caminho aos tropeços, quase caí, por Lor, eu fiquei bem perto de morrer.

O monstro me perseguia, irado, barulhento, letal, coberto por trevas; a minha idéia simplista tinha que dar certo. É óbvio que deu, de outra forma eu não estaria escrevendo aqui.

Quando me aproximei dos pedaços de pedra sobrepostos no desmoronamento da entrada, larguei a espada ao chão e me atirei de qualquer jeito para um canto. Senti o crichtul passar quase raspando em minhas vestes no instante seguinte, e depois escutei o estrondo que eu já associava a robustas barricadas de rocha sendo demolidas. Veio um forte clarão.

Ouvi um brado anão solitário que logo se transformou em vários. Não os havia escutado antes por causa do monstro, mas é evidente que me seguiram. Hilgrd liderava a pequena turba que saiu da caverna com machados, martelos, espadas e lanças em punho. Acompanhei-os, cambaleando como podia, e vi da entrada, após uma breve, porém assertiva, queixa de meus olhos, Hilgrd executar um pulo fenomenal, indo cair bem na parte de cima da cabeça do crichtul, atordoado, visivelmente desacostumado a tanta iluminação. O machado do anão penetrou fundo na couraça da fera, e os outros anões seguiram o exemplo, pulando, cravando suas armas pelo corpo do monstro, que mal conseguia coordenar suas quelas.

O crichtul caiu e rolou montanha abaixo, por cima da gasta escadaria que servia de estrada, os anões com ele, até perderem-se todos no verdejante ambiente bem abaixo, através de árvores, arbustos, curvas na montanha e do curso do rio Anghail.

Um monte de outros anões acorreu à entrada, muitos chegaram até a descer um pouco a encosta, olhando preocupados para baixo. Senti uma mão intensa no meu ombro e virei a cabeça, num sobressalto. Era Gwarvaim.

O mestre das minas me olhava sério.

– Gimbold Tarim, não sei se agradeço ou se o empurro montanha abaixo agora mesmo. – Permaneci calado, mal conseguia encarar olhos tão férreos. Ele me estendeu minha espada e minha bolsa de viagem, recuperada de sua casa intocada.

– Tem mais alguma coisa sua por aqui?

– Não, senhor.

– Então vá, pode ir, decidi agradecê-lo, mas serei ainda mais grato se você não voltar a Barhim. Se possível, mantenha distância do meu povo. Você não se ofende, correto?

– Não, não… – abaixei a cabeça, triste, enquanto pegava meus pertences.

– Então, pequeno, pode ir quando quiser, obrigado pela ajuda.

– E Hilgrd, e os anões que caíram com o crichtul?

– Isso não mataria Hilgrd e os outros, ficaremos bem, obrigado.

Cabisbaixo, eu concordei e murmurei um pedido de desculpas. Gwarvaim disse que estava tudo bem, mas não fiquei convencido. Decidi seguir viagem para bem longe dali.

Foi assim que terminou a minha aventura em Barhim. É hora de descansar a pena, o corpo e a mente, pois quando retomar a estas páginas falarei do incidente com os grifos, logo no início de minha jornada ao adultismo. Preciso também pensar em um bom lugar para esconder esses escritos, ninguém pode ver ainda, ninguém.

Boa noite. Ou bom dia.

*

Bragança Paulista, 2013

Imagem: J R/Pinterest

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