Nota sobre “O Poço”, de Mário de Andrade

Eu não esperava que existissem contos bons entre os “Contos Novos”, do Mário de Andrade, mas existem, “O Poço” é um deles. Apesar de algumas irrealidades do Mário – achar que fazendeiro que não trabalha é capaz de fazer crescer a fortuna, por exemplo. –, e de alguns tipufes (caiu de novo) na escrita que eu nem não ninguém saberíamos elencar de maneira apropriada, o conto captura quase à perfeição aquele jeito de ser mesquinho e infantil que habita a alma de tantos homens e transforma tudo em vaidades das mais bestas.

Não só isso, Mário acaba esboçando fiéis retratos de homens simples, bons e trabalhadores, personagens, aliás, que penam por causa de capricho do fazendeiro que os emprega.

O que acontece é o seguinte: o fazendeiro decide inspecionar um poço que cavavam para ele e, enquanto olha o buraco, sua caneta-tinteiro cai. Bom, fazia frio, os arredores do poço não eram lá os mais seguros do mundo, e basta dizer que o sujeito preferiu arriscar a vida dos seus subordinados, por birra fruto de orgulho mesquinho, do que ficar sem a maldita caneta, apenas uma entre outras que tinha.

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Bragança Paulista, 2019

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