Sobre a Memorização de Poemas

Não faz tanto tempo que peguei o hábito de memorizar poemas, e ao longo de vários meses já guardei na cachola estrofes de Camões, Cecília Meireles, Mário Quintana, Dionísio Catão e outros. Por que faço isso? Primeiro porque gosto, ter fácil acesso a vários poemas me relaxa, isto é, me ajuda a dormir bem, espanta o tédio ocasional, e a sensação da memória aumentando é gostosa. Depois, porque sou escritor e também ataco de poeta; para um escritor, possuir o imaginário irrigado com o que há de melhor na literatura e nas artes é importante, e para um poeta, trazer afixada na memória uma coleção de poemas diferentes ajuda mil vezes mais do que atrapalha, além disso, o vocabulário cresce sobremaneira enriquecido, o que é ótimo para qualquer um. Ademais, desde que comecei a guardar versos na alma notei uma melhora gradual e considerável tanto na minha dicção quanto na minha oratória.

Para quem gostaria de cultivar este hábito mas acredita não dispor de tempo ou não sabe como começar, digo o seguinte: comece com poemas que você gosta ou com poemas muito fáceis, no início não importa tanto se os versos escolhidos são bestas — um dos poemas que memorizei foi “Pontinho de Vista”, do Pedro Bandeira –, só tome cuidado para não estocar material supérfluo na cabeça, e arranje tempo, ora bolas, afinal, não memorizar versos é uma escolha absolutamente voluntária, não há desculpa real para se privar de encher o coração co’ as belezas de Camões, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Bocage, Fernando Pessoa e tantos outros luminares da poesia.

Lave o quintal recitando versos, leia poemas enquanto espera nas filas da vida, feche um pouco os olhos no ônibus ou no metrô e relembre estrofes, deixe a poesia falar enquanto caminha à padaria, espere o sono navegando por mares nunca de antes navegados ou pondo seus sonhos num navio, e o navio em cima do mar salgado das lágrimas de Portugal; foi em esquemas desses que guardei em meu âmago dezenas de versos.

Com a devida paciência e os devidos cuidados, o tempo pode ser multiplicado.

*

Bragança Paulista, 2020

Imagem: Pexels

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