Brevidades #5

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Um negócio que me chamou muito a atenção em “O Casamento Suspeitoso” foi a vileza de duas personagens, Lúcia e Roberto. Ambos traziam no peito desprezo pela Igreja Católica – talvez pelo cristianismo inteiro mesmo – e um senso de direção na vida tão torto que, para eles, desarranjar uma família e arruinar um homem decente não era nada, contanto que ganhassem uns trocados mais gordos.

Não equiparo Susana aos dois pois ela se mostrou menos ruim, e Cancão, embora peste rematada, tinha interesse real em ajudar o amigo, ainda que este não fosse seu único interesse no caso todo. Gaspar é um coitado incapaz de fazer frente a forças maiores que as suas próprias, e portanto o absolvo de julgamento mais duro.

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“Dark” caminha devagar, não é sem pausas e demoradas contemplações que a série conta sua história, e embora existam arroubos de urgência aqui e ali, o negócio é lento. É lento, mas dá vontade de acompanhar, dá vontade de vagar pela sombria floresta de Winden sem pressa, de tentar entender todas aquelas pessoas com paciência; e a paciência é recompensada. Parte generosa da recompensa é o elenco quem entrega, fazia muito tempo que eu não via um conjunto de atuações tão bom.

Há problemas na série – por exemplo, tive a impressão de que alguns monólogos saíram pretensiosos, pois não pareciam ter estofo –, todavia são percalços menores que não chegam a comprometer seriamente o trabalho completo.

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Nelson foi um desses sujeitos afortunados e tripudiados pela vida. Rico, vivia feliz e até conheceu o amor, mas perdeu todo o chão psicológico literalmente de um dia pro outro e se tornou levemente doido. Mário de Andrade, portanto, entrega ao leitor o segundo conto bom entre seus “Contos Novos”, junto com uma das personagens femininas mais originais de que já tive notícia.

Os problemas ficam por conta da escrita. Pontos de exclamação que deveriam ser de interrogação, orações confusas e isto: “…continuando o seu fingimento de ronda…” para se referir a um policial que estava fazendo a ronda de fato – até mesmo dispersara conversadores tardios que perturbavam o sossego d’uma rua.

Mesmo assim, repito, o conto é bom.

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Bragança Paulista

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