Sobre a primeira temporada de “Supernatural”

Fantasmas, demônios e diversas criaturas malignas que fazem das trevas sua morada habitam o imaginário popular universal e servem de inspiração para as mais diversas obras. O nosso Gilberto Freyre, por exemplo, em seu livro “Assombrações do Recife Velho”, catalogou diversas dessas aparições na capital pernambucana, e Lucy Clifford, em seu conto “The New Mother”, apresenta um ser terrível que toma o lugar das boas mães quando elas não agüentam mais as malcriações e abandonam as crianças grosseiras em casa. Sam e Dean vivem num mundo povoado por criaturas assim, e caçá-las é o negócio da família; posso tranqüilamente imaginá-los seguindo a trilha do Boca de Ouro após mortes suspeitas sobre as pontes nas madrugadas recifenses, na hora do confronto com a entidade, um dos irmãos, dominado pelo cheiro pútrido daquela boca escancarada seria salvo à beira do exício pelo outro; posso vê-los ao encalço da hedionda monstruosidade de rabo de madeira conhecida como Nova Mãe, os dois a impediriam de invadir alguma casa à beira da mata, o diálogo seria inteiro à balas e cacetadas.

É disso que se trata a maior parte da primeira temporada de “Supernatural”, dois irmãos caçadores tocando o terror em entidades que assombram as pessoas.

Através de vinte e dois episódios, os irmãos Winchester caçam fantasmas diversos, incluindo uma Maria Sanguinária (Bloody Mary), demônios, um wendigo, uma bruxa, vampiros e até mesmo um pequeno deus pagão. Eles também lidam com uma antiga maldição indígena e com seres humanos problemáticos. A propósito, numa das vezes em que estão encarando gente de carne e osso, Dean desabafa: “Demons I get. People are crazy.”

As caçadas são sempre mui perigosas, e freqüentemente pelo menos um dos dois Winchesters se avizinha demais dos domínios da morte. Quase toda a locomoção da dupla é feita no icônico Chevrolet Impala de 1967, uma banheira toda preta e estilosa cujo motor produz um som agradabilíssimo, verdadeira música automotiva.

Porém os dois irmãos não andavam juntos o tempo inteiro, na verdade, ambos seguiam caminhos separados, Sam com seus afazeres na faculdade, Dean ajudando o pai no combate aos monstros. Acontece que John Winchester, o pai dos rapazes, sumiu, por isso Dean arrastou seu caçula de volta àquela vida algo desregrada e muito perigosa, e uma vez nesta vida, não há como sair dela, como Sam logo descobre.

Os Winchesters são a alma da série. Sam é apresentado como o caçula egoísta e rebelde que só queria levar uma vida normal, só queria seguir sua própria senda sem se meter mais a fundo nos negócios da família, e a frustração vez ou outra toma conta dele; Dean põe responsabilidades demais sobre os próprios ombros e anseia fortemente pelo momento em que toda família estará reunida de novo, para ele o natural é que pai e filhos estejam reunidos, caçando, brigando, vivendo como viviam anos atrás. John, por fim, mal aparece, porém está presente durante a temporada inteira, já que sua ausência é sentida pelos irmãos e fica cada vez mais enigmática, pois é claro que o sujeito vive e deixou algumas missões aos rapazes. O Winchester pai é uma das figuras mais misteriosas da temporada, homem que se habituou a palavras tão curtas quanto seu temperamento, forjado no fogo da agonia, John ama os filhos, mas é evidente que traz algo irreversivelmente destruído dentro de si.

O arco principal da série envolve a caça ao demônio que matou a mãe dos irmãos, mas as coisas só começam a andar de verdade nesta direção após alguns episódios, o que é compreensível, afinal os personagens e todo aquele universo macabro deviam ser devidamente apresentados aos espectadores, e tudo nos é mostrado através d’uma fotografia escura, algo sorumbática.

Ademais, digo que há várias lições na série, é só afinar um pouco a percepção para enxergá-las. No décimo episódio (“Asylum”), Dean dá uma dica valiosa para a namorada d’um rapaz metido a explorador de locais abandonados, e eu a reproduzo aqui: próxima vez que assistir a um filme de terror, preste atenção.

*

Bragança Paulista, 2020

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