Impressões que me assaltaram durante a leitura de “O Boca-de-Ouro”

Já perambulei por mais de uma madrugada recifense; vi, das areias fofas da praia de Boa Viagem, o sol se achegando devagar, como se não quisesse acordar ninguém subitamente; vi, mais de uma vez, da janela do meu quarto, os primeiros movimentos num viaduto distante, quando o mundo ainda ia quase escuro; já singrei a Rua do Bom Jesus embebido naquela arquitetura belíssima, seguindo os trilhos do bondinho que lá não passa mais, rumo ao amplo Marco Zero, banhado daquela luz azulada, meio mística, que agracia quem acorda cedo ou quem não dorme na capital pernambucana; já contemplei os modestos pingos de fogo matinal nas águas plácidas do Capibaribe e observei as garças que caminhavam preguiçosas às margens do rio. Tenho pois vivência suficiente para sancionar Gilberto Freyre quando ele diz que o ar bom da madrugada dá ao Recife seu melhor encanto.

Freyre diz isso no relato sobre o Boca-de-Ouro em sua coletânea “Assombrações do Recife Velho”.

O relato, de apenas duas páginas — curtinho como vários outros relatos do livro –, é deveras intrigante, e até me surpreendi por ter colhido dele um pedacinho daquele mal-estar de quem vislumbrou algo ruim e proibido. O Boca-de-Ouro, pelo que entendi, é uma entidade fétida, de corpo inchado, que assombra madrugadores, e o nome dela vem da dentadura dourada que emoldura o bafo terrível saído das suas entranhas amaldiçoadas.

Curiosamente, após o relato, apesar do pequeno desconforto que havia me acometido, me peguei pensando na futilidade de usar material tão precioso no meio do rosto, pra mastigar comida e iluminar as caras em roda co’um sorriso inesquecível e talvez horroroso; me peguei pensando, enfim, na futilidade, na verdadeira inutilidade que é cuidar com tantas ganas da vida material se esquecendo das cautelas tão necessárias à alma, dos tratos caros ao espírito.

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Bragança Paulista, 2020

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