Nota a respeito de “Sobre Histórias de Fadas”, de Tolkien

Em “Sobre Histórias de Fadas” Tolkien oferece sua definição de histórias de fadas, fala por alto das possíveis origens de seus elementos fantásticos e explora os valores e a serventia destas narrativas à sociedade.

A definição que Tolkien dá para histórias de fadas é muito interessante: histórias de fadas são histórias protagonizadas por homens e semelhantes que ao menos resvalam em terras encantadas, e essas terras devem ser reais pelo menos para o escritor da narrativa. Havia um mundo mágico, mas era sonho ou ilusão? Não vale. A história se passa num mundo ficcional sem magia? Não vale. Os protagonistas são todos animais falantes? Não vale.

Tolkien diz que o conto de fadas não é algo necessariamente infantil, a imediata associação deste tipo de história às crianças é coisa mais moderna do que antiga. Ele diz que os adultos deixaram as histórias de fadas com as crianças como deixam os móveis velhos largados no sótão, pois não se importam com o uso que farão deles.

Ele também esclarece que a existência de temas e elementos semelhantes em histórias diversas não transforma essas histórias na mesma coisa. Podem existir vários contos nos quais a força vital de algum personagem importante está longe, escondida e protegida — como um coração num pote, por exemplo — mas esses contos não são a mesma coisa, ainda que seus protagonistas sejam também semelhantes.

Ademais, o elemento fantástico sempre esteve à espera da imaginação popular para ser associado a algum personagem ou evento, e como personagens e eventos mais ou menos se repetem ao redor do mundo, é natural que lugares diversos possuam contos de fadas com características semelhantes. Todas essas coisas entram na grande sopa de histórias, e podem ser utilizadas, com ou sem modificações, por variados contadores de história.

Para Tolkien, as histórias de fadas, além de servirem de escape ao nosso cotidiano geralmente desgraçado, também ajudam na recuperação do encanto pelo mundo, pois até as coisas mais banais adquirem, a muitos olhares, novo brilho e dignidade nos reinos encantados, de maneira que, após observar cães, árvores e pães daquele “mundo secundário” mágico, o leitor passa a contemplar com renovado entusiasmo os cães, árvores e pães deste nosso “mundo primário”. Essas histórias também são capazes de oferecer consolo, e ao contrário das tragédias, devem terminar em alegria.

Uma nota curiosa: parece-me que o mestre pensava que as luzes elétricas na rua eram moda passageira.

*

Bragança Paulista, 2020

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