Sobre “Paulo”, de Bruno Seabra

O maior problema deste livro do Bruno Seabra é que o romance entre Paulo e Emília não foi suficientemente desenvolvido, e nem foi suficientemente desenvolvida a própria Emília, então não há como o leitor criar vínculo seguro com a história e se importar realmente com seu desfecho.

Há outros problemas na obra, a própria escrita de Bruno Seabra é um deles, pois as partes que dizem respeito à história de Paulo são montadas quase sem polimento, e algumas escolhas de vocábulo, como o uso repetido de “irracional” para designar o cachorro Sócrates ao invés de alternâncias como “bicho”, “cão”, “criatura”, “animal”, “mamífero companheiro”, “canino”, “aquele que sabia que não sabia”, “quatro-patas”, etc. Outro problema é que a narrativa, manifestamente a respeito de Paulo, se permite ser roubada por Eugênio — outro personagem — e seu “Romance a Lápis”, de maneira que nos sobra muito pouco tempo com o protagonista.

O resultado d’um livro tão desleixado foi que, quando vi Paulo delirando diante do retrato de Emília me flagrei de paciência curta, torcendo para que aquilo acabasse logo, certamente sem experimentar o efeito pretendido pelo autor.

Bruno Seabra era também pintor, e talvez por isso tenha se acostumado a capturar apenas o que parecia essencial em cada situação, mas uma narrativa não funciona tão recortada, afinal, na vida o que parece mais essencial está ligado a figuras e situações também essenciais.

Porém ter sido pintor seguramente ajudou Seabra a compor e sugerir cenas e figuras notáveis, como Eugênio e Sócrates, como a refeição animada da família pobre, como a aparição do tio do Eugênio, e por aí vai. Aliás, talvez a familiaridade do autor com a pintura seja também a responsável por capítulos tão sucintos.

Acho uma pena que “Paulo” tenha tantos defeitos, seu potencial não era pequeno. Só de tocar na questão do boicote aos artistas de verdade por parte justamente daqueles que são tidos como guardiões e promotores da arte e por ter demonstrado que um artista pode decair meramente tentando sobreviver “Paulo” não merece ser esquecido tão rápido.

Além disso, gostaria de ressaltar mais umas coisas: aparece perto do final do livro um sujeito metido em política que fala de modo automático e parece ter opinião pronta para qualquer ocasião social; tomamos ciência da atitude dinheirista do comendador em relação ao futuro da filha; temos a mãe de Paulo, uma senhora extremosa e mui viva; temos o Eugênio. Bruno Seabra não era, de jeito nenhum, um mal observador, mas a julgar por “Paulo”, não sabia ordenar e executar literariamente aquelas observações.

“Paulo” tem mais cara de conto do que de romance, entretanto não é conto e deixou em mim o gosto de obra incompleta.

*

Bragança Paulista, 2020

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