Sobre “High Noon”

Um assassino condenado à morte foi liberado por políticos e está voltando à vila que o capturou e julgou para se vingar dos representantes da lei que o tiraram de circulação. Três de seus comparsas o esperam na estação, um prediozinho simples, como praticamente todos os prédios daquela vila erguida no meio do deserto, erguida, certamente, a muito custo, a muito suor e sacrifício. Will Kane, o delegado que apanhou o bandido e cimentou o sossego do local, está se casando, é seu último dia de serviço antes de passar a estrela ao substituto, mas quando descobre que os malfeitores estão às portas da cidadezinha pela qual tanto trabalhou, ele finca o pé na terra e decide encarar a desventura como homem; o problema é que, mal sabia o pobre delegado, ele era um dos únicos homens da região.

Boa parte de “High Noon” consiste da dolorosa via de decepções percorrida por Will Kane, pois ele precisa de ajuda para conter os criminosos e ninguém, à exceção de um velho caolho e de um bravo rapazote meio cabeça de vento — talvez sua bravura tenha nascido do vento de sua cabeça –, se dispõe realmente a ajudá-lo. As pessoas, com a visão nublada pela covardia, se apegam a ninharias e conveniências demasiadamente efêmeras, efêmeras, sobretudo, se os suportes de tais ninharias e conveniências não são defendidos.

O juiz que havia condenado o assassino, antevendo a poltronia dos cidadãos, foge dizendo que nada do que acontece naquela cidade importa; o sujeito que trabalhava com Kane exige ser promovido a delegado antes de auxiliá-lo; um fulano apressado e impulsivo que havia oferecido seus tiros dá pra trás quando constata a inferioridade numérica do seu lado; um amigo de Kane manda a mulher dizer que ele não está em casa; na igreja algumas vozes se levantam a favor e contra o delegado, mas um fanfarrão convence a assembléia que aquilo ali não vale a pena, melhor seria se Kane fosse embora de vez, pois se os bandidos não o achassem por lá, nada aconteceria, ademais gente do norte queria investir naquela área e um tiroteio não seria bom para os negócios. Nem mesmo o antigo delegado, homem que servira de inspiração a Kane, se dispôs ao auxílio, sequer levantou de onde estava sentado. Além disso, o bandido tinha amigos que freqüentavam a taverna, e o cara do hotel não gostava do delegado, no tempo que o assassino andava solto, seu hotel ia mais cheio, os negócios eram melhores.

Esta era a situação moral da vila de Will Kane, talvez uma situação moral universal nas sociedades humanas. Medrosa e apegada aos aspectos mais ordinários da existência, a população deixa de enxergar o óbvio: o bandido que está chegando é cruel e perigoso, pouca consideração teria pela maioria das pessoas dali e certamente transformaria o lugarejo num inferno antes de afundá-lo nas areias escaldantes daquele deserto.

Will Kane é um homem honrado, o que o segura na vila, mesmo correndo tanto risco, é um senso de dever mui profundo, e incompreensível, creio, para a maioria das mentas modernas. Gary Cooper entrega um personagem austero e comovente, é possível ler as intenções de Kane nos olhos do ator. Também são honradas as mulheres da trama, especialmente Helen Ramirez e Amy Kane, ambas são fortes e fiéis à própria consciẽncia, a bússola moral delas está muito melhor ajustada do que a bússola moral dos marmanjos em roda, e Katy Jurado, como Helen Ramirez, transpira uma força viva e misteriosa que parece emanar desde seu âmago, de maneira que as vagas impressionantes que atingem seu semblante não parecem ser mais do que marolas surgidas de tormentas fundas.

Por fim, não há como falar deste filme sem mencionar a emblemática música tema composta por Dimitri Tiomkin, com letra de Ned Washington, talvez a efígie dos sentimentos conturbados de Will Kane.

“High Noon” foi o primeiro filme de faroeste que vi na vida — descontado “Django Unchained”, há quem considere “Django Unchained” faroeste –, e digo que comecei muito bem.

*

Bragança Paulista, 2020

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