Sobre “Hóspede”, de Pardal Mallet

Pedro, um sujeito medíocre, superficial, impulsivo, desatento ao mundo em roda e que costumava zombar de temas que a esposa tinha em alta conta, resolveu levar para casa, sem aviso, um amigo de colégio que por acaso havia encontrado na rua em busca de hotel, e esse amigo, Marcondes, apesar da vida algo desgraçada e desregrada que havia levado, é educado, atencioso, aprecia as mesmas coisas que a esposinha do Pedro, Nenê, aprecia, e não mede esforços sinceros para conquistar a afeição das pessoas mais importantes da casa. Ele conquista Pedroca, filhinho do casal, conquista a rígida D. Augusta, mãe de Nenê, e conquista a própria Nenê.

Marcondes é um personagem razoavelmente complexo. Tendo vivido uma vida desencaminhada e boêmia, se afeiçoou sobremaneira à pacata existência familiar que para seu amigo era banal e talvez mesmo sufocante. Marcondes, me parece, tinha uma essência boa, mas pedaços do seu caráter foram carcomidos por sua prévia existência errática, de sorte que o sujeito acabou por acalentar pensamentos mui negros e nutrir fantasias de canalha. Não tardou para que ele passasse a desejar ardentemente a esposa do amigo. Pedro nada percebia e continuava com seus gracejos chatos e sua inconveniência.

Nenê terminou se apaixonando pelo hóspede que tanto valorizava o que ela gostava, que compartilhava da maioria de suas opiniões e que a olhava com tanta intensidade. A situação ficou de tal modo que, como o próprio autor fala no final do capítulo XXI, era como se a casa inteira conspirasse para entregar a mulher aos braços do hóspede: sua mãe gostava bastante do rapaz; a fiel empregada da família muito o estimava; seu filhote quase que o idolatrava; seu marido só fazia louvá-lo.

“Hóspede” foi inteiramente construído sem diálogos diretos, mas como cada capítulo tem menos de três páginas completas, embora o texto possua seus problemas a leitura não enfada. Um dos problemas é que Pardal Mallet repete diversos termos; à época de “Hóspede” ele parecia ainda não ter um estilo próprio ou nível elevado de refinamento, porém confesso que prefiro a simplicidade repetitiva que ao menos tenta dizer alguma coisa do que os labirintos sem saída enfeitados de vocábulos obscuros e muitas vezes inapropriados.

Enfim, “Hóspede” é obra que vale ser lida, fruto d’um escritor com enorme potencial, escritor que infelizmente morreu muito cedo e não pôde descerrar completamente seu espírito literário.

*

Bragança Paulista, 2020

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