Sobre “O Serviço de Entregas da Kiki”, de Hayao Miyazaki

Há quem torça a cara para “O Serviço de Entregas da Kiki” porque o filme pinta a bruxaria como algo positivo. Naquele universo, as bruxas, quando chegam à adolescência, se estabelecem em outras cidades e ajudam os locais. Umas curam doenças, outras fazem aconselhamentos em relação ao futuro… a Kiki acaba fazendo entregas.

Acontece que a história não é sobre bruxaria, o mundo bruxo pouco mais é do que um recurso metafórico. O filme trata da transição da infância para o início da vida madura, da vida preenchida de responsabilidades.

Kiki deixa a família para tentar se fazer numa agradável e pujante cidade litorânea. Chegando ao seu destino, a mocinha encontra dificuldades atrás de dificuldades e só não desiste, derrotada, por causa da ajuda que recebe de Osono, uma padeira grávida. Osono, aliás, ajuda de verdade, nunca tenta incapacitar ou humilhar a menina. A padeira não quis dar o peixe, desejou que Kiki pescasse e a respeitou. Isso ficará mais claro através de exemplos: o cômodo oferecido à bruxinha estava imundo. Osono não a mima, arranjando para ela a limpeza, nem a degrada exigindo que o local fique um brinco. A mulher simplesmente sugere que a menina limpe o quarto; Osono não oferece à inquilina, de mão beijada, o cômodo mais três refeições diárias, mas também não veste a capa de megera cobrando o aluguel e todas as refeições. Ao invés de uma coisa ou outra, ela permite que a mocinha fique no quarto e tenha o desjejum garantido; a padeira se entusiasma com o negócio de entregas da menina, mas não deixa de dar uma bronca suave quando Kiki se atrasa.

Osono, enfim, deseja que sua protegida cresça, não que fique mimada ou depressiva.

Na cidade, Kiki também conhece Tombo, jovem aficionado por aviação. Tombo é um sujeitinho inteligente e desengonçado que se interessa por Kiki assim que põe os olhos nela e está inteiramente disposto a conquistá-la.

Além de Kiki, de Osono e de Tombo, outras personagens também receberam cuidados especiais. Miyazaki, aliás, consegue esboçar personalidade até no mais simples estivador. Os detalhes que ele colocou na movimentação de cada pessoa que aparece em tela revelam não só gosto pelo trabalho de desenhista e animador, mas um profundo carinho pelos seres humanos.

O bonito em “O Serviço de Entregas da Kiki” é que a menina se esforça e cresce sem se fazer de vítima diante das dificuldades, e seu amadurecimento é assinalado pela perda da capacidade de conversar com o gato Jiji. Enquanto ainda respirava ares mais infantis, Kiki podia compreender seu gato, o relacionamento deles era um indicativo da inocência da menina (talvez da inocência de ambos, já que Jiji também envereda, ao seu modo, pelo caminho da maturidade).

Ao final do filme, tudo está diferente.

*

Bragança Paulista, 2018

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s