Orundia

Hoje eu quero falar rapidamente a respeito da formação do meu principal mundo fantástico, as Terras Eternas.

O primeiro território das Terras Eternas a ser consolidado foi Orundia, que significa “Terra dos Dragões”. O RPG muito me ajudou nessa consolidação, porém a coisa teve início antes do preenchimento de fichas e da rolagem dos dados, o verdadeiro embrião das Terras Eternas apareceu em 1999 ou 2000, quando eu contava uma década e poucos invernos. Naquela época, comecei a escrever uma história sobre um guerreiro honrado chamado Alef e sua companheira de peripécias, uma feiticeira seminua chamada Mina. Eu não lembro o que eles combatiam, não lembro de detalhes (os trajes da feiticeira eram inspirados pelos trajes da Lisandra, de “Holy Avenger”) sei que a narrativa era dividida em capítulos curtos de três páginas, que eu entregava a um colega de sala; ele os lia ávido, com notória satisfação.

A história de Alef e Mina não chegou ao fim, todavia guardei na cabeça alguns nomes e características dos cenários e resolvi escrever novas aventuras naquela região. Durante os dois anos seguintes muitas narrativas foram iniciadas e descartadas — uma delas eu, inocente, descartei porque uma professora de Português disse que ela tinha “diálogos demais” –, mas a cada descarte ficava um personagem, uma taverna, uma cidade, uma floresta, um lago…

Portanto aos quatorze anos eu me pus firme e encetei meu maior projeto até então, um livro num mundo que reunia tudo o que havia sobrevivido das histórias anteriores.

Terminei o livro no ano seguinte, trezentas e oitenta páginas d’um esforço literário sem precedentes na minha vida. Pouco depois de acabado o livro comecei a ler Tolkien — “A Sociedade do Anel” e “As Duas Torres” foram lidos no estacionamento coberto de um supermercado enquanto eu gazeava aulas –, e não demorou para que o óbvio se descortinasse diante de mim: meu tomo era todo besta e apressado, uma porcaria, apaguei-o sem hesitação e decidi trabalhar noutras coisas até ser maduro o bastante para esboçar um mundo fantástico coerente, que reverberasse com o nosso próprio mundo, o mundo mais fantástico de todos. Eu sabia que alguns personagens e locais criados permaneceriam, todavia eles eram pedaços soltos, meio à deriva.

Mas como desenvolver um mundo? Eu, com 16 e 17 anos, enquanto rasurava inutilmente mapas inventados, fui assaltado pela Grécia antiga, pela mitologia nórdica e pelos egípcios ancestrais; todas aquelas civilizações tinham deuses e mitos de criação; era natural, portanto que meu mundo tivesse deuses e mitos de criação, então criei alguns deuses para os homens, para os elfos, para os anões… só que eu também queria dragões, dragões eram imprescindíveis, e embora aqueles dragões clássicos que podiam ser derrotados com lanças bem atiradas tivessem certo charme, eu não queria dragões tão franzinos, não… os Dragões Primordiais seriam deuses, de modo que toda linhagem dracônica teria sangue divino. Os deuses dragões e os outros deuses não se amavam, claro, e eventualmente ambas as partes se entregaram à violência mútua na primeira Guerra dos Panteões. Após árduas batalhas ficou acertado que deuses e Dragões Primordiais não poderiam mais descer às terras dos mortais senão por meio de avatares cuidadosamente escolhidos.

Esta foi a primeira base sólida para o meu mundo. A partir daí, muitas coisas foram criadas, e apesar da essência de várias delas permanecer inalterada, diversas mudanças foram feitas ao longo dos anos, sobretudo por causa de leituras da Bíblia, de Platão, do Tolkien e de Eric Voegelin.

Pois muito bem, com a base esboçada, devagarinho umas cidades e florestas se tornavam menos efêmeras. Eu precisava testar o cenário, e é aqui que entra o RPG. Narrar aventuras pelo meu mundo em desenvolvimento me ajudou sobremaneira; no RPG foram estabelecidos reinos, ruínas, monstros, raças e novos mitos; também foi estabelecido o nome do continente mais trabalhado, Orundia (o nome foi dado por anões e pegou por todas as raças).

Narrei ativamente aventuras em Orundia por nove anos. Enquanto ainda narrava, escrevi boa parte da primeira versão de “O Cetro de Ishkar”, livro sobre as conseqüências desagradáveis de roubar do tesouro de um dragão, e em 2013, já sem jogar RPG e morando em Bragança Paulista, escrevi “Gimbold e os Monstros”, obra que só comecei a revisar neste ano de 2020.

Além disso, as Terras Eternas possuem mais uns contos escritos em 2017. Continuo trabalhando no mundo, não o considero nem perto de pronto o suficiente para a produção d’uma grande miríade de histórias. Gostaria que as Terras Eternas fossem uma espécie de espelho de nosso universo e ainda sou ignorante demais para que este objetivo seja sequer parcialmente alcançado; talvez um objetivo desses seja mesmo impossível, mas hei de tentar alcançá-lo.

Ademais, as Terras Eternas são águas que navego devagar, são uma enorme seção da minha alma largamente inexplorada.

*

Bragança Paulista, 2020

Imagem: Parte d’um esboço do mapa de Orundia (2004 ou 2005)/Yuri Mayal

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